PIB com viés de alta para o próximo ano

PIB com viés de alta para o próximo ano

Produto Interno Bruto do terceiro trimestre cresceu 0,8% em relação aos três meses anteriores. Expectativa é de que avanço seja mais fraco de outubro a dezembro, mas que, com a retomada gradual da confiança e da atividade, o resultado melhore em 2019

ROSANA HESSEL INGRID SOARES
postado em 01/12/2018 00:00
Após a greve dos caminhoneiros interromper, em maio, o processo de retomada da economia iniciado em 2017, o Produto Inteno Bruto (PIB) avançou 0,8% entre julho e setembro em comparação aos três meses anteriores e 1,3%, na anual, somando R$ 1,716 trilhão. O resultado, divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), veio em linha com a mediana das estimativas do mercado, que variavam entre 0,5% e 1,1% em relação ao trimestre anterior. Para especialistas, entretanto, a taxa não deve se repetir no último trimestre do ano, devido ao processo de recuperação estar mais lento e gradual do que o esperado. A expectativa é de melhora no próximo ano, com projeção de alta de até 3%, se as reformas avançarem e o ajuste fiscal for feito.

;O PIB acabou não surpreendendo e esse ritmo mais forte do terceiro trimestre ocorreu porque a base de comparação foi muito baixa no trimestre anterior. Tanto que, para os últimos três meses do ano, o ritmo deve cair, registrando alta de 0,2%, o que confirmará nossas previsões de alta de 1,3% no ano;, avaliou o economista Artur Passos, do Itaú Unibanco. As apostas do mercado variam de 1,1% a 1,6% para o ano.

De acordo com o IBGE, o setor de serviços puxou a atividade econômica, alavancado pelo consumo das famílias e um leve aumento na renda do brasileiro, que foi beneficiado pela inflação de 4,4%, abaixo do centro da meta, de 4,5% anuais, de acordo com Claudia Dionísio, gerente das contas nacionais do IBGE. A agropecuária também ajudou a impulsionar o PIB pela ótica da oferta, com alta de 0,7% no terceiro trimestre, em relação aos três meses anteriores. Indústria e serviços tiveram expansão de 0,4% e 0,5%, respectivamente.

Pela ótica da demanda, houve expansão do investimento, de 6,6% no trimestre em relação aos três meses encerrados em junho, que foi impulsionado ;por questões específicas do setor de petróleo;. As exportações cresceram 6,7% no período enquanto as importações saltaram 10,2%. O consumo das famílias registrou alta de 0,6% na mesma base de comparação, e 1,4% na comparação anual. Já os gastos do governo tiveram avanço de 0,3% ante o trimestre anterior, mesmo crescimento na comparação com 2017, para a surpresa de especialistas.

;Não sei como cresceu, porque o Orçamento do governo está travado, com um deficit fiscal gigantesco;, disse Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating. Para ele, a manutenção do crescimento do consumo das famílias no trimestre, apesar de o ritmo não ser forte, foi muito positiva. ;A manutenção do aumento do consumo mostra o resgate gradual da confiança e a expectativa de que a economia deve melhorar mais à frente;, explicou.

A funcionária do Judiciário Aliene Coutinho, 54 anos, moradora do Sudoeste, resolveu acreditar que as coisas vão melhorar. Aproveitou condições facilitadas de crédito e resolveu trocar o carro. O carro antigo entrou na negociação e a diferença, no valor de R$ 20 mil, será financiada. ;Os dois últimos anos foram mais pesados por conta da crise. Acho que no, ano que vem, vai haver uma tendência de melhora. Vou trocar o carro agora, porque geralmente troco de três em três anos. Dessa vez esperei cinco anos, por um momento melhor. Com as condições oferecidas como a entrada zero e parcelas após o carnaval, fiquei mais animada. Também economizei e evitei dívidas;, ressaltou.

Revisão
No segundo trimestre, a economia brasileira cresceu apenas 0,2%, na comparação com os três meses anteriores, após o PIB registrar leve alta, de 0,2%, entre janeiro e março, de acordo com os dados revisados do IBGE. Antes, a alta do primeiro trimestre tinha sido de 0,1%. Com os dados atualizados, a taxa expansão do PIB em 2017 também mudou, passando 1% para 1,1%.

Na comparação interanual, em relação ao terceiro trimestre de 2017, a alta do PIB entre julho e setembro foi de 1,3%. Esse dado deixou o país entre os com menores taxas de crescimento na lista de 43 países e abaixo da média geral, de 3%. O índice ficou levemente abaixo da alta de 1,4% registrada no mesmo período do ano passado.
Pela ótica da oferta, a agropecuária teve destaque nessa base comparativa, segundo Claudia, pois cresceu 2,5% em relação a igual período do ano anterior. Ela afirmou que o resultado foi puxado, principalmente, pelo crescimento e ganho de produtividade do café (26,6%) e do algodão (28,4%). ;A agropecuária tem um peso pequeno no PIB, em torno de 5% a 6%, e, por isso, acaba não tendo um impacto muito forte no resultado geral;, explicou.

Claudia ressaltou que o setor de serviços, que tem um peso superior a 70% no PIB, teve expansão de 1,2% em relação ao mesmo período de 2017, com destaque para o crescimento de atividades imobiliárias (3,2%), transporte, armazenagem e correio (2,9%). A indústria registrou alta de 0,8% na comparação com o terceiro trimestre de 2017, puxada pela transformação, como a de caminhões, que tiveram impulso após a greve dos caminhoneiros, de acordo com a técnica do IBGE. Na contramão, a construção civil foi o único segmento da indústria que registrou queda, de 1%, sendo a 18; redução consecutiva nessa comparação. No acumulado em quatro trimestres, a economia registrou expansão de 1,4%. A alta acumulada do PIB no ano foi de 1,1%.

Aquém do esperado
O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins, reconheceu que o setor demonstrou breve reação no terceiro trimestre, mas não suficiente para indicar recuperação. ;Sem construção o Brasil não cresce;, afirmou. Os dados divulgados hoje indicam que, se o ano terminasse em setembro, a construção teria queda de 2,5% no PIB, enquanto o Brasil cresceria 1,4%. O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, reforçou que a construção civil ainda ;não reagiu como o restante da economia; e avisou que é preciso ter cautela com o resultado devido à greve dos caminhoneiros no segundo trimestre. ;Tudo indica uma recuperação consistente e gradual da economia
brasileira;, afirmou.

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