Versão oficial em descrédito

Versão oficial em descrédito

Governos estrangeiros cobram explicações sobre o assassinato de jornalista dissidente no consulado do reino em Istambul, descrito como resultado de "uma briga". Turquia promete "descobrir tudo" e Trump sofre pressão de aliados no Congresso

postado em 21/10/2018 00:00
 (foto: Yasin Akgul/AFP)
(foto: Yasin Akgul/AFP)


Uma bateria de cobranças, críticas e desconfianças recebeu a explicação oficial da Arábia Saudita para a morte do jornalista Jamal Khashoggi, desaparecido desde o último dia 2, depois de ter entrado no consulado do reino em Istambul, na Turquia, para requisitar documentos. Embora tenha sustentado que desconhecia o paradeiro de Khashoggi, opositor notório do príncipe herdeiro, e garantido que ele deixou a representação diplomática ileso, o governo de Riad admitiu na madrugada de sábado que o jornalista morreu no consulado, em decorrência de ;uma briga;. Nos Estados Unidos, embora o presidente Donald Trump tenha aceitado a versão saudita como ;confiável;, ela foi refutada por importantes congressistas governistas. Um porta-voz turco denunciou uma ;manobra de encobrimento; e prometeu que seu governo ;vai apurar o que aconteceu;.

Falando à agência de notícias Anadolu, Omar Celik, porta-voz do partido liderado pelo presidente Recp Tayiip Erdogan, afirmou que o governo de Ancara ;não acusa ninguém por antecipação, mas não vai aceitar que nada fique encoberto;. As sucessivas versões sauditas entram em conflito com o relatado por funcionários turcos sobre o que aconteceu no consulado saudita em Istambul. Em contatos com autoridades americanas, confirmados por estas ao jornal The Washington Post ; do qual Khashoggi era colunista ;, foram mencionados registros de áudio e vídeo feitos no interior do prédio. O jornalista teria sido interrogado e morrido sob tortura, e seu corpo teria sido desmembrado. As buscas por ele foram estendidas a um bosque próximo ao consulado.

Autoridades dos dois países fizeram diligências conjuntas no consulado, na semana passada, e os dois governos estabeleceram uma comissão conjunta para investigar o desaparecimento de Khashoggi. Ontem, porém, o ministro saudita da Justiça, Walid bin Mohammed al-Samaani, rechaçou a ideia de que a Turquia possa desenvolver um inquérito próprio sobre a morte do jornalista. ;A jurisdição cabe aos tribunais sauditas, pois os fatos ocorreram dentro do consulado, que está sujeito à soberania do reino;, afirmou. O governo de Riad anunciou a detenção de 18 cidadãos sauditas suspeitos de envolvimento e a demissão de ao menos cinco altos funcionários, entre eles o general Ahmad al-Assiri, subchefe da Inteligência.



Reações

O presidente Donald Trump recebeu a explicação saudita como ;confiável; e elogiou o ;passo muito importante;, mas o governo de um dos principais aliados dos EUA no Oriente Médio não convenceu importantes congressistas do Partido Republicano (governista). ;A versão deles muda todo dia, então não podemos assumir que essa última se sustente;, disse o senador Bob Corker, que preside o Comitê de Relações Exteriores. O colega de bancada Lindsey Graham, uma das vozes mais respeitadas no Congresso, foi irônico: ;Dizer que eu sou cético sobre a narrativa saudita seria um eufemismo;. O senador Jack Reed, principal representante da oposição democrata no Comitê das Forças Armadas, viu na versão de Riad ;uma confissão de culpa;, mas insistiu em que ;eles não estão apresentando a verdade nua e crua;.

Os EUA, assim como o Reino Unido, decidiram não enviar representantes de governo a um importante fórum de investimentos organizado pela Arábia Saudita e marcado para o fim deste mês. Ontem, a Austrália se somou ao boicote, que tem a adesão também de Holanda e França. A Alemanha não anunciou decisão sobre o evento, mas a chanceler (chefe de governo) Angela Merkel divulgou nota conjunta com o ministro de Relações Exteriores, Heik Maas, na qual cobram ;transparência; da Arábia Saudita: ;As informações de que dispomos sobre o que aconteceu em Istambul são insuficientes;.



;A Turquia não acusa ninguém por antecipação, mas não vai aceitar que nada fique encoberto;
Omar Celik, porta-voz do partido do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan



Meio milhão pelo referendo


Mais de meio milhão de pessoas foram ontem às ruas de Londres para exigir que seja submetido a referendo o acordo final sobre a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), chamada de Brexit. A manifestação, a cinco meses do prazo definido pelas partes para a conclusão do acordo e o início do processo de transição, foi o maior ato público no Reino Unido desde os protestos contra a guerra do Iraque, em 2003, de acordo com o movimento People;s Vote, que convocou a marcha. Segundo os organizadores, 570 mil manifestantes atenderam o chamado e caminharam até o parlamento. A primeira-ministra Theresa May descarta a ideia de uma consulta aos eleitores sobre o Brexit.


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