Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br (cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901)
postado em 09/12/2018 00:00
A linha da ignorância

Nunca se falou tanta besteira no país. Se o colega Sérgio Porto, criador do Febeabá (Festival de Besteiras que Assolam o País), estivesse vivo faria a festa. Ensaiei uma hipótese remota: talvez o caso seja de ignorância crassa. Se você vai formular uma proposta de governo, uma reforma educacional ou uma ação cultural, precisa estudar, pesquisar, conhecer e avaliar para adquirir competência. Em suma, é necessário uma fundamentação, o que é totalmente diferente do fundamentalismo. Desconheço outro caminho.

Mas, no Brasil de hoje, estamos expostos a uma infinidade de proposições bizarras. De repente, surgem personagens hostis aos direitos humanos, a favor da liberação do uso de veneno nos alimentos, contra a ciência, a liberdade de opinião nas escolas ou a honra de pessoas que são patrimônio cultural brasileiro.

Ora, as ideias de ações públicas precisam estar alinhadas a propostas formuladas por sábios, testadas internacionalmente, se possível durante um período longo. Mesmo assim, seria sensato submetê-las a um crivo crítico. Não podem ser decididas a partir de idiossincracias ou veleidades pessoais. ;Ah, não gosto dessa ideia.;

Pessoalmente, confesso que sou conservador do ponto de vista dos costumes. Mas tenho dúvidas de que impor os meus valores seja o melhor para a educação das crianças, para a sociedade ou para o futuro do país. Se você fizer qualquer crítica a esses valores corre o risco de ser tachado de ;petista; ou ;comunista;. No entanto, me parece que essas questões transcendem inteiramente os partidos e as ideologias políticas. Pelo contrário: os partidos políticos é que são consequência da desinteligência que grassa no país.

Não estou me jactando de nada. Confesso que sou de uma ignorância enciclopédica em vários assuntos. Em economia, cometi e ainda cometo vários desatinos. Mas, por isso mesmo, sempre peço pajelança dos entendidos. Desconfio que esse é um efeito negativo das redes sociais. Depois da internet, todos se acham autorizados em emitir opiniões sobre qualquer assunto, muitas vezes, em tom de juízo final. Suspeito que a burrice é consequência da ignorância, do desconhecimento e do obscurantismo pretensiosos. É simples: se desconhecemos o tema, o melhor a fazer é calçar as sandálias da humildade, em vez de cometer alguma ridicularia.

Tratar nossos gênios a pauladas é outro sintoma de deficit de inteligência. Se eu fosse o Caetano Veloso ou o Chico Buarque, quando alguém me assediasse de forma desrespeitosa, replicaria apenas o que respondeu Di Cavalcanti a uma repórter desinformada e impertinente: ;Sou um gênio, uma glória nacional, não encha o meu saco!”

Só a educação nos permitirá dar um passo de civilização. Nelson Rodrigues, o nosso profeta do óbvio, havia alertado. Nós tivemos um gênio para pensar a sexualidade: Freud. Tivemos outro gênio para pensar as questões econômicas: Marx. Mas falta o grande filósofo da burrice. Porque a burrice influi mais em nossas vidas do que o sexo e a economia.



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