Em dose dupla

Em dose dupla

postado em 28/10/2018 00:00
 (foto: Fotos: Arquivo Pessoal)
(foto: Fotos: Arquivo Pessoal)

A psicóloga Thirza Reis estava acostumada a viajar sozinha com os filhos Gael, 7, e Nolah, 5. Mas iam à casa de parentes, à praia, sempre sem muito turismo ou agitação. A mãe decidiu, no entanto, fazer algo diferente. Iriam a Paris, a cidade de que ela mais gosta no mundo e cenário de muitos filmes e desenhos que as crianças adoram, como Ladybug, A bailarina e Ratatouille.
Assim que comprou as passagens dos três, já começou a sentir frio na barriga. ;Veio um misto de ;vai ser maravilhoso; e, ao mesmo tempo, de ;onde é que eu estava com a cabeça quando inventei isso;;, conta.
De fato, a viagem foi um pouco das duas coisas. Houve dores e delícias. ;Ir a uma cidade grande, turística e não exatamente específica para crianças foi um pouco assustador;, admite. Mas ela fazia questão de apresentar novas culturas e lugares diferentes para despertar nos filhos a ideia de que o mundo está disponível para eles, que, até então, nunca tinham saído do país.
Foram 12 dias interagindo essencialmente com crianças, cuidando delas e de tudo em volta: pegar metrô, balsa, manter todos juntos em meio à multidão na Igreja de Notre Dame, organizar passeios, piqueniques em parques, visitas a museus. ;Era difícil relaxar;, admite. No fim, Thirza, que já conhecia bem a Cidade Luz, conheceu outra Paris. ;Isso foi muito legal para mim também;, conta.
Como era julho, em pleno verão, o sol se punha por volta das 21h. Explicar para os dois que era hora de ir para o hotel dormir foi outra experiência engraçada. ;Eles diziam: mas ainda é dia;, lembra Thirza. Foi mais um aprendizado passado naturalmente para as crianças, pela experiência.

Cultura e diversão

Apesar de montar uma programação para crianças, Thirza não abriu mão de levá-los ao Museu do Rodin, pelo qual é a apaixonada, e ao Louvre, um dos pontos mais importantes da capital e do mundo.

Evitou bombardeá-los com história e arte, mas visitaram a parte egípcia do Louvre, que ela sabia que eles gostariam. No Museu do Rodin, inventou brincadeiras. ;Quando chegamos à porta do inferno, que é gigantesca, com várias miniesculturas que estão pelo museu, eu brinquei de fazê-los reconhecerem as peças;, relata.

Para ela, foi sem dúvida uma aventura. Assim que voltou, conta que sentiu uma espécie de ressaca. ;Se eu desse essa entrevista na semana que voltamos, talvez eu não recomendasse a ninguém, mas aí, você vai descansando e lembrando de cada momento incrível e do tanto que eles gostaram;, conta, satisfeita. Paris virou parte do repertório da família e uma cidade da qual sempre falam.

Thirza ficou orgulhosa dos filhos. Ela estava certa de que a parte preferida da viagem seria a Eurodisney, por motivos óbvios. Mas se enganou. Nolah diz que amou os macaroons e a Torre Eiffel; Gael destaca as montanhas-russas e os croissants. Mas, nas conversas rotineiras, eles lembram de cada detalhe com diversão e carinho.


Viajante desde bebê

A psicóloga Luísa Barroca, 32 anos, viaja com a filha Beatriz, 7, desde que ela tinha poucos meses. Enquanto alguns demoram mais tempo para tomar coragem, Luísa quis desde cedo circular por aí com a filha. Por trabalhar muito, a mãe vê a filha de manhã, quando tomam café e pegam o caminho para a escola, e, depois, só à noite. Por conta disso, mesmo quando não estão viajando, Luísa sempre tira um tempo para fazer programas apenas com a filha.

Na primeira viagem, Beatriz tinha apenas 5 meses. ;Desde que eu engravidei, aos 24 anos, eu decidi que ela seria um agregador na minha vida. Eu resolvi que não deixaria de fazer as coisas por conta dela. Ela não seria um impeditivo. Faríamos juntas;, pondera a psicóloga. É claro que o estilo das viagens mudou. Mas a regra em todas elas é a mesma: fugir da rotina.

Beatriz até já faz a própria mala. A mãe precisa dar uma fiscalizada, porque, muitas vezes, tem mais roupa para bonecas do que para ela. Pelo aeroporto, Beatriz orgulha-se de levar a mala e a mochila. ;Quando voltamos com algo a mais, o dono da coisa carrega. Quando temos coisas demais, pegamos carrinho;, conta.

Em julho deste ano, elas passaram quase um mês juntas em Portugal. Foi a melhor viagem, segundo Beatriz. Um mês com a mãe exclusivamente para ela. Como já está grandinha, a aventura foi menos cansativa para Luísa. ;Eu tive uma conversa com ela e expliquei que ela era minha companheira. Então, tinha que me ajudar. Ela é meio medrosa, achava que não ia dar conta, mas deu. Nós andamos de trem sozinhas, olhamos mapa;, relembra.

No caminho, Luísa explicava o que era alfândega, por que deveriam passar por ela e o que mais desse para ensinar. Mas a mãe também alerta que viagem com criança é uma caixa de surpresa: já aconteceu de ela ter febre, vomitar, comer algo e passar mal. Acabamos só curtindo a piscina do hotel.

Agora, Beatriz quer ir ao Rio de Janeiro. A mãe já explicou que, este ano, não consegue, mas autorizou que ela vá com outra pessoa. A filha está considerando a oferta. ;Eu vejo que, aos poucos, ela está se apropriando dessa vontade de viajar e, ao poucos também, vai criar autonomia;, orgulha-se.

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