Denúncias contra João de Deus chocam fiéis

Denúncias contra João de Deus chocam fiéis

Vítimas relatam que os casos ocorreram dentro da Casa de Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia. João de Deus nega a prática de crime. Delegacia da Mulher de Goiás começa a investigar amanhã uma denúncia formalmente apresentada

» ALAN RIOS Enviado especial » OTÁVIO AUGUSTO » Lucas Valença Especial para o Correio
postado em 09/12/2018 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press - 20/4/17)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press - 20/4/17)


Abadiânia (GO) e Brasília ; As denúncias de abuso sexual contra o médium João Teixeira de Faria, o João de Deus, sacudiram a pequena cidade do Entorno, distante 90km de Brasília e que tem pouco menos de 20 mil habitantes. O religioso ficou conhecido por realizar curas espirituais. Mulheres do Rio Grande do Sul, São Paulo, do Paraná e da Holanda relataram os casos à imprensa. A Delegacia da Mulher de Goiás já recebeu uma denúncia na sexta-feira e abrirá amanhã uma investigação formal. O Ministério Público Federal (MPF) avalia o caso, devido à repercussão nacional e à possibilidade de haver vítimas em várias unidades da Federação e até fora do país. João de Deus nega as acusações.

As acusações contra o médium foram tornadas públicas pelo programa Conversa com Bial, exibido pela TV Globo na madrugada de ontem. Todas as denunciantes têm entre 30 e 40 anos. De uma forma geral, elas relatam que o médium, em uma sala reservada, as induzia a tocar suas partes íntimas e fazer sexo oral. A ação aconteceria com ele incorporado por uma entidade espiritual após o atendimento ao público. O argumento para a ação seria ;limpeza espiritual;.


De quarta a sexta-feira, a Casa de Dom Inácio de Loyola recebe, em média, 1,5 mil pessoas por dia em busca de cura para os problemas de saúde. Os visitantes movimentam a economia da cidade. Pouco antes da exibição do programa, o médium se manifestou em uma rede social. ;Quando a sua fé vence essas provocações, ela produz perseverança. Não desistirei jamais da minha missão de amor. Perdoo todos aqueles que me fizeram ou tentam me fazer mal;, se expressou. Em nota ao programa global, a Casa Dom Inácio de Loyola classificou as denúncias como ;falsas e fantasiosas;. ;A sala em questão é pública, qualquer um tem acesso a ela e jamais fica trancada. É lamentável, uma vez que o médium João é uma pessoa de índole ilibada;, afirmou.

Atendimento

Os relatos são de fatos que teriam ocorrido de 2010 até fevereiro deste ano. Uma das denúncias é da coreógrafa holandesa Zahira Lieneke, 34 anos. ;Quatro anos atrás, quando eu estava em um dos meus momentos mais vulneráveis, viajei para Abadiânia para ver o mundialmente conhecido ;curandeiro;. Ao chegar à Casa Dom Inácio, você entra em uma longa fila de atendimentos. João, incorporado por uma entidade, te dá um máximo de três desejos. Um dos meus foi curar meu trauma sexual;, contou.


A entidade teria recomendado que ela voltasse no fim da sessão para conversar pessoalmente com João, sem ele estar incorporado. ;Esperei com outras mulheres, aos fundos da casa onde as cirurgias são feitas. Todas aguardavam para esta ;consulta individual;, mas fui a última. Assim que entrei, o estafe saiu. Ele assentiu, se levantou e me pediu para ficar em sua frente, de costas. Ele tocou meu corpo, me cheirou;, contou. João também teria a obrigado a tocar suas partes íntimas e a fazer sexo oral.

Em Abadiânia, há um misto de preocupação e raiva. Muitos saíram em defesa de João de Deus. ;Tenho certeza de que estão tentando fazer alguma armação contra ele;, disse uma admiradora, que não quis se identificar. Outra moradora recebeu a notícia das acusações com espanto. ;Fiquei chocada, porque aqui é um lugar com uma energia muito boa. Eu não acredito que algo ruim aconteça aqui;, comentou rapidamente. Alguns classificam a atuação de João de Deus como ;trabalho divino;. É o caso da manicure Dulce Santana, 46 anos. Moradora da cidade desde 1988, ela conhece o médium. ;Já trabalhei com ele e nunca fui desrespeitada ou maltratada. Pelo contrário, ele sempre foi uma boa pessoa, que dá emprego a todo mundo e já fez muitas curas;, disse.


"Já trabalhei com ele e nunca fui desrespeitada ou maltratada. Pelo contrário, ele sempre foi uma boa pessoa;
Dulce Santana, manicure


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