Uma guinada na reabilitação

Uma guinada na reabilitação

Articulação artificial criada por pesquisadores suecos permite ao usuário girar o pulso com mais destreza e ter um feedback sensorial

postado em 01/12/2018 00:00
 (foto: Biomechatronics and Neurorehabilitation Laboratory/Chalmers University of Technology)
(foto: Biomechatronics and Neurorehabilitation Laboratory/Chalmers University of Technology)


Ao colocar sua mão sobre a mesa e deixá-la com a palma para baixo, ela estará pronada. Se você girar o pulso em 180 graus, de modo que a palma fique para cima, ela estará totalmente supinada. Corriqueiro, o movimento é essencial para rodar a chave em uma maçaneta, ligar o carro, acender o fogão ou simplesmente virar um pedaço de papel. Para um usuário de próteses tradicionais, porém, ganha muita complexidade. Geralmente, perde-se agilidade e naturalidade nos gestos do tipo.

Cientistas da Universidade de Tecnologia de Chalmers, na Suécia, desenvolvem uma nova articulação artificial para simplificar esse processo. ;Nosso dispositivo oferece uma amplitude de movimento muito mais natural, minimizando a necessidade de movimentos compensatórios do ombro ou do tronco, o que poderia melhorar drasticamente o dia a dia de muitos amputados do antebraço;, ressalta Irene Boni, engenheira biomédica da universidade sueca e uma das criadoras do dispositivo, anunciado, nesta semana, na revista especializada IEEE Transactions on Neural Systems & Rehabilitation Engineering.

Hoje, uma pessoa que teve o antebraço amputado e usa prótese pode recorrer a um rotador motorizado, controlado por sinais elétricos dos músculos remanescentes, para mexer o pulso. Os mesmos sinais, porém, são usados para controlar a mão protética. ;Isso resulta em um esquema de controle muito incômodo e não natural, no qual os pacientes podem apenas ativar a prótese ou a mão ao mesmo tempo e ter que alternar. Além disso, os pacientes não recebem feedback sensorial. Então, eles não têm a posição ou o movimento da mão;, compara Max Ortiz Catalan, líder do projeto.

A nova solução trabalha com um sistema de implante osseointegrado. Um implante é colocado em cada um dos dois ossos do antebraço ; a ulna e o rádio ;, e a articulação artificial age como uma interface entre esses dois implantes e a prótese. Segundo Catalan, a combinação permite movimentos muito mais naturalistas, com controle natural intuitivo e feedback sensorial.

Pontos-chaves

Geralmente, pacientes que perderam a mão e o pulso ainda preservam musculatura suficiente para permitir a rotação do rádio sobre o ulnar, um movimento crucial na rotação do punho. Porém, a prótese de encaixe convencional, que é presa ao corpo pela compressão do coto, acaba bloqueando os ossos no lugar. Dessa forma, segundo Catalan, impede qualquer potencial rotação do punho.

;Dependendo do nível de amputação, é possível preservar a maioria dos atuadores biológicos e sensores. Eles permitem que uma pessoa sinta, por exemplo, quando está girando uma chave para ligar um carro. Com a nossa inovação, não será preciso sacrificar esse movimento útil por causa de uma solução tecnológica ruim. Você pode continuar a fazê-lo de forma natura;, garante o líder do estudo.

O ponto-chave identificado pelos cientistas é que não seria preciso restaurar toda a amplitude de movimento para todos os graus de liberdade em que os ossos do antebraço podem se mover. Por isso, a nova articulação artificial se foca no movimento axial, o circular dos ossos ulna e rádio

;O pulso é uma articulação bastante complicada. Embora seja possível restaurar a liberdade total de movimento nos ossos ulnar e radial, isso, às vezes, pode resultar em desconforto para o paciente. Descobrimos que a rotação axial é o fator mais importante para permitir o movimento naturalista do pulso sem esse sentimento desconfortável;, explica Catalan. Segundo o cientista, em experimentos para medir a destreza manual dos usuários, constatou-se que os voluntários obtiveram pontuação muito maior em comparação com o uso da tecnologia convencional.


"Nosso dispositivo oferece uma amplitude de movimento muito mais natural,
minimizando a necessidade de movimentos compensatórios do ombro ou do tronco;

Irene Boni, engenheira biomédica da Universidade de Tecnologia de Chalmers

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