Conexão diplomática

Conexão diplomática

Decifrando a bolsodiplomacia

postado em 05/01/2019 00:00
Nos primeiros dias de governo de Jair Bolsonaro, o exercício obrigratório dos emissários externos e observadores foi ler as entrelinhas e as mensagens cifradas contidas nos discursos iniciais e nos atos inaugurais, no campo da política externa. Se as primeiras palavras do novo presidente reafirmaram as linhas gerais antecipadas na campanha eleitoral e na transição, o chanceler Ernesto Araújo mesclou, na cerimônia de posse, indicações claras de orientação diplomática e citações à primeira vista turvas, mas que permitem entrever o embasamento ideológico ; a despeito de ser esta a crítica central ao Itamaraty do período Lula-Dilma ; que dará norte aos próximos anos.

Foi com alguma perplexidade e uma dose de assombro que diplomatas e estudiosos se debruçaram sobre o emaranhado de menções de Araújo no discurso que pronunciou ao assumir o cargo. Entre uma passagem do Evangelho em grego (;conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará;), um trecho da Ave-Maria em tupi-guarani e versos de Raúl Seixas, o chanceler enunciou sem parábolas a opção por um alinhamento com a linha-mestra do que se poderia chamar de ;trumpismo;: a contraposição entre o que se afirma como ;interesse nacional; e aquilo que se classifica como ;globalismo; ; afora as disputas no terreno cultural, o rechaço político frontal ao multilateralismo.

As expectativas se voltam, agora, para as consequências práticas e imediatas da nova orientação. Em especial, aguarda-se uma definição clara do tratamento que o governo Bolsonaro dispensará a Venezuela, Cuba e Nicarágua. Os três países foram identificados por Washington como a ;troica da tirania; no Hemisfério Ocidental ; a nomenclatura oficial do Departamento de Estado para as Américas.

Eminência parda
Aquilo que foi tratado na mídia como o toque ;exótico; do discurso inaugural do chanceler foi lido por observadores mais imersos na exegese do ;bolsonarismo; como uma espécie de tributo ao ;padrinho; e mentor do novo titular do Itamaraty. A coletânea de demonstrações de erudição linguística e etnológica, ancoradas em uma perspectiva religiosa tradicionalista, foi percebida pelos mais atentos como traço distintivo dos discípulos de Olavo de Carvalho, guru da direita ;trumpista; no Brasil. Não escapou aos diplomatas presentes o lugar privilegiado destinado na plateia a Bertrand de Orleans e Bragança, herdeiro da família real, mencionado nas saudações iniciais do chanceler com o título de ;sua alteza imperial; ; com o nome precedido pelo pronome de tratamento ;dom;.

A imagem de Olavo de Carvalho como eminência parda do novo governo, ao menos no terreno externo, foi reforçada com a indicação do editor Filipe Garcia Martins, 31 anos, como assessor da Presidência para Assuntos Internacionais. Com uma ponta de ironia, críticos de Bolsonaro veem na escalação uma réplica da trinca formada por Lula com o chanceler Celso Amorim e o ;professor; Marco Aurélio Garcia.

Baú do Raúl
Entre as passagens que causaram espécie no discurso inaugural do novo ministro, diplomatas mais familiarizados com a cultura brasileira elegeram como favoritas as citações de Renato Russo e Raul Seixas ; especialmente as do último, reconhecido universalmente como personagem singular na história da MPB. Ernesto Araújo escolheu versos de Ouro de Tolo, um dos primeiros grandes sucessos de púlbico, mas não faltaram sugestões para outras canções que poderiam inspirar o chanceler. Os mais políticos mencionam Aluga-se (;é tudo free;). Quem focaliza a guerra declarada à corrupção lembra Al Capone. O ecletismo da fala trouxe à lembrança a Metamorfose ambulante.
Para os desiludidos e temerosos, a opção escolhida foi o SOS Disco voador.

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