Bolero argentino

Bolero argentino

O dramaturgo Santiago Serrano encerra a Mostra Internacional de Teatro do Fundão com monólogo

» João Paulo Zanatto*
postado em 29/10/2018 00:00
 (foto: Alma de Boleros/Divulgação)
(foto: Alma de Boleros/Divulgação)

Encerrando a Mostra Internacional de Teatro do Fundão no Riacho Fundo, o dramaturgo argentino Santiago Serrano traz ao salão comunitário do Riacho Fundo, nesta segunda, o espetáculo Alma de Boleros. Fragmentos da vida, ideais, lutas, amores, paixões, ternura e orientação sexual encontram eco no reencontro de um homem com trechos de sua própria vida em um monólogo que explora o diálogo com o público. ;Não é um teatro espetacular, ao contrário, procura a simplicidade, tocar a sensibilidade do público;, diz Serrano. ;O ator se entrega totalmente, ele fica com a alma nua em frente ao espectador;. A peça passa por humor, emoção e, claro, boleros. O também argentino Pablo Tur é o ator encarregado de transmitir as mensagens ao público. ;Ele é maravilhoso, se entrega totalmente. Sem ele não sei se a peça seria como é;, elogia Santiago.

Reflexões como a transitoriedade da vida e a busca de alternativas perpassam o espetáculo. ;A ideia de que nada é definitivo, que sempre tem outra oportunidade, que existe esperança. As coisas que são, aparentemente, muito ruins, podem ser boas. As pessoas que são consideradas diferentes mostram, na verdade, que têm uma vida como qualquer outro;, revela o dramaturgo. Apesar de ter escrito algumas peças para grupos teatrais da capital federal, esta é a primeira vez que Santiago Serrano dirige ele mesmo um espetáculo.

Alma brasiliense

Santiago Serrano começou sua história com Brasília há mais de dez anos. ;É incrível como o teatro, o cinema, tudo o que tem a ver com arte faz parte de Brasília. É um polo cultural do país e do mundo;, garante.

O argentino tem uma relação criativa com a cidade. Sua primeira peça na capital foi a pedido de Guilherme Reis: o espetáculo Dinossauros, com Murilo Grossi e Carmem Moretzsohn, ficou em cartaz por quase uma década e levou a dupla a viajar pelo mundo com uma história delicada de encontro entre um homem e uma mulher. Desde então, foram mais de cinco peças encenadas na cidade. ;Foi muito louco o que aconteceu;, lembra Serrano. ;Guilherme Reis enviou um pedido para eu fazer uma leitura da peça com Carmem Moretzsohn e Murilo Grossi. Era só uma leitura, mas foi tão bom o resultado que quase ficaram nove anos com a peça, indo a festivais dentro e fora do Brasil;.

Além de Dinossauros, ele tem uma parceria contínua com o grupo teatral Cia. Plágio de Teatro com a qual assina espetáculos como Noctiluzes e A autópsia de um beija-flor. Noctiluzes, aliás, vai virar filme. ;Eu adoro cinema, acho que vai ser muito bom, a peça é cheia de imagens, vai ficar muito bonita. O Sérgio (Sérgio Sartório, diretor da peça) tem um olhar muito bom e trabalho muito bem com ele;, diz.

Santiago Serrano está no mundo teatral há quase 40 anos. Começou estudando teatro como ator. Um dia, descobriu que escrevia enquanto improvisava e, então, começou como dramaturgo. Logo depois, vieram os trabalhos como diretor. Além da dramaturgia, ele também trabalha paralelamente como psicanalista.

O argentino vê algumas diferenças entre o teatro argentino e o brasileiro. ;O teatro, no meu país, é muito mais naturalista, não corre muitos riscos. No Brasil, se faz um teatro de risco, de formas expressivas muito diferentes e, uma coisa que para mim é fundamental, é um teatro de grupo;, afirma. ;O Brasil tem uma força cultural muito forte, em quase todas as cidades há grupos, e a questão da cultura é muito importante no país. É uma pena que qualquer coisa possa fechar esse caminho, que é fundamental;.

*Estagiário sob a supervisão de Nahima Maciel


Alma de Boleros
Direção: Santiago Serrano. Com Pablo Tur. Hoje, às 20h, no Salão comunitário do Riacho Fundo (QS 6, Lt 6, Riacho Fundo I). Entrada franca. Não recomendado para menores de 14 anos.

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