Direitos humanos (e animados)

Direitos humanos (e animados)

Grupo de artistas de Recife recria a Declaração Universal dos Direitos Humanos em formato ilustrado

Adriana Izel
postado em 09/12/2018 00:00
 (foto: Wagner OUTRO/Divulgação)
(foto: Wagner OUTRO/Divulgação)

Amanhã celebramos os 70 anos da adoção pela Organização das Nações Unidas da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), documento-norma que delineia os direitos humanos básicos elaborado por representantes de diferentes países. Com 30 artigos, a DUDH estabelece a proteção universal aos cidadãos, falando de direitos, como à vida, à segurança e à liberdade, e também de proibições, como à escravidão e à tortura.

A chegada dos 70 anos da adoção do documento motivou um grupo de ilustradores de Recife, o coletivo Mutirão, idealizado por Celso Hartkopf e Raul Souza e na ativa desde 2016 para facilitar e viabilizar ideias, a fazer um projeto em celebração ao aniversário com ilustrações representando cada um dos 30 artigos ao lado do texto original da DUDH. ;Ainda no início do ano me dei conta do aniversário de 70 anos e pensei em bolar alguma ação do Mutirão, a partir daí, conversando com o Raul, a ideia da publicação veio naturalmente: 30 artigos, 30 artistas e 30 cartazes;, lembra Hartkopf.

Para executar o projeto, o coletivo buscou apoio da Revista Continente para publicação, mas a realização foi toda própria e voluntária dos ilustradores. ;Sem nem uma moedinha indo pro bolso de quem quer que seja, absolutamente ninguém ganhou dinheiro algum nesse projeto;, ressalta Raul Souza. O objetivo mesmo foi celebrar e difundir as mensagens da Declaração Universal dos Direitos Humanos. ;Esse trabalho é, na verdade, um instrumento do discurso coletivo, feito para que ideias mais humanas possam ecoar;, completa Celso Hartkopf.

A partir daí, o coletivo chegou ao nome dos 30 ilustradores que fariam parte do projeto. ;Optamos por dar preferência à galera que participou nas ações anteriores com a gente, por questões de prazos e de acesso mesmo;, explica Souza. Cada ilustrador ganhou um artigo para fazer uma ilustração. A escolha foi aleatória, por meio de sorteio. ;Jogamos todos os nomes num desses sites de sorteio, apertamos o botão, e pronto. Engraçado que calhou de muitos artistas terem se identificado com os artigos sorteados;, completa.





Identificação

Isso foi o que aconteceu com o ilustrador Wictor Bernardo, mais conhecido pelos trabalhos de grafite, como Wictor OUTRO. Ele ficou responsável pela ilustração do artigo 19;, que trata do direito à liberdade de opinião e expressão, o que dialoga com o trabalho dele, o único ;ilustrador-pichador; ; como ele se denomina ; dos 30 da lista. ;O artigo 19; da DUDH, em resumo, é a garantia de que todas e todos desfrutem do direito de comunicar e se expressar como quiser, onde quiser, por qualquer meio que preferir, sem sofrer nenhuma coação por tal atitude. Eu, como artista de rua, no momento que recebi a minha parte só conseguia visualizar uma parede com muito picho;, conta.

Em sua ilustração, OUTRO retrata um prédio em frente à Ocupação Marielle Franco, que fica na Praça do Diário, no centro de Recife, com grafites. ;Decidi que era ali que deveriam estar todos os pichos que tinha imaginado anteriormente e fiz uma foto pra fixar bem aquele momento que eu queria levar para o desenho. Daí começou o processo mais demorado: reunir pichações das manas e dos manos, palavras de ordem, movimentos sociais, crews de grafite, grifes de picho, apelo pelos amigos encarcerados injustamente e o que mais o momento permitisse; e depois diagramar tudo isso dentro da ;ordem da desordem;;, declara.

A situação também foi semelhante para Celso Hartkopf. O ilustrador ficou com o artigo 24;, que fala sobre o direito ao repouso e ao lazer. ;Representar esse artigo foi uma alegria para mim, pois como a produção do material todo já estava sendo bem puxada, foi uma oportunidade de abraçar esse direito, ir à praia, tomar sol, desenhar e relaxar um pouco;, afirma.



Importância

Para os ilustradores, o projeto tem uma função importante de disseminar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, ainda desconhecida por grande parte da população. ;As artes visuais são certamente mais rápidas e diretas em comunicar, e na era da imagem isso se torna ainda mais forte. A miscelânea própria do projeto também contribui para isso, pois a diversidade de linguagens estéticas engrandece a possibilidade de troca com pessoas diversas. Também escolhemos usar o texto da Declaração na íntegra, exatamente para que as imagens se tornem vias de acesso para as mensagens originais e, de certo modo, facilitadores dessa transmissão;, explica Celso Hartkopf.

Wictor fala sobre o impacto que o projeto teve nele e acredita que pode acontecer com outras pessoas. ;Sinceramente, eu mesmo não conhecia todos os artigos e menos ainda sabia que estava fazendo 70 anos neste fatídico ano de 2018. Olhando por esse lado, a ilustração me ajudou a estudar a DUDH; e eu acredito que a linguagem não verbal, e muitas vezes abstrata, trazida nas ilustrações, pode ; e certamente irá ; aguçar o senso crítico das pessoas que também não sabem muito sobre este documento;, defende.



Onde acompanhar o projeto
As 30 ilustrações dos 30 artigos estão disponíveis em https:/www. direitoshumanos70anos.com.


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