360 Graus

360 Graus

por Jane Godoy janegodoy.df@dabr.com.br
postado em 28/10/2018 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press - 14/4/16
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(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press - 14/4/16 )
;A força não provém da capacidade física e, sim, de uma vontade indomável!”
Mahatma Gandhi



A partida do cavalheiro

Uma história viva, cuja fluência e riqueza de detalhes em seus relatos que brotavam de uma cabeça privilegiada apesar da idade avançada eram transmitidas por uma voz forte e de dicção perfeita, eloquente.

Homem de compleição frágil, estatura mediana, Affonso Heliodoro dos Santos mantinha a forma física como hoje os jovens fazem, se orgulhando de subir e descer as escadas de sua casa, sempre cuidando de sua amada, ;Sãozinha;, de quem cuidou como pai, como filho, como enfermeiro, como médico, como amigo, como o amor de sua vida.

Muito se ouviu falar desse pequeno grande homem, de uma vontade indomável. Todos o conheceram ou ouviram falar dele como o menino de Diamantina, amigo inseparável de Juscelino Kubitschek de Oliveira, com quem dividiu os bons e os maus momentos, a tristeza da cassação, o isolamento do exílio quando, em Paris, o ajudava nas lides domésticas e, sobretudo, não deixava JK se sentir só ou ficar deprimido e tristonho.

O coronel Affonso, companheiro de todas as horas do ;amigo de fé, irmão camarada;, também foi subchefe do gabinete civil da Presidência, viu cada edifício ser levantado em Brasília, cada avenida ser asfaltada, cada monumento ser colocado em seu devido lugar.

Respirou poeira, atolou as botas na lama que a Brasília em construção oferecia aos idealistas e entusiasmados com o estadista que foi JK, virando o inóspito Planalto Central de pernas para o ar e, com muita fé no amigo, compartilhou o crescimento, a consolidação, a inauguração e a indiscutível e irrefutável proclamação de uma cidade surgida do nada, cumprindo à risca o sonho de Dom Bosco e o que era previsto na Constituição Federal.

Tudo isso marcou a vida de Affonso Heliodoro dos Santos, que, indomável mesmo, viveu 102 anos dedicados a Brasília, ao Brasil, à democracia.

Ele se foi e nos deixou órfãos e tristes.

Esta coluna e eu, particularmente, perdemos um amigo e admirador que, daquele jeito paternal e doce, tinha nosso telefone na ponta da língua e, com a maior sinceridade do mundo, voz firme e animada, ligava sempre às segundas-feiras, ;para comentar o tema da coluna de ontem;. ;Continue nessa linha, minha filha. Gostei muito. Você tem razão, mas poderia ter citado isso ou aquilo. Da próxima vez não se esqueça. É importante!”

Com que alegria e segurança eu ouvia essas observações, o que me convencia de que, apesar da enorme diferença de idade, eu estava no caminho certo! Eu nutria (e nutro), o mesmo amor e o mesmo sonho ideal de viver numa Brasília perfeita e maravilhosa, do jeitinho que JK imaginou.

E quando ele ligava para comentar sobre a nova foto no cabeçalho da coluna? ;Eu gostei mais dessa do que da outra, minha filha. Foi bom você ter mudado; afirmava. ;O corte do cabelo também ficou muito bem em você!”

Esses ;vistos; que ele dava sobre os textos, minha imagem e assuntos abordados, me faziam pensar em meu pai que, já falecido, faria a mesma coisa.

Passei a mentalizar meu pai, na pessoa do indomável, cuidadoso e franco coronel Affonso Heliodoro, chegando a dizer a mim mesma: ganhei um pai aqui em Brasília. E a amizade e admiração por ele ficaram cada vez mais profundas.

Se os comentários sobre os textos e colunas eram feitos por telefone, sobre o corte de cabelo e a foto ;lá de cima;, eram feitos pessoalmente, entre as muitas e muitas visitas que eu recebia dele, em minha sala. Impecável em seu terno escuro, nunca sem gravata, sapatos engraxados, lá chegava ele já de braços abertos para aquele abraço afetuoso e alegre.

O papo, então, ia longe; de Diamantina a Paris, passando pelas escadas que ele subia e descia para cuidar de sua ;Sãozinha;.

Agora que ele passou a brilhar no firmamento e está junto daqueles que realizaram, trabalharam e fizeram de suas vidas um objetivo comum, o de servir a pátria, temos certeza de que a imagem do franzino coronel Affonso Heliodoro dos Santos jamais se apagará de nossas lembranças.

Bons e saudáveis exemplos, que deveriam ter centenas de milhares de seguidores.
O coronel Affonso personifica, agora, a própria história e memória de Brasília e do Brasil. Muitas saudades!


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