Márcio Cotrim

Márcio Cotrim

marciocotrim@facbrasil.org.br www.marciocotrim.com.br
postado em 01/12/2018 00:00
O DIOD ED ASIOC



Você vem dirigindo o carro numa rua movimentada. De repente, surge na traseira um apressado veículo branco ou vermelho, luzinhas piscando no teto, sirene nervosa. Você já sabe: tem que abrir caminho de qualquer maneira.

Ambulância ou carro de bombeiros, os dois ignoram engarrafamentos e sinais fechados, não querem nem saber. Sobem calçadas e vão em frente, têm que chegar logo ao ferido grave num desastre ou à mulher a ponto de atirar-se da janela de um prédio em chamas.

O alerta cromático e auditivo já seria suficiente, mas, de uns tempos para cá, esses piedosos veículos passaram a exibir na parte dianteira, em letras garrafais, sua óbvia identificação. Lida de frente, ela é incompreensível. Aicnalubma, Soriebmob? Simplesmente são Ambulância e Bombeiros, palavras desvendadas pelo retrovisor.

Esse negócio de escrever as palavras de trás para a frente me faz lembrar fantásticas habilidades. No meu colégio havia um prodigioso aluno que lia com o livro de cabeça para baixo. E também de trás para diante, para assombro da classe, dos professores e até dos diretores, que vinham em bando assistir ao inusitado espetáculo.

Demonstração de rara competência, não é? Pois bem, se dessa leitura inversa resultar o mesmo sentido da leitura direta, estaremos diante de uma palavra ou frase palíndroma.

Palavras palíndromas avulsas são comuns: aia, Oto, radar, Natan, Menem, além de números igualmente palíndromos como 1001,1111, 2002, estes chamados de capicuas. Uma data recente é capicua: 20 de fevereiro de 2002, 20.02.2002.

Há quem se dê ao trabalho de formar frases palíndromas inteiras, como Eno Teodoro Wenke, estudioso da matéria. Um livro de sua autoria reúne mais de 4 mil exemplos do tipo ;Roma me Tem Amor; ; aliás, título de festejado livro dos anos 50. Leia ao contrário e confira. Outra frase do mesmo tipo: ;Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos;. Que tal?

;Oto come mocotó; também é. A carinhosa advertência ;Atai a gaiola, saiola gaiata;, e esta frase arquitetada por Chico Buarque: ;Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta;. Quem diria, hein?

Em idiomas estrangeiros, a brincadeira se repete. ;Able was I ere I saw Elba; ( Fui poderoso antes de ver Elba). ;Elu par cette crapule; (Escolhido por essa devassidão). ;Dabale arroz a la zorra el abad; (O abade dava arroz à raposa). ;Doc, note, I dissent. A fast never prevents fatness. I diet on cod; (Doutor, observe, eu discord. O jejum não evita engordar. Eu faço regime comendo bacalhau). ;Si bene te tua laus taxat, sua laute tenebis; ( Se teu elogio te satisfaz, muito mais te deleitarás com o dele). ;Ein Esel lese nie; ( Um asno não deve ler) e ; A man, a plan, a canal, Panama!” (Um homem, um plano, um canal, Panamá).

Há quem goste de decifrar charadas e anagramas. Outros preferem o versograma, um monte de gente passa o tempo fazendo palavras cruzadas e o Mexe-Mexe, popular jogo de salão, brinca com as letras na horizontal e na vertical.

Falamos em letras, chegamos às siglas, universo próprio para iniciados. Só mesmo quem é do ramo consegue identificar um documento com a seguinte referência: GM/DIFIN/SECOC/PCT. Mas há pior: SIRCFFSTETT quer dizer Setor de Investigações e Repressão ao Crime de Furtos de Serviços de Transmissões Elétricas, Telegráficas ou Telefônicas. Será que ninguém pensou na pobre da telefonista ao inventar um negócio desses? O serviço foi criado por algum mentecapto funcionário do governo do Estado de São Paulo, na gestão de Laudo Natel. Até hoje deve estar sendo amaldiçoado...

A sigla CNPq resumia o nome do Conselho Nacional de Pesquisas. Depois, o órgão passou a chamar-se Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, mas a sigla, inexplicavelmente, continua a mesma. O mesmo acontece com nosso querido BRB. Como Banco Regional de Brasília, claro que era BRB. Só que virou apenas Banco de Brasília, mas continua BRB, o R sobrando. A sigla ficou mais forte que o nome do banco...

No Banco do Brasil, onde todas as siglas possuem cinco letras, até bem pouco tempo havia setores surrealistas como PDPU E CUTDI, além do incrível PINEI. Era possível escutar na Rádio Corredor: ;Aquele doidão do 5; andar foi transferido para o PINEL. Deve estar como gosto...;

Na área militar, as siglas também abundam. Na Aeronáutica SERAC prolifera em placas no Lago Sul, só que ninguém sabe o que é. E entre os policiais, durante bastante tempo funcionou lúgubre repartição sadicamente batizada de DOI/CODI. Lá, até hoje, ecoam os gritos dos torturados.

Em outros casos, a sigla pode sugerir hilariantes cogitações. Quem levará a série um Departamento de Patrimônio e Qualidade do Produto (existente, de fato, em algumas empresas) que ostente a eloqüente sigla DPQP?





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