Catástrofe silenciosa

Catástrofe silenciosa

Erupção do Anak Krakatoa provoca deslizamentos na encosta do vulcão, no fundo do mar, e forma tsunami devastador em região turística, entre as ilhas de Java e de Sumatra. Tragédia deixa centenas de mortos e desaparecidos. Autoridades temem novo maremoto

Rodrigo Craveiro
postado em 24/12/2018 00:00
 (foto: Ronald/AFP










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(foto: Ronald/AFP )

Enquanto buscam sobreviventes e choram os seus mortos, os indonésios que vivem na região do Estreito de Sunda (costa oeste do país) temem uma nova tragédia vinda pelo mar e tentam entender o que aconteceu às 21h30 de sábado (14h30 em Brasília). A pista mais provável está na erupção do Anak Krakatoa (;Filho de Krakatoa;, em indonésio), um vulcão de 300m que se formou, por volta de 1928, onde ficava o lendário Krakatoa ; destruído pelas explosões em 27 de agosto de 1883, que lançaram cinzas a mais de 20km de altura, transformaram o dia em noite por pelo menos 48 horas e mataram 36 mil. Especialistas acreditam que deslizamentos de milhões de toneladas de rochas e de sedimentos na encosta do Anak Krakatoa provocaram ondas em todas as direções, formando o tsunami.

A tese foi respaldada pela Agência de Geologia, Climatologia e Meteorologia da Indonésia (BMKG). Organizações humanitárias se mobilizavam, ontem, para responder ao desastre. ;As recomendações da BKMG são para que as pessoas não realizem atividades nas praias e se mantenham afastadas da costa, por enquanto;, comentou Sutopo Purwo Nugroho, chefe da Agência Nacional de Gerenciamento de Desastres. Segundo o Centro Internacional de Informação sobre Tsunamis, explosões submarinas são relativamente pouco frequentes, mas, quando ocorrem, podem provocar tsunamis devido ao deslocamento repentino da água.

;Com base nas imagens de satélite e nas fotografias do vulcão, parece que parte do Anak Krakatoa desabou no mar, formando o tsunami;, explicou ao Correio a vulcanóloga Janine Krippner, especialista da Concord University, em Athens (Virgínia Ocidental, nos EUA). ;A inexistência de terremoto e a curta distância do vulcão das áreas impactadas impossibilitaram que o alerta de tsunamis fosse ativado.; Segundo ela, a encosta do Anak Krakatoa continua sob a água, o que sugere que o colapso possa ter sido submarino.

De fato, não houve qualquer aviso. Sem a terra tremer, o alerta não foi acionado. Turistas e indonésios aproveitavam um feriado local quando foram surpreendidos por uma imensa parede d;água que varreu pessoas, casas e carros. Até o fechamento desta edição, as autoridades contabilizavam pelo menos 222 mortos e 843 feridos. No entanto, testemunhas relataram ter visto centenas de pessoas desaparecerem na escuridão. Foi o segundo tsunami a atingir a Indonésia em 2018 e o quinto desde 26 de dezembro de 2004, quando um terremoto de 9,3 graus na escala Richter (aberta, raramente chega a 9) provocou um maremoto que matou 220 mil turistas e cidadãos em 14 países.

Horas depois da catástrofe de sábado, vídeos circularam nas redes sociais mostrando a destruição. Em um deles, a banda pop indonésia Seventeen se apresentava em uma tenda montada na praia quando o mar avançou, levando tudo pela frente (leia nesta página). As primeiras informações davam conta de 558 casas destruídas, além de 9 hotéis, 60 restaurantes e 350 barcos avariados. ;Chegamos às 21h para as férias e logo a água chegou. Tudo ficou escuro. Não havia energia elétrica;, contou à agência France-Presse Muhammad Bintang, 15 anos, que viu a onda gigantesca se aproximar. Na província de Lampung, no lado oposto do Estreito de Sunda, Lutfi Al-Rasyid, 23 anos, disse que teve de abandonar a moto e fugir a pé. ;Eu não consegui ligá-la, então, saí correndo. Rezei e corri o mais rápido que pude.;

O norueguês Oystein Lund Andersen, fotógrafo especializado em vulcões, fazia alguns registros do Anak Krakatoa quando se deparou com o tsunami. ;Tive de correr, pois a onda atravessou a praia e avançou por 15m a 20m no continente. A próxima onda invadiu a área do hotel onde eu estava e virou carros. Consegui fugir com a minha família até um terreno mais alto, por meio de florestas e de vilarejos. (;) Nós estamos ilesos, felizmente. (;) Encontrei meu primeiro tsunami, espero que o último;, relatou em sua página no Facebook.

O presidente norte-americano, Donald Trump, lamentou a ;inimaginável devastação do tsunami;. ;Mais de 200 mortos e quase mil feridos ou desaparecidos. Nós estamos orando pela recuperação e pela cura. A América está com vocês;, escreveu no Twitter. O papa Francisco, por sua vez, lançou um pedido por socorro às vítimas do desastre. ;Meu apelo é para que esses irmãos e irmãs (indonésios) não careçam de nossa solidariedade e do apoio da comunidade internacional;, declarou.

Brasileiros
Na tarde de ontem, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro divulgou nota na qual afirma que ;o governo tomou conhecimento, com profundo pesar, do maremoto que atingiu praias ao redor do Estreito de Sunda, na Indonésia;. ;O governo brasileiro expressa suas condolências às famílias das vítimas, seus votos de recuperação aos feridos e sua solidariedade ao povo e ao governo da Indonésia;, afirma o Itamaraty. O comunicado acrescentou que, até o momento, não há registros de brasileiros atingidos pelo maremoto e disponibilizou o telefone do plantão consular da Embaixada do Brasil em Jacarta (+62 811800662) para casos de emergência.

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