Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 05/12/2018 00:00
O renascimento do buriti

Estava passando em frente ao Palácio do Buriti quando levei um susto, um susto bom. A palmácea buriti, plantada bem no centro da praça do Executivo local, atingida por um ato de vandalismo, não tinha mais os cabos de aço de sustentação. Liguei para a Novacap e me informaram que um técnico examinou a palmeira e chegou à conclusão de que a saúde da planta melhorou bastante e ela não precisava mais de apoio externo para se manter ereta.

Em maio de 1992, como protesto, um homem desvairado atacou a machadadas o buriti. Os técnicos avaliaram a situação e deram o veredito fulminante: ele vai morrer. O governador fez pressão. Afinal, o buriti sentenciado de morte é tombado como Patrimônio Histórico do DF. Quem chefiava a Novacap era o doutor Osanan, figura notável, que espalhou jardins pela cidade parque.

Diversos doutores foram consultados, mas ninguém teve coragem de dar solução a caso tão delicado. Imaginem se eles tentassem alguma coisa e o buriti tombasse em queda fulminante? Desesperado, Osanan pediu ajuda ao doutor Guarany Cabral de Lavor, engenheiro agrônomo, nascido em Itapipoca, no interior do Ceará, região dos Urubu Kaapor, os índios mais bravos do Brasil.

Com ele não havia meias-palavras, para qualquer situação a resposta era: positivo ou negativo. Devia ser descendente dos Urubu Kaapor, pois ia direto ao assunto e topava qualquer parada. Era chefe da seção de Podas e Erradicação de Árvores, mas ganhou dos colegas o apelido de Pai das Árvores, pois defendia as plantas com carinho, desvelo e bravura.

No jeito matreiro de sertanejo, respondeu, com uma ponta de ironia: ;Olha chefe, não tenho todos os diplomas desses doutores, mas, se quiser posso tentar uma solução sertaneja: bosta de vaca com um emplastro de barro;. E, assim, foi feito. E, assim, o buriti foi salvo. Onde quer que estejam os doutores Osanan e Guarany devem estar muito satisfeitos com a vitória espetacular em caso tão difícil.

O doutor Guarany era uma espécie de São Francisco Bravo, só lhe faltava pousar um passarinho no ombro. A bondade não pode ser boazinha; precisa ser altiva, ativa e guerreira para impor-se neste mundo cão.

No sítio onde morava, próximo a Cristalina, sempre havia banana e mamão; não se destinava a seu consumo; era para os canarinhos, os sanhaços, os sabiás, as coleirinhas, os papa-capins e os pássaros pretos do comedouro instalado na varanda da casa. Percorreu o Brasil inteiro como topógrafo e chegou a alguns lugares pela primeira vez, como se fosse um bandeirante.

Ele morreu em 2015, com 100 anos, e não aparentava ser um velhinho frágil sugerido pela idade. Antes de adoecer, sua voz ainda atroava para defender bichos e plantas. Certa vez, os netos acuaram uma cobra no quintal do sítio e, ao perceber, o nosso morubixaba soltou um berro: ;Alto lá, deixa eu ver que tipo de cobra é essa;. Ao examinar o réptil, ele sentenciou: ;Não vão matar cobra nenhuma, seus bestalhões. Elas são predadoras de ratos. Depois, a área vai ficar infestada de roedores;.

Nos tempos em que dirigia, parava o carro nas estradas para apagar incêndios no cerrado.

Era uma pessoa extraordinária, não porque fosse perfeito, mas porque tinha grandeza de alma. Para um São Francisco sertanejo só lhe faltava um passarinho pousar no ombro. E, de fato, não lhe faltou. Certo dia, um sabiá voou do comedouro e aterrissou, elegantemente, em seu braço. Como é que sei disso tudo?
Elementar, o doutor Guarany foi meu inesquecível sogro.



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