Inovação na prática

Inovação na prática

Para autor de livro sobre o assunto, é preciso eliminar o medo de errar para criar maneiras inéditas de resolver problemas

Thays Martins*
postado em 09/12/2018 00:00
 (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Rivadávia Drummond é professor, pesquisador, consultor, palestrante, empresário, conselheiro de empresas... E inovador! A partir de ampla experiência profissional e acadêmica, escreveu o livro Fazendo a inovação acontecer, um guia prático que explica o que exatamente é inovar, quando e para quem isso é necessário e como fazê-lo. Atualmente morando nos Estados Unidos, ele é presidente da consultoria Rivadávia & Associados, diretor global de desenvolvimento de negócios da Universidade Estadual do Arizona, além de professor visitante da Universidade Politécnica de Hong Kong. Segundo o autor, não faltam talentos no Brasil: falta investimento em educação para que o país avance e se torne líder em inovação.

De que forma seu livro pode ajudar profissionais e gestores?
Nas primeiras páginas, começo incentivando o leitor a pensar sobre grandes perguntas que mudaram o mundo. Até brinco que grandes perguntas são complexas, difíceis e não levam desaforo para casa, ou seja, levam tempo para se responder. Inovação pode se iniciar de um desses grandes questionamentos. Meu pai dizia que, para toda pergunta complexa, há uma resposta rápida, fácil, simples e, normalmente, errada. Então, quero ajudar as pessoas a pensarem além do óbvio. Depois, eu faço questionamentos para mostrar o valor da inovação e como ela está presente no mundo atual ; porque quer você queira ou não queira, a inovação acontece. Depois, é preciso fazer a pergunta mais difícil: o Brasil é um bom lugar para inovar? A partir de dados, mostro que não é. Trata-se de um lugar árido para inovar. É um país que tem muito empreendedor, mas que inova pouco porque as condições não são favoráveis: a carga tributária, o nível de educação, a facilidade para abrir e fechar uma empresa etc. No livro, mostro que o Brasil tem uma criatividade fenomenal, mas não aproveitamos isso e jogamos fora. Termino trazendo um modelo para o leitor entender a inovação e como fazer funcionar na empresa onde atua. A partir da leitura, que é recheada de casos de sucesso, a pessoa poderá pensar sobre estratégia e desafios de execução, conhecer ferramentas e, depois, medir resultados.

Se o Brasil é um país árido para implementar novidades, como fazer isso aqui?
Eu apresento dados de várias fontes para as pessoas pensarem. Qual o nível de investimento do Brasil em pesquisa e desenvolvimento em comparação com outros países? O Brasil não lidera no quesito inovação nem na América Latina. A gente pode pensar em países que estão construindo competência digital, e o Brasil também não está entre eles. Se olharmos para a classificação do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), vemos que não estamos fazendo um bom trabalho na educação básica. E, depois, ainda tem o quão difícil o Estado torna para o empreendedor individual abrir um negócio e ter sucesso. Então, temos de pensar a questão sobre diferentes ângulos. Como vou melhorar a educação no país e como fazer uma locação inteligente de recursos para pesquisa e desenvolvimento? Olha, não falta dinheiro, ele só não está bem alocado e não chega lá. A outra questão que acho fundamental é: como você torna a vida do empreendedor mais fácil e contagia com a inovação aquele que está no mundo dos negócios não por vocação, mas porque não tem emprego? A definição de inovação do livro é essa: esqueça seu produto e tecnologia. Inovação não é isso. Ela é responder às seguintes perguntas: qual o problema que meu cliente quer resolver? Quais tarefas ele quer executar? Como eu posso ajudá-lo e tornar a vida dele mais simples, barata, eficiente e prazerosa?

As pessoas têm medo de inovar?
As questões que mais dificultam a inovação são de natureza comportamental. O medo de errar e ser punido e a intolerância em correr riscos. Quando você tem um ambiente organizacional em que o erro é punido e não há compartilhamento de informação, a inovação praticamente não acontece. Então, é preciso pensar em como criar um ambiente onde as pessoas são nutridas e estimuladas a criar soluções, admitir erros honestos e resolver problemas de forma colaborativa.

A onda de startups é um caminho para viabilizar modernizações?
É um dos componentes do que a gente chama de ecossistema de inovação. Eu acho bacana trazer o jovem para isso, pois, assim, ele tem um negócio, cria uma solução para um problema que está lá fora, tem sucesso... A gente sabe que a grande maioria fracassa, isso faz parte do processo. De cada 10 ideias, uma ou menos dá certo. Mas o movimento é bacana. Acho que as universidades poderiam seguir por esse caminho também. E cada vez mais organizações privadas começam a incubar startups dentro delas. Em vez de desenvolver a tecnologia, eu mesmo trago gente que está desenvolvendo para trabalhar comigo. Se der certo, exploro os resultados comerciais em parceria. A inovação é algo maior, envolve outras coisas, atrair empresas, investir em pesquisa e desenvolvimento, repensar o nosso sistema educacional. Vamos olhar os dados e os resultados do desempenho educacional. Eu fui reitor de uma universidade em Belo Horizonte e acho que as pessoas, em geral, não entendem a realidade do aluno de classes C e D, que gasta, só na mobilidade urbana, três horas do dia dele. É um aluno que estudou na escola pública; então, tem uma formação deficiente em matemática e língua portuguesa, e vai estudar engenharia. Se não começarmos a olhar para essas questões, o desenvolvimento do país ficará muito difícil. O que me preocupa é o tanto de talentos que a gente está jogando na lata de lixo, simplesmente por não fornecer as condições para que essas pessoas se desenvolvam.

Estamos na iminência da quarta revolução industrial. Como a inovação entra nesse cenário?
Muita coisa vai mudar. Haverá uma destruição de empregos em massa, mas novos serão criados. É o que Joseph Schumpeter (economista e cientista político austríaco) chamava de destruição criativa. As pessoas que vão ser pegas no meio da carreira realmente terão dificuldade de se adaptar. Faz parte. Qual a validade do conhecimento que você aprendeu na universidade? As coisas mudam e passam. É importante levar em consideração, no mundo universitário, a formação do sujeito, fazer com que a pessoa pense de forma independente, se torne uma aprendiz contínua. A revolução realmente acontecerá e terá lados muito positivos. Acho que o Brasil não está preparado para isso. Estamos discutindo at

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