A direita mostra a cara

A direita mostra a cara

Diante da surpresa com a ascensão de Jair Bolsonaro, analistas divergem sobre mudança de ideologia da população. Mas não resta dúvida de que muita gente perdeu a vergonha de se declarar conservador

PAULO SILVA PINTO LUCAS VALENÇA
postado em 28/10/2018 00:00
 (foto: Luis Nova/Esp.CB/D.A Press
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(foto: Luis Nova/Esp.CB/D.A Press )



O avassalador crescimento, neste ano, de Jair Bolsonaro, favorito na eleição presidencial de hoje, chamou a atenção de muita gente na política, nos mercados e, sobretudo, na academia. A surpresa veio acompanhada, na elite intelectual, de uma indagação: como não se conseguiu prever isso? O país está passando por guinada à direita? Ainda há muitas divergências sobre o tema e uma única certeza: a análise do quadro vai levar muito tempo para se consolidar.

O discurso de Bolsonaro, em vários momentos, foi de enaltecimento da ditadura militar entre as décadas de 1960 e 1980 e, até mesmo, da tortura. Durante a campanha, ele não voltou a tocar nesses temas. Tampouco negou o que dissera antes. Paradoxalmente, nunca a população defendeu tanto a democracia. Essa é a melhor forma de governo para 69% da população, de acordo com a pesquisa do Datafolha realizada no início do mês. É o maior índice desde 1989, início da série histórica ; em junho deste ano, estava em 57%.

Quando se observa de modo mais restrito o ambiente dos representantes políticos, porém, as mudanças de comportamento são claras, afirma Antônio Augusto de Queiroz, diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Análise Parlamentar (Diap). ;No passado, havia constrangimento para o parlamentar, e mesmo o eleitor, se assumir de direita. Havia vergonha. Isso era associado ao autoritarismo. Para os conservadores, era algo tão agressivo ser tachado assim como alguém de viés mais à esquerda ser chamado de neoliberal por concordar com algumas reformas;, relata. É algo completamente diferente, na avaliação dele, o que se tem visto de alguns meses para cá. ;As pessoas saíram da toca. Saem de peito aberto, pois há uma legitimação cultural;, destaca.

Na opinião de alguns observadores, porém, será necessário distanciar-se no tempo para analisar se este é realmente um momento de transformação. As indicações são de que isso não ocorre por ora, na análise de Roberto Romano, professor de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). ;Fala-se agora de nova direita. Isso não existe. Assim como não existia a nova classe média de que se falava há alguns anos;, afirma.

Ele nega que a classe média seja de direita, ou mesmo conservadora. Recorre ao filósofo holandês Spinoza, do século 17, que falava em ;flutuações da alma; ao explicar as mudanças de pensamento desse grupo. ;A classe média não é a dona do capital, é gente que depende de emprego. Vê sempre o Estado como uma ameaça. E migra de um grupo político para outro para defender a posição que tem;, explica. O combate à corrupção é sempre um componente de destaque nas decisões desse estrato da população. Na década de 1950, por exemplo, falava-se em ;mar de lama; em referência aos malfeitos realizados com o dinheiro do contribuinte.

Corrupção

Nesse movimento pendular do eleitor, porém, algumas mudanças são perceptíveis, nota o cientista político Antonio Lavareda. Por mais que o PSDB tenha sido uma legenda criada com um viés mais alinhado à centro-esquerda, ele entende que, ao longo do tempo, o partido passou a se posicionar na centro-direita. No entanto, o protagonismo visto nas eleições de 2014 não se repetiu no pleito deste ano. A legenda perdeu um número considerável de congressistas e o candidato à presidência Geraldo Alckmin teve somente 4,8% dos votos, mesmo com o maior tempo de tevê entre os candidatos. ;Pela primeira vez aparece uma força política, Bolsonaro, mais próximo do extremo da direita, que atropela o representante anterior que é o PSDB;, explica.

Para Lavareda, ter caciques citados em escândalos de corrupção ; como o senador Aécio Neves (MG) e o ex-governador do Paraná Beto Richa ; fez com que os tucanos se enfraquecessem perante o eleitor cativo. ;O PSDB sucumbiu naturalmente. A representação passou para um partido, o PSL, liderado por Bolsonaro, que começou a liderar e a comandar esse processo;, afirma o pesquisador.

O cientista político lembra que o PSL, puxado por Bolsonaro, conseguiu eleger a segunda bancada da Câmara ; mas que é a primeira em número de votos agregados. Essa expressiva votação também é resultado do enfraquecimento da esquerda que, segundo Lavareda, ;saiu fragilizada dos últimos governos;.

Segundo o cientista político e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) Homero de Oliveira, o brasileiro não tem o costume de votar em partidos ou em ideologias. Por essa razão, o pesquisador ressalta que foi a figura pessoal de Bolsonaro que transformou candidatos pouco conhecidos em parlamentares eleitos. ;Muitos eram absolutas nulidades, que subiram nessa onda bolsonarista. Nós tivemos, por exemplo, generais e militares que, depois de eleitos, deram declarações próximas da extrema direita;, nota o professor.

As mensagens simplificadas sobre segurança pública foram essenciais para a eleição da expressiva bancada do PSL e de membros de outros partidos de direita, diz Oliveira. Ele afirma que a publicidade elaborada em torno do medo da população foi ;bastante eficaz;. ;Além disso, parte significativa das igrejas evangélicas teve um papel muito importante. Esse setor mais hegemônico, mais conservador, possui uma capilaridade em todo o país que também influenciou em favor de Bolsonaro;, explica o cientista político.

Promessas

As fake news também foram significativas na exploração de temas que acabaram sendo simplificados e que mudaram o perfil do Legislativo. Para Homero de Oliveira, as dificuldades ficarão mais claras quando certas promessas forem cobradas pelos eleitores. ;Caso venha a ser eleito, Bolsonaro acha que, simplesmente pelo fato de estar na Presidência e de ter a segunda maior bancada do Congresso, vai conseguir armar a população e resolver a violência. Se os índices não diminuírem, ele terá outros problemas;, diz.

Partidos de direita no Brasil já tiveram expressão em alguns momentos da história. Lavareda destaca que, durante a ditadura militar, a Arena ; partido do governo ; exerceu uma força política ;bastante considerável;, devido às regras impostas pelo regime vigente. Antes, a UDN se manteve como o segundo partido durante anos. Em 1960, chegou a eleger, para presidente, Jânio Quadros. Na redemocratização, o PFL se tornou a legenda que agrupava esse pensamento. ;O PFL, que sucedeu a Arena e parte do PDS, chegou a ter força em alguns estados, mas não disputava eleições presidenciais desde 1989, quando Aureliano Chaves teve um desempenho pífio;, diz.


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