Para aguçar os sentidos

Para aguçar os sentidos

Três exposições em cartaz na cidade propõem ao visitante uma forma diferente de encarar a arte

Nahima Maciel
postado em 28/10/2018 00:00
 (foto: PO.EX / Espaço Líquido / Divulgação)
(foto: PO.EX / Espaço Líquido / Divulgação)


Poesia experimental, obras que podem ser tocadas e obsessões por miniaturas: a fluidez das fronteiras entre as artes visuais e outras linguagens aparece em três exposições em cartaz na cidade. São propostas que convidam o visitante a mergulhar em experiências diferentes e observar a produção artística por um aspecto inusitado e, às vezes, histórico e político.

É o caso de Poesia experimental portuguesa, em cartaz na Caixa Cultural. A compilação realizada pelos curadores Bruna Callegari e Omar Khouri reúne obras de 18 poetas portugueses, desde os pioneiros do movimento até os contemporâneos. A poesia experimental portuguesa surgiu em 1964, com uma série de poemas publicados em revista de mesmo nome. Na época, o país silenciava sob a ditadura de Antonio de Oliveira Salazar e a produção artística sofria com certo isolamento.

Os poetas voltaram então os olhos para os movimentos de vanguarda que sacudiam o resto da Europa, como o surrealismo e o futurismo. De lá, trouxeram algumas das ideias que nortearam o movimento. ;É uma poesia muito comunicativa e combativa, mas também combatida pelos poetas de versos acadêmicos;, conta a curadora Bruna Callegari. ;Eles usam o verbo, mas extrapolam.; Nomes pioneiros, ativos desde a década de 1960, como Ernesto de Melo e Castro, Salette Tavares e Antonio Aragão, até poetas mais recentes, como Silvestre Pestana, ajudam a contar a história de um movimento que nunca deixou de existir.

O tom político continua a ser importante para os poetas experimentais portugueses, assim como a possibilidade de explorar a tecnologia. Pestana, por exemplo, traz um GIF inspirado nas eleições no Brasil. ;Tem obras bem provocativas, que têm muito a ver com o momento atual brasileiro;, avisa a curadora.




Outros sentidos

A visão costuma ser o sentido mais requisitado do espectador quando se trata de artes visuais, mas há outros quatro pouco explorados e foi a eles que a curadora Isabel Fonseca quis dar atenção em Arte para sentir. ;O objetivo é tirar o espectador do papel de conforto de usar apenas o olho;, explica. ;E convocá-lo a usar os outros sentidos: pode tocar nas obras, algumas têm um lado gustativo, outras, sonoro.;

Na lista de artistas escolhidos, Isabel incluiu alguns dos nomes mais importantes da produção contemporânea, como Ernesto Neto e Opavivará, e obras feitas especialmente para a exposição. ;Fiz o convite para que alguns artistas produzissem obras especialmente para a exposição, obras que pudessem ser tocadas e sentidas;, diz. Opavivará, por exemplo, explorou os sabores, e Pedro Varela criou uma cidade tátil construída em braile com frases e palavras retiradas de músicas da MPB.

Na obra de Carolina Ponte, é o crochê a base do trabalho que o visitante pode manipular como se fosse um grande abraço. ;São artistas que estão no mercado há muito tempo e conseguem pensar na sensorialidade dentro da própria poética deles;, avisa a curadora, que também teve a intenção de proporcionar outra forma de acesso à arte para pessoas com deficiências. ;Muitas vezes essas pessoas se sentem limitadas e não conseguem ir às exposições porque é tudo muito visual. E tem também o hermetismo da arte contemporânea, que acaba dificultando. Não é uma exposição para o público com deficiência, mas para todos os públicos;, garante Isabel.



Miniaturas

Para montar Pequenas escalas, o curador Ivair Reinaldim fez uma pesquisa em busca de artistas que incorporassem miniaturas em sua produção. Encontrou 10 nomes de diferentes gerações e ainda conseguiu estabelecer um diálogo entre obras produzidas em períodos diversos e com intenções variadas. O resultado é um passeio por um pequeno gabinete de curiosidades montado na galeria Fayga Ostrower graças ao Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais.

Quando se fala em obras tridimensionais, o que sobressai são as produções em maiores escalas. ;E me interessava investigar por que alguns artistas recorrem ao contrário e decidem lidar com outro tipo de relação com o espectador;, diz Reinaldim, que selecionou obras de nomes como Cildo Meireles, Gê Orthof, Marcia X, Nazareno, Luiz Zerbini, Ana Miguel, Anna Bella Geiger e Brígida Baltar.



Arte para sentir
Curadoria: Isabel Fonseca. Visitação até 23 de dezembro, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Galeria Principal da Caixa Cultural (SBS Quadra 4 Lotes 3/4).


Poesia experimental portuguesa
Curadoria: Bruna Callegari e Omar Khouri. Visitação até 16 de dezembro, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural.


Pequenas escalas
Curadoria: Ivair Reinaldim. Visitação até 16 de dezembro, de terça-feira a domingo, das 10h às 21h, na Galeria Fayga Ostrower (Complexo Cultural da Funarte).


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