Brasil S/A

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Não importa o eleito, venceu a parcela majoritária da sociedade que votou pela própria emancipação

por Antonio Machado machado@cidadebiz.com.br
postado em 28/10/2018 00:00



Alforria na urna

O que tinha de ser na corrida presidencial mais curta da história, e uma das mais sujas também, está feito. Segue incerto o que será feito para afrontar o descaso dos governantes com o desenvolvimento movido a investimento e educação, causa gritante do atraso social, cultural, econômico e tecnológico que nos marginaliza do progresso global.

A incerteza é menos devido à falta de proposta que do rumo a tomar. Não se discute a prioridade do ajuste fiscal e, sim, seu conteúdo e, sobretudo, a diretriz. Um programa analógico ao gosto dos economistas tradicionais será mais do mesmo sopão azedo repelido pela sociedade, e com alto risco de só agir sobre a febre, não sobre o que a provoca.

Um programa transformador tal como ansiado pela sociedade, ou o voto continuaria contemplando PT e PSDB, implica rever todos os processos dos programas e políticas públicas, seguido da introdução no governo das tecnologias de informação em larga escala. Isso envolve arrecadar impostos em tempo real, fundir os cadastros sociais, gerir seus dados com foco nas necessidades reais de cada indivíduo, e por aí vai.

A ideia do GovTech (que consiste em injetar a inteligência do mundo digital na gestão pública) e gente capaz de implantá-la, boa parte do próprio setor público, estão prontas. Falta sabedoria para assumi-la. E o juízo de que a raiz do mal-estar que nos abate está na estrutura do Estado nacional e nas instituições constituídas para governá-lo.

Nunca houve, de fato, uma estratégia sustentada para emancipar, sem sofismas, a parcela majoritária da população. Ela continua em guetos, resistindo em meio à violência, à carência de saneamento, de saúde eficiente, de transportes decentes, entre tantas mazelas que não se curam com Bolsa Família, vale-gás, empregos precários.

Nossa horrível realidade é o outro lado da mesma moeda cunhada pela Constituição de 1988. Foi apelidada de ;cidadã;. Mas cidadania plena foi dada só aos servidores protegidos pelo emprego estável ; a única categoria com salário indexado à inflação, gratificações isentas de imposto, plano privado de saúde, licença remunerada, aposentadoria integral e precoce ; e muito mais, conforme a força da corporação.

O ;freguês; é (era) dócil

Ao funcionário tratado como aristocracia de Estado à custa da massa ignara adicionou-se um regime econômico que premia setores privados com mercados protegidos de concorrência, com desonerações fiscais e financiamento a perder de vista e juro subsidiado, gerando empresas acomodadas, antiquadas, incapazes de inovar e competir no exterior.

Sem estímulos para ousar, para ir atrás de desafios em vez de erguer muros contra competidores, nossos grupos econômicos, multinacionais, inclusive, com as exceções de sempre, são mais frágeis que lojinha de bairro, além de desmotivados a alavancar o ensino profissionalizante.
Mas, grave mesmo é a burocracia obesa, insensível. Porém, por que ela se esforçaria, se é indemissível, a meritocracia é tratada como palavrão neoliberal, o concursado entra com salário acima do que receberia no setor privado em função equivalente e chega logo ao topo da carreira sem nexo com seu desempenho, e o ;freguês; é dócil e desinformado?

Maioria mandou às favas

Esse Brasil depauperado, sem ambição, visto como ensaio exótico pelos intelectuais, largado à míngua pelos políticos, mesmo os que se dizem progressistas, mandou às favas a oligarquia dos partidos, os santeiros corruptos, e foi engrossar o caldo do mais botocudo deles, sem trava na língua e inimigo militante do politicamente correto.

Ignorou os alertas da imprensa de que a democracia corre risco com ele, caçoou nas redes sociais dos especialistas de pesquisas que lhe davam um teto de 20% do eleitorado, fez vista grossa às barbaridades que disse em seus sete mandatos de deputado federal.

Na verdade, ao contrário do que seus desafetos insistem em alardear, o povo majoritário da pirâmide social o adotou, tanto que o candidato só foi atrás, sem prometer coisa alguma nem discursar.

O levante da periferia
Com Jair Bolsonaro eleito ou não, o Brasil nunca mais será o mesmo ; e isso nada tem a ver com sua orientação política. Deve-se ao que os sociais-democratas não fizeram nos 24 anos de domínio de PSDB e PT, secundados por MDB e que tais. Isso é o que fica da eleição.

A periferia se levantou contra a vasta degradação da gestão pública, função de políticos eleitos e da burocracia concursada, e da falta de um programa desenvolvimentista honesto, apartidário, de longo prazo e com ênfase na educação, no ensino técnico e no investimento.

Faz-se uma nação próspera com pessoas aptas a prover as demandas do crescimento, e não só com grandes obras. Elas são relevantes para a expansão econômica, mas não atendem, necessariamente, o bem-estar, se não tiverem correlação com a autonomia da população. Se ficar claro à sociedade os benefícios de um programa transformador, os contrariados enfiam a viola no saco e... deixam o WhatsApp e quejandos em paz.

De onde vem a inspiração
O fato é que a recuperação da economia está em curso, mais lenta que o desejado, mas capaz de pegar no tranco se ficar claro que a reforma do Estado será ampla, sem indulgência com os encostados no Tesouro.

É o caso da eletrônica na Zona Franca de Manaus, que existe graças à desoneração de tributos essenciais para fins mais meritórios. E dos subsídios para o setor automotivo replicar aqui o que desenvolveu na matriz. Ou do bem-sucedido agronegócio, que já deveria arcar com suas obrigações previdenciárias. O Simples ser só simples, não subterfúgio para elisão fiscal. Riscar os Refis da agenda parlamentar, etc.

A inspiração deve vir das novas tecnologias, o caso da processadora de cartões de crédito Stone. Ela abriu seu capital em Nova York esta semana e já está avaliada em mais de US$ 8 bilhões, obra de dois jovens empreendedores, André Street e Eduardo Pontes. É o Brasil que dá certo e pode funcionar para todos. Não é pedir demais.



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