Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Humberto Rezende >> humbertorezende.df@dabr.com.br
postado em 01/12/2018 00:00
Descuido com os mais velhos

Um retrato perfeito do descuido que reservamos aos nossos idosos circulou esta semana nas redes sociais e mereceu espaço no site do Correio Braziliense. Na fotografia, o senhor Wandir Galletti, 90 anos, aparece deitado no chão, tendo apenas a cabeça amparada por sua filha Maria Bernadete, que aparece ajoelhada, também no chão, atrás dele.

Bernadete tem o olhar entristecido e anestesiado, enquanto seu Wandir leva a mão direita sobre a face, cobrindo apenas um dos olhos, num sofrimento contido, típico daqueles que sentem muita dor, mas também estão fragilizados demais para chorar ou gritar. Ao lado dos dois, a peça-chave desse drama absurdo: uma cadeira, dessas que compõem os bancos tão comuns em agências bancárias e órgãos públicos, está com o assento deslocado, quase solto.

Na última segunda-feira, seu Wandir foi à UPA do Núcleo Bandeirante para receber cuidados contra uma anemia. Para aguardar atendimento, sentou-se no banco em frente à recepção, escolhendo justamente a cadeira que estava solta. O assento girou e o derrubou no chão. Como resultado da queda, seu Wandir teve o fêmur fraturado e acabou, depois de uma longa espera, levado de ambulância para um hospital.

Uma cadeira solta pode não ser um grande problema para quem é jovem. Para uma pessoa idosa, no entanto, pode ser fatal. O que um assento assim, então, estava fazendo em uma unidade de saúde? A primeira vez que algum servidor notasse o defeito, o sinal de alerta deveria ser dado, e a cadeira retirada ou, ao menos, sinalizada como imprópria para uso.

Lembrar-se dos idosos, no entanto, não é um de nossos hábitos. Calçadas malcuidadas, falhas de acessibilidade em prédios, pisos escorregadios... O mundo parece pensado apenas para as pessoas capazes de superar armadilhas e pular obstáculos. O mundo, o Brasil, a nossa cidade, porém, não é só dos jovens. Hoje, os idosos representam 12% da população do Distrito Federal, segundo o IBGE. E, em 2060, haverá dois para cada jovem em Brasília. Que tragédia será se não começarmos, agora, a preparar os nossos espaços para essa população, da qual, não custa lembrar, todos nós, com sorte, faremos parte um dia.




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