Marcas e narrativas renovadas para o Brasil

Marcas e narrativas renovadas para o Brasil

» MAURÍCIO ANTÔNIO LOPES Pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
postado em 09/12/2018 00:00
Muitas empresas têm o nome consolidado no mercado e são sempre lembradas e citadas em conexão com os produtos que comercializam ou os serviços que prestam. Resultado de grandes investimentos em criação e gestão de marcas, o processo conhecido como branding explora sentimentos e emoções para enraizar conceitos na consciência do consumidor. Processo que pode ser poderoso a ponto de fazer com que a marca se torne praticamente sinônimo do produto, como é o caso de Gillette, Xerox, Pirex, Lycra, Bombril, entre muitos outros. Ao conquistar corações e mentes dos consumidores, a marca garante sucesso de vendas, mesmo que concorrentes possam oferecer produtos ou serviços superiores.

Assim como as empresas usam a publicidade para influenciar a percepção dos consumidores sobre suas marcas, países também investem em marcas e campanhas para definir e fortalecer sua identidade. É o que acontece com a Itália, pelo design e elegância dos seus produtos; com a França, pelo requinte dos seus perfumes, vinhos e queijos; e com os Estados Unidos, pela força criativa e inovadora do Vale do Silício. E não é incomum países investirem em marcas e campanhas para moldar visões globais sobre seus setores mais estratégicos, como é o caso da Nova Zelândia, que promove o turismo nos seus belos cenários e por meio da sua riqueza cultural. Ou países que consolidam uma marca fundamentada em sua trajetória, como é o caso da Holanda, por longo tempo um centro comercial global com suas tradições e cultura liberal.

A ciência por trás das marcas e do marketing está em franca evolução, na busca de fortalecer vínculos e conexões emocionais com audiências e consumidores cada vez mais informados e exigentes. É aí que ganha força o conceito de storytelling, que explora uma habilidade genuinamente humana: contar histórias, que é uma das melhores maneiras de transmitir conhecimentos e significados. Assim, narrativas originais são criadas para humanizar e amplificar significados associados às marcas, de forma a conquistar os corações e as mentes das pessoas. Ao conquistar a simpatia do público, a marca se dissemina rapidamente via propaganda boca a boca e compartilhamentos pelas mídias sociais, que se tornaram poderosas plataformas de alcance global.

E o Brasil é um verdadeiro paraíso para essa nova onda do marketing. Nosso país é um ;fervedouro cultural; sem igual no mundo, formado pela integração das raças europeias, indígenas e negra, em sínteses que impactam a música, a religião, o folclore, as festividades populares e a diversidade culinária. A percepção em todos os lugares é de que somos pessoas alegres e extrovertidas, orgulhosas da nossa cultura, que se expressam de forma criativapor meio do carnaval, do futebol, da bossa nova, da capoeira, etc. O Brasil conta com paisagens e ambientes únicos, uma extensa superfície de terra contínua, uma das mais longas costas tropicais do planeta ; com praias paradisíacas, ampla gama de condições climáticas ; de temperadas a tropicais, além de imensa riqueza hidrográfica e a mais rica biodiversidade terrestre do planeta.

Essas condições podem, por exemplo, ajudar o Brasil a ampliar sua participação no turismo global, que é responsável por um em cada 11 empregos e por cerca de 10% do PIB mundial. Estima-se que até 2030 cerca de 1,8 bilhão de turistas circularão pelo mundo anualmente, mais da metade deles em economias emergentes. Por ser uma atividade baseada em recurso natural, cultural, ou em ambos, o turismo é uma das indústrias de maior impacto potencial para o Brasil. E a agricultura e o agronegócio, que são pilares econômicos do país, têm tudo para se integrarem à onda que vem sendo impulsionada pela globalização, pela internet e pela expansão do turismo internacional. A culinária e os alimentos tipicamente brasileiros poderão se integrar cada vez mais à indústria turística, respondendo à busca por sabores e aromas típicos, por experiências sensoriais únicas e memoráveis, pela autenticidade dos produtores artesanais e das práticas e hábitos tradicionais.

Assim, nossos alimentos e bebidas podem ganhar o gosto dos consumidores mundo afora, como já aconteceu com o açaí, o pão de queijo e a caipirinha, hoje apreciados em inúmeros países. Ao ampliarmos a exposição do nosso mundo rural ao turismo, o agronegócio de exportação poderá encontrar novos canais para disseminação de marcas e narrativas contemporâneas, que ajudem o Brasil a mostrar o quanto avançou em sustentabilidade. Do mesmo modo que os franceses e italianos, que levam seus turistas a passear entre parreiras e olivais, antes de degustarem seus produtos, nós também poderemos criar roteiros para mostrar o nosso agronegócio sustentável, que integra lavouras, pecuária e florestas em um mesmo ambiente, 365 dias por ano. Ou para mostrarmos como é possível produzir, nos trópicos, carne com a marca ;carbono neutro;, antes de oferecermos deliciosos churrascos aos visitantes.

Hoje sabemos que, antes de empresas, produtos e serviços inovadores, existem seres humanos inovadores, que são atraídos e cativados por conceitos. A boa notícia é que não falta ao Brasil matéria-prima para a criação de inúmeros conceitos, marcas e narrativas capazes de dialogar com um mundo sedento por inovação e contemporaneidade. Ao trabalho!

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