De peito aberto

De peito aberto

Um dos artistas mais relevantes do rap nacional, X Câmbio Negro retorna de um hiato de 18 anos e, em entrevista ao Correio, fala de amadurecimento, política, Ceilândia e, claro, hip-hop

Igor Silveira José Carlos Vieira
postado em 09/12/2018 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
De terno e gravata, a figura formal que entra na redação do Correio pouco lembra o artista que fundou um dos principais grupos da história do rap nacional no início dos anos 1990. Não fosse o Câmbio Negro tatuado no topo da cabeça, X passaria despercebido. Isso, porém, até o rapper de Ceilândia soltar o verbo com o mesmo discurso firme e direto, que o consagrou em clássicos como Sub-raça, de 1993. Aos 50 anos, X Câmbio Negro garante estar mais sereno (;A gente aprende com a idade;), mas não se dá o direito de perder a indignação diante de injustiças sociais. O hiato de 18 anos da banda, garante o músico, não arrefeceu o som pesado. Ao contrário. As rimas agressivas estão ainda mais afiadas. ;O X não mudou, continua sendo agressivo, mas hoje toca em alguns assuntos que, talvez, não tivesse vivência e maturidade para abordar naquela época;, afirma, referindo-se à morte.




Você está de volta com um disco pesado. Como está sendo esse retorno?
O Câmbio Negro é uma formação nova da banda. Nós voltamos depois de 18 anos. Há uns cinco anos, a gente se juntou para gravar no Teatro Garagem, mas rolaram uns problemas no percurso. Eu não queria mais tocar, porque perdi o prazer, a satisfação. Aquela situação estava me deixando chateado, estressado, várias falcatruas no meio da música, entendeu? E eu não compactuo com isso. Uma série de coisas me levou a deixar os palcos. Aí, teve um festival e fiz um som com o GOG. Comecei a me reapaixonar, digamos assim. Nunca deixei de gostar, mas palco não queria mais. E, aí, o tempo foi passando, surgiu uma parceria com Ralph Sardela, Moisés Pacífico, Denizar e o DJ Beetles.


E a partir daí?
Começamos a ensaiar e eu estava concluindo duas letras. Fiz um clipe e lancei no ano passado, o Ninguém toma. O vídeo está chegando em 10 mil visualizações de forma orgânica. Não tem aquele negócio de pagar, impulsionar. É a galera que vê, que gosta, que curte, que compartilha. É uma coisa mais de verdade. Fizemos um show diferente dos antigos. Na época, não tínhamos os recursos. Hoje, fazemos um show mais pesado, que traz o peso do eletrônico, que a bateria não trazia, porque a gente não tinha recurso.


Muita gente dizia que vocês soavam mais como uma banda de rock...
Exatamente. É justamente pela falta do eletrônico. O cara ouvia o disco e gostava, mas quando ia ao show, ele sentia falta de um peso, de uma porrada. Hoje, a gente tem. Fizemos todo um trabalho de pesquisa. Entra uma música mais agressiva do que antes; um clipe que tem a ver com a agressividade da letra, com vários caras lutando: Muhammad Ali, Mike Tyson, Ernesto Hoost. Além disso, há várias personalidades negras, não apenas cantores e atletas, para sair daquele chavão, mas também neurocientista, escritora, advogado, uma astronauta da Nasa. Vamos mostrar que não é bem isso falam: sub-raça, não. Entendeu?


Em uma das cenas de Ninguém toma, você aparece recebendo a benção de uma ialorixá. Qual é a importância da fé para você, principalmente, das religiões de matrizes africanas?
Grande, especialmente, nesse retorno. As coisas degringolaram e não foi de uma hora para outra. Eu tenho a plena consciência de que nada melhora rapidamente, é com o tempo, com fé, com espiritualidade. Hoje, me sinto muito bem, me fortalecendo mentalmente e espiritualmente.


O Câmbio Negro marcou a cena de rap na Ceilândia e você é uma das figuras que personificaram esse movimento. Você encara isso mais como um peso ou como uma missão?
Eu encaro com naturalidade, porque foi veio naturalmente. Foi algo que aconteceu aos poucos. Não falei: ;Eu vou fazer rap porque eu quero ser famoso, porque eu quero ficar rico, porque eu quero uma carreira;. Eu queria colocar a boca no trombone, falar dos problemas. Mas também encaro isso como uma missão. Eu não sinto como um peso. Eu sinto como uma missão de ser mais um dos porta-vozes que as periferias têm. É na oralidade que vejo nossa missão se fortalecer.


O seu rap teve uma fase da revolta. E ele evoluiu para uma mensagem de conscientização, da união, da forma de ver o mundo. Como era enfrentar esses momentos difíceis?
Não era fácil. Era um som da periferia. Não tocava nas grandes rádios. Fazíamos nossos pequenos shows pela cidade. Aí, eu montei a banda e comecei a fazer show pelo Plano Piloto. As portas começaram a se abrir. Então, isso foi um divisor de águas. Mas, bicho, você sabe que nem todo mundo fica feliz com o seu sucesso. Começaram a dizer que eu era traidor do movimento, que eu virei as costas para Ceilândia, que o Câmbio Negro não era rap.


O que lhe angustia atualmente?
Várias coisas. Todo dia, você vê um caroço de manga aí que precisa roer, entendeu? Nas redes sociais, a questão do racismo. Nessa última campanha, você via os relatos, as afrontas racistas, etc. Reforçando tudo o que eu vinha falando em Sub-raça lá em 1993. Quando saiu, há 25 anos... Faz sentido tocar essa música ainda em 2018? Claro, continuamos sendo chamados de negros imundos, macacos, afrodescendente de 12 arrobas. A indignação continua e são esses motivos que me levam ainda a continuar. A questão da homofobia, da violência contra a mulher, da desigualdade social... Vejo muita gente que é da periferia, que é da Ceilândia, e estuda, batalha, trabalha de dia, estuda à noite. Presta concurso, consegue passar e, a primeira coisa que o cara faz, é ir embora dali, dar as costas.


Esquecer o passado?
Esquecer! Em vez de o cara falar: ;Pô bicho, agora tenho mais grana, tenho um pouco mais de condição, vou melhorar o lugar onde eu vivo, vou fazer algo por aqui. Não é pecado ou demérito algum a pessoa ter grana, evoluir, crescer, ser rico, milionário. Eu conheço caras ali na Ceilândia, e eles não sabem a admiração que eu tenho, porque eles fazem a diferença lá. Você começa a inspirar a moçada, os mais jovens.


Há vários rappers excelentes que ficam pelo caminho ou não conseguem viver da música. Quem se sustenta com o rap?
Pouquíssimos se sustentam com o rap. Eu já tive essa ilusão de viver de música. Não tenho mais. Não tenho essa pretensão. Até porque já passei do tamanho, do peso e da idade (risos). Quando você tem 50 anos é outra coisa. Acabamos a banda em 2000, um dos motivos foi esse: era nosso meio de vida, nosso ganh

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