Desafio será unir o país

Desafio será unir o país

Vencedor do segundo turno precisará gerenciar conflitos no Congresso e na sociedade. Para especialistas, o novo presidente deve equilibrar interesses, reafirmar valores da democracia e universalizar direitos

JORGE VASCONCELLOS ESPECIAL PARA O CORREIO OTÁVIO AUGUSTO
postado em 28/10/2018 00:00
 (foto: Janine Moraes/CB/D.A Pres - 15/5/13
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(foto: Janine Moraes/CB/D.A Pres - 15/5/13 )



O próximo presidente, seja Jair Bolsonaro (PSL), seja Fernando Haddad (PT), deverá, obrigatoriamente, ser um bom gerenciador de conflitos. Quem ocupar o gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto enfrentará um parlamento fragmentado e uma sociedade altamente polarizada. Intermediar embates, equilibrar interesses e manter ouvidos interessados no que o outro tem a dizer pode diminuir os traumas de uma recrudescente rivalidade.

Ainda não é possível vislumbrar com clareza que caminhos o país seguirá. Ao longo dos últimos 74 dias ; desde o início da campanha, em 16 de agosto ; raros foram os momentos em que Bolsonaro e Haddad debateram propostas. Em vez disso, trocaram ataques, acusações mútuas e se esqueceram de detalhar suas propostas para uma sociedade plural e democrática.

Grupos vulneráveis, que não encontram amparo suficiente na legislação vigente, como transgêneros e demais variações de identidade sexual, negros, mulheres e pobres, ainda esperam quais serão os passos subsequentes às eleições. Eles não estão sós. Idosos, crianças, investidores financeiros, empresários e estudiosos também querem respostas.

E uma ressalva: as minorias nem sempre estão em menor número na sociedade. Os negros, por exemplo, são 55% da população brasileira. A taxa de assassinatos dessa parcela da população cresceu 23% em uma década. Outro recorte são as mulheres. Elas são 52% do eleitorado que vai às urnas hoje ; mais de 77 milhões. Mesmo com a representatividade numérica, são vítimas de mortes violentas ; o Brasil é o quinto país no mundo em que mais mata se mulheres, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos ;, e recebem salário mais baixo em relação a homens na mesma função.

Diálogo

O antropólogo Lênin Pires, especialista em administração de conflitos, da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que não há outra maneira de governar que não por meio do diálogo. ;O próximo presidente terá que fazer o esforço da escuta interessada. Tem que haver a perspectiva de construção de consensos, mesmo que provisórios;, adverte o professor.

Segundo ele, há um processo de desconfiança entre as pessoas e as instituições. ;É fundamental que se busque estabelecer a confiança como um bem público. As instituições, os diálogos, os processos políticos e, sobretudo, a Justiça devem ter habilidade, capacidade e interesse de agregar;, conclui.

A pluralidade brasileira não é exclusividade. ;A diferença é o que molda qualquer sociedade. A diversidade sempre existiu e tem várias perspectivas. Temos uma sociedade moderna, complexa e com gritantes e desafiadoras diferenças. O grande segredo é apostar e reafirmar os valores da democracia e amplificá-los. Universalizar direitos;, acrescenta.

Um dos maiores riscos nesse processo, de acordo com o cientista político e antropólogo Javier Amadeo, coordenador do projeto Violência de Estado no Brasil, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é o presidente governar para um setor social. ;O grande desafio será resolver a polarização que está instalada no país. Claramente os candidatos que se enfrentam no segundo turno não têm a habilidade de escutar;, critica. Ambos terão dificuldades em articular com um Congresso fragmentado, acredita Amadeo.

Essa fratura está colocada na sociedade há muito tempo. É o que pensa o cientista político Antonio Carlos Mazzeo, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp). ;A sociedade está dividida em classes. Nisso, existem enfoques, interesses. O que mudou é que o Brasil ganhou muita radicalidade, principalmente na perspectiva do avanço do conservadorismo;, avalia.

Para Rui Tavares Maluf, cientista político da Universidade de São Paulo (USP), a pacificação dependerá da posição do próximo presidente e de uma agenda política. ;Esse segundo turno, com as candidaturas polarizadas, tende a deixar feridas que dificultam o apaziguamento. O que se espera é que os conflitos não sejam como os que estamos assistindo;, frisa.

A disputa presidencial chega ao fim marcada pelo agravamento de um histórico processo de polarização que cortou o país ao meio, impulsionado pela tensa campanha eleitoral de quatro anos atrás. Nesse ciclo, intimidações a instituições públicas, ameaças a opositores, violência e morte nas ruas são os principais reflexos de uma profunda ruptura política e social. Estará diante do próximo presidente da República o desafio de promover uma reconciliação nacional, caso queira governar para toda a população, de acordo com o preceito constitucional de que ;todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza;, com direito à vida, à igualdade e a outras garantias.

Conhecido, pelo menos até pouco tempo atrás, como o país do futebol, o Brasil que sairá das urnas, seja qual for o resultado da eleição presidencial, permanecerá dividido como duas torcidas, com um ;nós contra eles;. Ambiente criado a partir do descrédito com a política e das dificuldades econômicas, fatores que tornam o terreno fértil para o avanço do populismo, da radicalização e da polarização. Fenômeno mundial visto também em outros continentes, onde o nacionalismo de extrema direita ganha força em países como Alemanha, Itália e Hungria.

Antagonismo

;Valores fundamentais estão abalados em todo o mundo. No Brasil, isso assumiu um forte viés político, em que se tem de eleger um inimigo para fazer política;, diz o professor Lúcio de Brito Castelo Branco, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (SOL/UnB). ;É uma onda muito brava, um tsunami, um arrastão que nivela a todos no sentido de quem é arrastado e de quem se nega a ser arrastado. É a primeira vez na história política brasileira que ocorre essa divisão;, afirma.

Para Marcus Ianoni, professor de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro, uma das raízes desse tenso clima de polarização é o que ele chama de ;politização do combate à corrupção; no país. ;A divisão tem a ver com as sucessivas vitórias do PT nas eleições presidenciais, com o modo como o envolvimento do PT na Operação Lava-Jato foi abordado pela oposição ao partido, pelo Poder Judiciário, pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal. Houve uma politização do combate à corrupção;, declara.

As eleições de hoje acont

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