Uma questão de sobrevivência

Uma questão de sobrevivência

O medo é um sentimento comum a todo ser humano e que permite nos protegermos de possíveis perigos do cotidiano. Mas é importante tomar cuidado para ele não nos paralisar

Por Juliana Andrade Especial para o Correio Por Renata Rusky
postado em 09/12/2018 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
Medo de andar de avião, de dirigir, de passear na rua e até de ser quem é. Quem nunca sentiu medo na vida? Por mais corajosos que alguns dizem ser, sempre há algo que deixa as pernas bambas e que dá aquele frio na barriga. Expostas diariamente a perigos, as pessoas aprendem a viver com esse sentimento complicado, porém humano.

A psicóloga Denise Lettieri Moraes, da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental, explica que o medo é um comportamento que aprendemos a ter diante dos estímulos da vida. ;Desde crianças, somos expostos ao perigo e, para sobreviver, precisamos ter medo. Pais orientam os filhos sobre os riscos de mexer na tomada e de atravessar a rua, por exemplo. Esses são comportamentos da sobrevivência humana. Talvez, a gente nem existisse se não tivéssemos medo;, sentencia.

Apesar de necessário, o medo pode se tornar um problema se extrapolar os limites e começar a atingir a qualidade de vida. Segundo Denise, a partir do momento em que ele impede o indivíduo de fazer coisas comuns do dia a dia, como deixar de viajar, por ter medo de altura, ou deixar de sair de casa, por temer alguma violência, é preciso intervir e buscar ajuda.

O psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), destaca que, em casos mais graves, as pessoas devem buscar tratamentos com medicamentos e psicoterapias. ;O mais importante, quando possível, é entender o porquê do medo e tratar a raiz do problema, devolvendo à pessoa a autonomia;, ressalta.

Para Denise, uma forma de enfrentar o problema é procurar se expor a determinadas situações mais amenas. ;Se a pessoa tem medo e quer enfrentar, o mais indicado é traçar metas menores, em que tenha chance de superar e mudar emocionalmente a forma como se relaciona com aquela situação. Se tenho medo de avião, por exemplo, é melhor começar com voos mais curtos;, aconselha.

Outra dica da psicóloga é enfrentar essas situações na companhia de alguém que a deixe mais calma. As pessoas que estão em volta têm um papel fundamental que pode fazer toda a diferença na forma como lidam com a situação. ;Não devemos jamais julgar. Ninguém escolhe sentir aquilo. Tenha empatia e não julgue;, aconselha.


Medo nas alturas

Há quem não se sinta muito seguro viajando sobre as nuvens em uma aeronave pesada e cheia de gente. Mas o fato é que a tecnologia da aviação facilitou, e muito, a vida do ser humano. Viajar é sempre um momento de alegria e, diante de algumas distâncias, o mais fácil é ir pelo alto mesmo. Porém, o que para muitos é um momento agradável, para alguns é um verdadeiro pesadelo.

A arquiteta Marina Sattamini, 23 anos, é um exemplo disso. Ela conta que sempre viajou de avião e, quando criança, se divertia passeando nas alturas. Porém, durante a adolescência, quando descobriu o quão alto a aeronave ia e que não era possível sair dela durante o voo, o medo passou a embarcar com ela. ;De repente, comecei a ter noção de que era muito alto, que a aeronave podia cair e comecei a achar esquisito;, comenta.

A jovem afirma que o medo passou a tomar um grande espaço na vida dela a partir dos 14 anos de idade. Ela destaca que o temor da morte era frequente sempre que precisava pegar um avião. ;Eu tinha muita crise de ansiedade, de pânico. E acabei transferindo esse medo para todas as áreas. Passei a ter pavor de viajar de avião. É um lugar que me prende, em que eu não consigo ter controle. Ficava pensando que se eu passasse mal lá em cima, não teria como sair, e ficava muito aflita com isso;, recorda-se.

Marina lembra que já chegou a ter crises durante o voo. Em uma delas, teve a sensação de estar sofrendo um infarto. ;Quando eu tinha 16 anos, eu estava com minha tia-avó e comecei a me sentir mal, como se estivesse infartando. Minha mão começou a formigar e eu não conseguia respirar direito;, relata. A arquiteta só se acalmou quando a colocaram no fundo da aeronave, deitada em três poltronas.

A superação

Com o tempo, Marina foi encontrando algumas táticas para tornar os voos menos atormentadores. Tudo o que a distraía era bem-vindo: um livro, fones de ouvido e séries a ajudavam a esquecer que estava voando. ;Eu levava sempre medicação e colocava aquele tampão de olho, colocava meias, como se estivesse em casa, para ficar bem confortável. Meu maior medo era a decolagem, então ficava fazendo meditação e dormia.;

O nascimento da filha também a ajudou a superar o medo. Marina afirma que transferiu todas as suas apreensões para o parto, e o fato de ter dado tudo certo a motivou a criar coragem. ;Eu fiquei mais forte. Tinha muito medo do parto, e ter conseguido me deu muita força mental. Agora, eu consigo qualquer coisa;, comemora.


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