Interminável jornada para a humanidade

Interminável jornada para a humanidade

Não é apenas o passo definitivo para o homem que fez de Neil Armstrong um ícone mundial. A força central do roteiro de O primeiro homem: o filme, com estreia hoje, transpira dramas pessoais

Ricardo Daehn
postado em 18/10/2018 00:00
 (foto: Jessica Quinalha /NBCUniversal
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(foto: Jessica Quinalha /NBCUniversal )


Num cenário promissor, O primeiro homem, filme em torno da corrida espacial dos anos de 1960, aglomera talentos de peso ; dirigido pelo mais jovem vencedor do Oscar de melhor diretor Damien Chazelle. O longa ainda inclui o astro de La la land (criado por Chazelle, em 2016, com direito a seis estatuetas douradas) Ryan Gosling, ao reafirmar um ícone inconteste de todo e qualquer livro de viagem espacial: Neil Armstrong, o pioneiro astronauta a pisar o solo lunar. Cineasta da obsessão moderna na sétima arte ; à frente de filmes como Whiplash ; Em busca da perfeição (2014) e do musical de coreografias milimetradas La la land, Damien Chazelle recorreu, por exemplo, ao instrutor Frank Hughes, a serviço da Nasa no treinamento de Armstrong, para dar dicas para a preparação do protagonista Ryan Gosling, desde já a caminho de possível terceira indicação ao Oscar de melhor ator.

Tendo por produtores executivos um punhado de profissionais de cacife, entre os quais Steven Spielberg e Adam Merins (Em ritmo de fuga), O primeiro homem recria momentos repletos de tensão, ao abordar a inaugural investida do homem rumo à Lua. ;Se alguma pessoa falhasse, o projeto fracassaria;, sublinhou em material de divulgação do filme Marty Bowen (o mesmo da saga Crepúsculo), produtor alinhado, em função, a Wyck Godfrey (do sucesso A culpa é das estrelas). Até a consumação da missão Apollo 11, os espectadores do filme não deparam apenas com obstáculos tecnológicos. O primeiro homem abraça muitos dramas pessoais experimentados por Neil Armstrong ao lado da mulher dele, Janet (interpretada por Claire Foy, presente na série The crown).

Historiador dos ramos da ciência e da tecnologia, James R. Hansen foi outro nome a estruturar a transposição para as telas de oito anos essenciais na trajetória de Neil Armstrong, que culminaram no feito máximo de chegar à Lua, em 1969. Antes da morte do astronauta, em 25 de agosto de 2012, o autor Hansen quebrou a reticência do recluso personagem da história mundial, que permitiu e colaborou para a escrita de uma biografia. O primeiro homem chega aos cinemas sob a cuidadosa tutoria indireta de Mark e Rick, filhos de Armstrong, capazes de talharem uma imagem menos endeusada do pai, mas, nem por isso, desatenta da capacidade de ele enfrentar obstáculos.

;As cápsulas espaciais eram frágeis e muito apertadas: imperava uma tecnologia primitiva;, simplificou o ator Ryan Gosling à imprensa estrangeira, ao falar dos desafios reais de Armstrong. Sob viés, por momentos, documental, o longa chega aos cinemas, com a declarada pretensão de Damien Chazelle de ;enfatizar o quanto era assustador viajar para o espaço;. No campo técnico, O primeiro homem reúne nomes como Linus Sandgren (de A trapaça), diretor de fotografia, e Tom Cross (Joy: o nome do sucesso), responsável pela edição.

Tranquilidade, em face ao risco, e um foco ilimitado no trabalho estão entre as qualidades ressaltadas pelo produtor Wyck Godfrey, quando ele divaga sobre a figura central de O primeiro homem. ;Ele ocupava a cabine de comando e tomava decisões instantâneas;, já demarcou Godfrey, ao contar da capacidade de Armstrong suplantar adversidades, especialmente aquelas de escala privada. O roteiro do filme foi criado por Josh Singer, mestre de intrigas e tensões presentes em filmes como Spotlight ; Segredos revelados e The Post ; A guerra secreta.


Pés na Lua e na cozinha

Com acesso a mais de 700 páginas de pesquisas para a elaboração do livro assinado por James R. Hansen, Ryan Gosling abriu na equipe a frente de caminho entre ;a cozinha (numa referência da vida doméstica de Armstrong) e Lua;, alvos para a certeira caracterização do protagonista. Se a missão que encerrava ;loucura e perigo; (nas palavras de Ryan) foi cumprida, Damien Chazelle dissecou em filme os programas da Nasa atrelados à base do Cabo Canaveral, sem perder de vista o impacto emocional do ineditismo de cada missão (fosse da fase da Gemini ou da Apollo), dando ênfase às ;batidas de coração; inerentes aos feitos nunca experimentados.

Para além da unidade de trabalho entre ator e diretor (incrementada na dinâmica de improvisos no roteiro), a recriação da vida de Armstrong, por Gosling, esbarrou em semelhanças notadas pelo escritor no próprio ator: ;Ryan é introspectivo, metódico, quieto e modesto;, comentou a publicações internacionais. Representados em cena, os astronautas Buzz Aldrin (segundo homem a pisar na Lua, e interpretado por Corey Stoll) e Mike Collins (Lukas Haas, de A testemunha) não ganham demasiada relevância, mesmo tendo sido colegas de voo de Armstrong.

Dono de destino trágico, Ed White (personagem pioneiro, feito por Jason Clarke) ganha destaque, junto com o piloto espacial Roger Chaffee (Corey Mitchel Smith) e o terceiro homem a pisar na Lua, Pete Conrad (Ethan Embry). Interessante também é notar a inclusão na produção de duas peças musicais: Lunar Rhapsody (uma das favoritas do astronauta em pauta) e Egelloc, um musical que ele mesmo criou, nos tempos da juventude. O premiado compositor Justin Hurwitz (de La la land) assina a trilha sonora da fita.



US$ 59 milhões foi orçamento do longa O primeiro homem


107 prêmios ou indicações, por La la land, fizeram do diretor Chazelle destaque em 2016


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