A longa espera por uma doação de órgão no DF

A longa espera por uma doação de órgão no DF

Transplantes de órgãos no Distrito Federal diminui de 2013 para cá, e recusa familiar se mantém alta no Brasil. O Correio conta as histórias de pessoas que passaram pelo processo e de outras que sofrem em filas aguardando uma cirurgia capaz de prolongar a vida

» MURILO FAGUNDES* » RENATA RUSKY
postado em 24/12/2018 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


;Eu sabia que não conseguiria viver nem mais alguns dias. Então, pedi para me tirarem da internação, porque queria morrer ao lado do meu marido e do meu filho. Já estava descrente. Foi quando o médico pegou na minha mão e disse: ;Acalme-se. O seu coração está a caminho;;. Graças à doação de órgão feita por uma família do Paraná, a vida de Elaine Gomes, 42 anos, mudou completamente. Histórias de renascimento como a dela, porém, têm sido menos comuns no Distrito Federal, que já foi referência em doação de órgãos (veja Memória). Desde 2013, o número de operações do tipo têm diminuído e alertado para a necessidade do gesto de caridade. Segundo os Registros Brasileiros de Transplantes, de janeiro a setembro de 2013 e do mesmo período de 2018, a quantidade de órgãos transplantados na capital passou de 30,1 por milhão de população para 18,4. Comparado com os outros estados, a capital caiu do primeiro para quarto lugar.

Além da menor quantidade de transplantes feitos no DF, o cirurgião do aparelho digestivo André Watanabe, coordenador da equipe de transplante de fígado do Hospital Brasília, relata que, agora, os órgãos estão vindo de longe. ;Antigamente, 60% dos doadores de fígado eram daqui mesmo. Era muito mais fácil e mais barato, não precisava deslocar uma equipe, com aeronave da Força Aérea. Hoje, 70% dos órgãos vêm de fora;.

O tempo despendido no trajeto também interfere no procedimento por causa do tempo de isquemia (intervalo entre a retirada do órgão e o transplante). Segundo Watanabe, 90% dos órgãos vêm de hospitais públicos e, para ele, houve uma piora nos processos, desde a realização de protocolos de morte encefálica à manutenção do doador até a abordagem da família. ;Até que se chegue ao doador efetivo, existe um processo de confirmação da morte encefálica. Dois exames devem ser feitos por médicos especialistas. Depois, vem a conversa com a família, que acabou de perder uma pessoa, geralmente jovem e por acidente. Se tudo isso não for muito organizado, cai a quantidade de doadores efetivos;.

A Secretaria de Saúde do DF explicou, em nota, que o trabalho de captação de órgãos para transplante é constante e que o esforço do serviço se reflete em bons números diante do cenário nacional. A capital está em quarto lugar em termos de transplantes. Em 2013, estava em primeiro. Para 2019, a pasta planeja ;a elaboração de um Plano Distrital de Transplante, além da oferta de cursos para os profissionais envolvidos, visando à capacitação das equipes para manejo do potencial doador e para potencializar o número de notificações de morte encefálica;.

Recusas


A recusa familiar na capital se mantém estável. De 42%, em 2013, passou para 41% este ano. Não está entre os locais onde mais se nega doação, mas ainda é muito alta. O Paraná é onde menos famílias negam a doação de órgãos de parentes, com apenas 27% de recusa, seguido de São Paulo e Ceará, ambos com 36%. Mato Grosso, Roraima, Piauí, Paraíba são os estados que tiveram as taxas mais altas de recusa familiar, com 85%, 75%, 73% e 69%, respectivamente. A Secretaria de Saúde aconselha: quem quer ser doador deve conversar com a família sobre o desejo.

A agente de educação Joana D;Arc, 54, já deixou claro para a família que, se possível, quer ter os órgão doados, mas não foi sempre assim. Joana já foi contra a doação e o transplante de órgãos. Diagnosticada com glaucoma, depois de dores de cabeça frequentes, o processo de aceitação do transplante de córnea não foi fácil, apesar de os médicos e da família recomendarem fortemente. ;Eu achava que deveríamos viver e morrer como Deus nos colocou no mundo;.

No ano passado, a doença piorou. ;Quando as coisas começaram a apertar, aceitei o transplante. Mas me preocupava com quem seria o doador, se seria alguém de índole ruim;, relembra. Para a sorte dela, as preocupações se dissiparam quando descobriu que o doador era uma criança de 6 anos. Não há um dia em que Joana não agradeça em orações e pensamentos. Até chora. Lamenta não conhecer a família para agradecer pessoalmente. Em especial no Natal, ela relembra de momentos cruciais da sua saúde ; como quando teve um aneurisma e um AVC ; e se sente abençoada por ter superado tudo.

* Estagiário sob a supervisão de Leonardo Meireles



  • Tipos de doadores

    Há dois tipos de doadores: o vivo e o falecido. O primeiro pode ser qualquer pessoa, desde que não prejudique a própria saúde. Ele pode doar um dos rins, uma parte do fígado, da medula óssea ou do pulmão. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores. Não parentes, só com autorização judicial. O segundo, mais comum, porém em queda, são pacientes com morte encefálica comprovada. Nesse caso, é a família quem deve autorizar ou não a doação.

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