O candidato que fulminou mitos eleitorais

O candidato que fulminou mitos eleitorais

Bolsonaro fez das redes sociais o caminho certo para chegar a uma provável vitória neste domingo

» LEONARDO CAVALCANTI
postado em 28/10/2018 00:00
 (foto: Carl de Souza/AFP)
(foto: Carl de Souza/AFP)



Se a campanha de primeiro turno do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) havia quebrado quase todas as regras de marketing político, na segunda fase da eleição ele foi ainda mais radical. Ao evitar a ida aos debates e aos eventos de rua com os argumentos de recuperação do atentado à faca e do receio de ;ações terroristas;, o capitão reformado mostrou mais uma vez a força das redes sociais.

A melhor metáfora futebolística ; tão usada por Luiz Inácio Lula da Silva, o arqui-inimigo de Bolsonaro ; é a do homem que joga parado, sem muito esforço, mas, mesmo assim, mostra-se efetivo. Antes de uma figura de linguagem pejorativa, a estratégia de Bolsonaro se mostrou eficiente por ter sido construída ao longo de um tempo, por ele mesmo.

O melhor exemplo de que Bolsonaro ; vítima de atentado à faca durante em Juiz de Fora (MG) ;continuou dinamitando os dogmas de campanha no segundo turno está nos debates televisivos. Mesmo com o argumento do desconforto causado pela bolsa de colostomia ; aceito, inclusive, por integrantes da oposição ;, o capitão reformado foi criticado por ter evitado o debate. A ampla margem das pesquisas facilitou a tomada de decisão de evitar os debates, mas a ampliação da estratégia ao longo da campanha era vista por especialistas como um risco. Sem os embates, a campanha de Bolsonaro manteve o foco nas redes sociais fechadas.

Televisão

A derrubada de mitos por Bolsonaro tem nas redes sociais o ponto forte, que causa uma espécie de efeito dominó nas antigas certezas de marqueteiros políticos. Como no caso dos debates, os programas no rádio e televisão perderam a força. Se tal constatação havia sido feita no primeiro turno ; por causa do tempo irrisório do capitão reformado ;, a confirmação acabou vindo nos últimos 20 dias. Explica-se.

Ao longo dos programas de TV do segundo turno, os números das pesquisas de intenção de votos pouco ou nada se alteraram ; só começaram a mudar em favor de Haddad a partir da última quarta-feira. O que se pode dizer a partir de tal constatação é que Bolsonaro fez um programa correto, de manutenção da vantagem, pelo menos na maior parte do segundo turno.

O mesmo não pode ser dito sobre o vídeo exibido a apoiadores que se reuniram no último domingo na Avenida Paulista, em São Paulo. O discurso foi visto como agressivo não apenas contra os adversários petistas, mas também em relação à imprensa. O caso mais dramático para a campanha, entretanto, chegou com a viralização de uma gravação de Eduardo Bolsonaro, filho do militar reformado, que tratou de uma suposta intervenção no Supremo Tribunal Federal (STF). Os dois episódios mostram que o desgaste só ocorreu com a exposição.

Eficiência

Uma das marcas de Bolsonaro ao longo da campanha foi a eficiência no uso das redes sociais. Se tudo parecia improvisado, o crescimento consolidado a cada pesquisa mostrou um preparo poucas vezes visto num candidato, mesmo que um marqueteiro oficial tenha sido anunciado, além de um ou outro consultor, como o norte-americano Arick Wierson. O aparente amadorismo foi capaz de angariar apoios e colaboradores espontâneos. A fórmula só deu certo por causa do próprio estilo direto, que parece ter caído como uma luva no perfil do eleitorado contrário ao PT.

;Bolsonaro é uma espécie de iconoclasta, alguém que quebra regras para estabelecer as próprias. De certa forma, a humildade dele em aceitar palpites tanto econômicos como de governo mostra um político nada prepotente, ao contrário de todos que se mostraram nos últimos tempos;, disse Wierson. Ao mesmo tempo, o capitão reformado foi beneficiado pela rejeição do PT. ;É como se Bolsonaro fosse alimentado pelo próprio Lula. De certa forma, ele existe por causa de Lula. Ele deve os atuais percentuais de votos a Lula;, afirmou o marqueteiro Marcelo Vitorino, que trabalhou na campanha de Geraldo Alckmin.

De certa forma, Bolsonaro é a antítese de Lula em relação ao discurso, mas que, na prática, reforça um estilo de diálogo aberto com o eleitor potencial. A distância de Bolsonaro dos políticos tradicionais aumentou a identificação. Se, no primeiro turno, ele não contou com alianças formais, no segundo, evitou apoios explícitos aos políticos que continuavam na corrida aos governos estaduais. Foi o que ocorreu com o candidato do PSDB ao governo de São Paulo, João Doria, que praticamente implorou por um aceno. Ficou sem nada. O mesmo ocorreu com outros políticos, que declararam apoio, mas não foram correspondidos.

Rotina

Em determinados momentos, a campanha de Bolsonaro mostrou uma euforia desmedida, a ponto de o general Augusto Heleno pedir humildade aos apoiadores, na semana passada, quando havia 15 dias para a eleição. ;No futebol, ninguém entra em campo com a faixa de campeão. O mesmo pode ser dito em relação à eleição;, disse o militar da reserva, que, num eventual governo Bolsonaro, será o ministro da Defesa. Enquanto isso, o capitão reformado fazia visitas pontuais a religiosos, como o cardeal arcebispo dom Oroni Tempesta e líderes evangélicos, e a tropas de policiais militares. Todos no Rio de Janeiro. Em casa, o deputado também recebeu o apoio de empresários, demonstrando eficiência nos encontros.

Nos últimos dias, Bolsonaro deu entrevistas pedindo aos apoiadores que não aceitassem provocação e posou com lutadores de jiu-jitsu que o visitaram. Um dos trunfos para enfrentar a onda de artistas que apoiaram o adversário Haddad foi a declaração de voto da atriz Regina Duarte, que fez campanha aberta para o militar reformado. A guerra nessa área rendeu mais imagens para Haddad, até pela movimentação na última semana nas capitais. Regina Duarte foi um contraponto numa disputa mais de torcidas com voto consolidado do que para avançar em apoios efetivos.

Ruralistas

Bolsonaro fez questão também de aparecer ao lado de integrantes de frentes ruralistas. A eleição de um Congresso considerado mais conservador fez com que pautas sobre o tema fossem discutidas, considerando o favoritismo do militar reformado. A bancada eleita do PSL, com 52 deputados, levou a discussão sobre projetos de segurança, como a redução da maioridade penal e o fim do Estatuto do Desarmamento. A expectativa é de que as propostas sejam votadas logo no início do governo, caso a eleição de Bolsonaro se confirme. A estratégia é aproveitar a força da posse para avançar nos temas, logo depois de encerrada a disputa pela Câmara e pelo Senado.

Um dos episódios da campanha foi a possibilidade de notícias falsas ligadas a apoiadores de Bolsonaro. Operações da Polícia Federal chegaram a identificar alguns dos suspeitos em tentar viralizar as fake news. A estratégia do deputado e dos apoiadores foi desqualificar as acusações, rebatendo as próprias informaç

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