Voltar-se a si pelo bem comum

Voltar-se a si pelo bem comum

A prática da meditação pode fazer com que as pessoas passem a adotar comportamentos mais altruístas, segundo estudo alemão com 332 voluntários. Os resultados foram atingidos com sessões semanais de meia hora, ao longo de três meses

Vilhena Soares
postado em 21/10/2018 00:00



Martin Luther King dizia que cada homem tem uma escolha na vida: caminhar pela luz do altruísmo construtivo ou pelas trevas do egoísmo destrutivo. O líder do movimento negro ficou famoso na década de 1960, época de grande violência racial nos Estados Unidos, ao defender um dos lados: o da igualdade e do amor ao próximo. Mas não é só o trabalho de ativistas que pode estimular as pessoas a seguir a trilha do bem comum, segundo cientistas da Alemanha. Por meio de experimentos, eles mostraram que é possível despertar o humanitarismo com ajuda da meditação.

Principal autora do estudo, publicado na revista especializada Scientific Reports, Anne B;ckler-Raettig diz que o cenário atual não se mostra muito diferente de tensões do passado. A crise dos refugiados e a desigualdade social são alguns exemplos do forte clima de animosidade e da necessidade de atitudes mais altruístas. Para ela, a cooperação é um dos fatores essenciais para resolver essas questões. ;A pró-sociabilidade humana está no centro das sociedades pacíficas e é fundamental para enfrentar os desafios globais;, ressalta a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Würzburg.

Segundo a cientista, a cooperação e o altruísmo têm sido o foco de muitas disciplinas, desde filosofia e psicologia até matemática e economia, passando pela biologia evolutiva e pela neurociência. ;Ainda assim, surpreendentemente, pouco se sabe sobre como as motivações altruístas humanas podem ser treinadas;, afirma. Anne B;ckler-Raettig acredita que essa dificuldade pode ser justificada pelo fato de os investigadores considerarem complicada a maleabilidade desse comportamento. Para ela, os resultados do trabalho provam que essa suposição está errada.

Em um experimento científico que durou alguns meses, um grupo de 332 participantes, com idade entre 20 e 55 anos, foi submetido a três tipos de treinamento mental que tinham o objetivo de aumentar a compaixão e a solidariedade. No primeiro módulo, foram trabalhados o aumento da atenção no momento presente e a consciência corporal ; semelhante ao que é ensinado em aulas de redução do estresse baseadas na meditação mindfulness.

O segundo módulo, chamado afeto, teve como foco habilidades socioafetivas, como compaixão, gratidão e motivação pró-social. Nele, os participantes invocaram sentimentos de cuidado para si e para os outros por meio da meditação, além de participar de uma atividade feita em parceria. Por meio do diálogo, eles falaram sobre situações difíceis vivenciadas recentemente e exploraram suas emoções em relação aos acontecimentos relatados.

O terceiro módulo foi sobre a flexibilidade cognitiva. Pela meditação, os voluntários treinaram o pensamento observacional ; tiveram que analisar o que pensavam sem julgar como algo negativo ou positivo. ;Nós estávamos interessados em descobrir qual treinamento mental seria eficaz em cultivar comportamentos altruisticamente motivados, isto é, o comportamento que é imediatamente direcionado para melhorar o bem-estar de outra pessoa;, conta Anne B;ckler-Raettig. Os participantes contaram com a ajuda de professores em todas as atividades.

Técnicas simples

Ao analisar o desempenho dos voluntários, os pesquisadores chegaram à conclusão de que apenas o módulo afeto teve um impacto direto no comportamento altruísta. Após esse treinamento, as pessoas se mostraram mais generosas e dispostas a ajudar os outros espontaneamente. Elas, por exemplo, doaram quantias de dinheiro maiores a organizações de assistência social. ;Esse módulo, aplicado por professores por meio de reuniões semanais de cerca de 30 minutos, ao longo de três meses, efetivamente impulsionou comportamentos altruístas. Nenhum dos outros dois módulos apresentou tantos progressos quanto o do afeto;, detalha a autora.

A conclusão da equipe é de que a motivação e o comportamento altruísta podem ser alterados por meio de práticas mentais simples, curtas e baratas. ;Cultivar essas capacidades afetivas e motivacionais nas escolas, em ambientes de saúde e em locais de trabalho pode ser um passo efetivo para enfrentar os desafios de um mundo globalizado e avançar para uma sociedade solidária;, destaca Anne B;ckler-Raettig. ;Conseguimos demonstrar que a pró-sociabilidade humana é maleável e que diferentes aspectos desse comportamento podem ser melhorados sistematicamente por meio de diferentes tipos de treinamento mental.;

Kenia Mickessia de Amorim Oliveira, psicóloga escolar do colégio Galois, em Brasília, acredita que as novas gerações têm tido dificuldade em praticar o altruísmo. Por isso, a importância de exercitar a habilidade por meio das experiências. ;Acho que intervenções como essa do estudo alemão podem resgatar esse sentimento de humanidade e, principalmente, trabalhar a inteligência emocional, algo que cada dia mais vemos como é importante;, diz.

A psicóloga conta que existe uma portaria que estuda a implantação da educação emocional no ambiente educacional. Para ela, a medida pode ter impactos muito positivos em crianças. ;Na infância, temos os conflitos de identidade, de pertencimento a um grupo. Quando você não é aceito, algumas atitudes dos outros podem ser cruéis, gerar muito sofrimento. Por isso, é importante esse tipo de orientação, que envolve também o estímulo ao altruísmo;, opina.

Mais estudos

Os autores chamam a atenção para o fato de que a simplicidade das atividades testadas é um dos pontos positivos do estudo. ;Nossos treinamentos são relativamente simples e curtos, e a maioria das pessoas poderia integrá-los em suas vidas diárias. Nossos resultados mostram que é possível fazê-los regularmente. Em alguns meses, eles já mudam tendências comportamentais;, diz a líder da pesquisa.

Ainda assim, a equipe reforça que o trabalho precisa ser aprofundado. Os pesquisadores acreditam que a coleta de mais informações poderá otimizar as técnicas. ;Claro que novos estudos precisarão mostrar quão duradouros são esses efeitos e se eles podem ser estabelecidos em locais de trabalho e escolas. Os próximos passos envolvem investigar se os efeitos positivos dos treinos são estáveis ao longo do tempo, se ainda podem ser observados meses após o treinamento. Também será interessante examinar se algumas pessoas se beneficiam mais com o treinamento do que outras. Essas informações podem nos ajudar;, adianta Anne B;ckler-Raettig.



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