Um terço decidiu não escolher

Um terço decidiu não escolher

Votos brancos e nulos e abstenções mais uma vez chamaram a atenção: 42,4 milhões de brasileiros optaram por não votar em nenhum dos dois candidatos. No caso dos nulos, houve um aumento de 60% em relação ao pleito de quatro anos atrás

» GABRIELA VINHAL » ALESSANDRA AZEVEDO
postado em 29/10/2018 00:00
 (foto: Daniel Ramalho/AFP)
(foto: Daniel Ramalho/AFP)



Mais de 53 milhões de pessoas elegeram, ontem, Jair Bolsonaro (PSL) como Presidente da República. Das 147 milhões de pessoas que poderiam ir às urnas, 42,4 milhões de eleitores ; cerca de um terço deles ; não escolheram nenhum dos dois candidatos. A abstenção chegou a 21,30%; os votos brancos, a 2,14%; e os nulos, a 7,43% ; mais de 30% dos votantes. Agora, com a maioria dos votos, o Congresso mais conservador da história e a bancada expressiva na Câmara, a governabilidade do capitão reformado deve ser alta. Resta saber, nas próximas semanas, se a equipe dele vai dar continuidade ao que está encaminhado pelo governo Temer ou se começará projetos do zero.

Esta é a primeira vez que votos inválidos passam de 30%. Essa ausência influenciou diretamente no rendimento do candidato petista, que, na reta final do período eleitoral, intensificou a campanha externa e convocou a militância para ir às ruas virar votos dos indecisos e nulos. Para o analista político, Creomar de Souza, o alto número de abstenções se dá pela polarização política, que expulsa os eleitores mais moderados. ;As pessoas que não se sentiram alinhadas tomaram a decisão de desistirem. Quem saiu mais prejudicado foi o Haddad, que precisava reverter esses votos para tentar diminuir a distância;, destacou.

O segundo turno das eleições teve a maior abstenção desde 1998. Em 1994, quando o tucano Fernando Henrique Cardoso foi eleito no primeiro turno, a abstenção chegou a 29,3% do eleitorado. Na eleição seguinte, o índice caiu para 21,5%. Em 2002, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu pela primeira vez, o índice ficou abaixo de 17,7% no segundo turno. Na reeleição do petista, em 2006, foi registrado o menor índice do período, com 16,8% do eleitorado. Já na primeira gestão de Dilma Rousseff (PT), a taxa de abstenção ficou em 18,1%. Na reeleição da petista, alcançou 19,4% do eleitorado.

Já o total de votos nulos nestas eleições alcançou 7,4%, o maior registrado desde a redemocratização, em 1989. Se comparado com a segunda fase do pleito de 2014, houve um aumento de 60%, quando apenas 4,6% dos votos foram anulados. Os votos brancos, por sua vez, somaram 2,1% ; 0,4% a mais que na última eleição. O estado que mais registrou votos nulos neste segundo turno foi Minas Gerais ; um dos principais colégios eleitorais do país, seguido de São Paulo. No estado mineiro, 10,6% dos votos foram anulados. Em São Paulo, foram 10%. Em terceiro lugar, ficou Sergipe, com 9,5%, e Rio de Janeiro, com 9,1%. O Distrito Federal registrou 102.988 votos nulos, o equivalente a 6,1%.

Sem surpresas

A presidente do Superior Tribunal Eleitoral (TSE), a ministra Rosa Weber, disse ontem que não se surpreendeu com os 21% de votos brancos e nulos, porque foi apenas 1% a mais que os registrados na primeira fase do pleito. ;Nesse caso específico do segundo turno, em muitos estados, a única eleição que restou foi a presidencial. Porque, às vezes, desmobiliza a população, sobretudo em função das pessoas que vivem no interior do país;, disse em coletiva de imprensa, após o resultado.

O PT venceu em todos os estados do Nordeste, no Pará e em Tocantins, enquanto Bolsonaro se elegeu no Acre, em Amapá, no Amazonas, no Distrito Federal, no Espírito Santo, em Goiás, no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul, em Minas Gerais, no Paraná, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, em Rondônia, em Roraima, em Santa Catarina e em São Paulo. ;Essa divisão de votos era esperada. Mas Bolsonaro usou estratégias precisas para um ponto fundamental: embora o Nordeste sempre fosse eleitor do PT, ele diminuiu essa diferença na maior parte dos estados;, explicou o cientista político Creomar de Souza.

A diferença de votos entre os dois candidatos foi praticamente de 10 milhões de votos, o que dá a Bolsonaro espaço discursivo. Segundo Souza, as reformas prometidas pelo próximo presidente deverão ser discutidas ainda no primeiro semestre do ano que vem. Independentemente, terá que construir uma base congressual consistente, para conseguir os 308 votos necessários para as aprovações. ;A primeira decisão do governo é decidir se aquilo vai dar continuidade às propostas que já estão encaminhadas no Congresso, ou se elabora outros textos para as reformas;, define Creomar.


Análise da notícia

Mar de desconfiança

; VICENTE NUNES

Presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, do PSL, assumiu, em seu primeiro pronunciamento oficial, compromisso com a Constituição. Prometeu ;recuperar; o país e recolocá-lo entre as grandes nações do mundo. Procurou passar esperança, sobretudo aos jovens, e se comprometeu a pacificar o país, perigosamente mergulhado em um clima de radicalização.

Mesmo com os quase 58 milhões de votos que recebeu no segundo turno das eleições, Bolsonaro é uma grande incógnita, principalmente diante dos problemas que o Brasil enfrenta. Há uma crise ética sem precedentes. Uma desconfiança enorme em relação aos políticos. E uma interminável crise econômica.

É na economia, porém, que o presidente eleito terá que centrar fogo. Por mais que os brasileiros que votaram nele tenham elegido o combate à corrupção como prioridade, se ele não conseguir retirar o país do atoleiro, da recessão profunda iniciada em 2014, dificilmente conseguirá atender às expectativas.

Os brasileiros, daqui por diante, vão cobrar uma reação forte da atividade econômica. Há quase 13 milhões de desempregados. Outros 14 milhões dizem que não ganham o suficiente para fechar as contas do mês. São os subempregados. Mais de 4,5 milhões de brasileiros simplesmente desistiram de procurar trabalho. São os desalentados.

O problema se agrava porque o governo não tem condições de promover políticas para incentivar a economia, pois está com as contas públicas em frangalhos. Entre 2008 e 2009, o então presidente Lula conseguiu enfrentar, com sucesso, o terremoto provocado pelo estouro da bolha imobiliária norte-americana justamente usando a folga de caixa para fazer o que os especialistas chamam de política anticíclica.

Regra de ouro

Bolsonaro terá que lidar com um deficit público monstruoso. Quando tomar posse, já terá que enfrentar um rombo previsto de R$ 139 bilhões. Além disso, há o risco de o governo descumprir a tal regra de ouro, que impede o Estado de se endividar para pagar gastos correntes, como salários de servidores e aposentadorias e pensões. Para não descumprir a regra de ouro, terá que arrumar mais de R$ 250 bilhões.

A gravidade da situação fiscal está, inclusive, na base da desconfiança que atormenta o país. Sem perspectiva de melhora nas contas públicas, os investidores,

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