Oposição sob o terror chavista

Oposição sob o terror chavista

Agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional capturam Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, e o libertam uma hora depois. Regime de Maduro denuncia ação unilateral de funcionários. Comunidade internacional condena incidente

Rodrigo Craveiro
postado em 14/01/2019 00:00
 (foto: Yuri Cortez/AFP)
(foto: Yuri Cortez/AFP)






Desafiador, Juan Guaidó bradou, no alto de um palanque, durante comício em Caraballeda, no departamento (estado) de Vargas: ;Gritemos com brio!”. A multidão respondeu com um ;Fora, opressão!” Minutos antes, por volta das 11h (13h em Brasília), o presidente da Assembleia Nacional (controlada pela oposição) tinha sido capturado e detido por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin), no meio da rodovia, em uma operação cinematográfica (veja foto) e repleta de dúvidas. ;Irmãos, aqui estou! Quero mandar uma mensagem muito clara a Miraflores (o palácio presidencial). Companheiros, o jogo mudou, o povo está nas ruas. O povo seguirá nas ruas. Aqui estão os símbolos da opressão;, declarou Guaidó, ao mostrar as marcas deixadas pelas algemas. ;Se queriam enviar uma mensagem para que nos escondêssemos, aqui está a resposta do povo;, acrescentou.

O Grupo de Lima ; formado por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia ; divulgou nota oficial na qual ;condena a detenção arbitrária; de Guaidó e ;expressa seu mais forte rechaço a qualquer ação que afete a integridade física dos membros da Assembleia Nacional da Venezuela, suas famílias e colaboradores;. A declaração também adverte contra ;qualquer pressão ou coerção que impeçam o exercício pleno e normal de suas competências (da Assembleia) como órgão constitucional e legitimamente eleito na Venezuela;.

Por sua vez, John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, denunciou um ;ataque ao Estado de direito;. ;Tais atos de intimidação perpetrados pela polícia secreta cubana patrocinada por (Nicolás) Maduro, Sebin, liderado pelo general Manuel Christopher Figueroa, representam um grave ataque ao Estado de direito na Venezuela;, afirmou. O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, instou as forças de segurança da Venezuela a defenderem a Constituição e os direitos dos venezuelanos. O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, destacou que a libertação de Guaidó não é um atenuante e lembrou que Maduro segue lançando mão da intimidação e da coerção. ;Uma transição para a democracia, como a que lidera o presidente interino Guaidó, exige o desmantelamento de um aparato de repressão e de inteligência operado pela narcoditadura usurpadora;, disparou.

;Arbitrariedade;
Em meio à forte repercussão internacional, o regime de Nicolás Maduro tratou de se descolar da captura de Guaidó. O ministro do Poder Popular para a Comunicação e Informação da Venezuela, Jorge Rodríguez, culpou uma decisão unilateral de funcionários do Sebin e prometeu a aplicação de medidas disciplinares severas. ;Soubemos que houve uma situação irregular, onde um grupo de funcionários atuando de modo unilateral realizou um procedimento irregular contra o deputado Juan Guaidó;, disse, em rede nacional de TV. ;Esses funcionários, que se prestaram a esse show contra o normal desenvolvimento da vida na República, estão sendo destituídos.;

Um dos principais nomes da oposição no exílio, o ex-prefeito de Caracas Antonio Ledezma acredita que a justificativa de Rodríguez é ;uma das grandes contradições de um regime que está desmoronando;. ;As máfias disputam o controle dos resquícios de um regime que, definitivamente, cai. Não se sabe mais quem manda;, ironizou. ;Algumas pessoas dizem que factoides militares não estão de acordo com essas medidas arbitrárias;, afirmou ao Correio, por telefone. ;Isso denuncia um declive nas forças chavistas e maduristas, impossibilitadas de conter esse tipo de choque.;

Para Ledezma, a detenção momentânea de Guaidó representa ;os estertores de uma ditadura;. ;Em sua face agônica, ela responde com desespero e com brutalidade. Esse tipo de conduta arbitrária não é nova. Recordemos que estão encarcerados vários deputados e líderes políticos dissidentes, muitos torturados. Na Venezuela, tem existido uma política de extermínio dos meios de comunicação livres;, comentou o também preso político foragido e exilado em Madri. ;Mesmo que Guaidó tivesse sido detido por um, dois, três ou quatro minutos, isso seria um fato absolutamente grave, que evidencia até onde essa tirania é capaz de chegar.;

Também por telefone, Edgar Zambrano (leia Três perguntas para) ; vice-presidente da Assembleia Nacional ; acredita que a detenção e a posterior rápida libertação de Guaidó pode ter várias leituras. ;Recordemos de que este é um governo de dirigentes de diversas expressões, no critério do legado de Hugo Chávez, e que compartilham parcelas de poder. Há contradições entre esses líderes. O incidente também pode ser uma mensagem direta à Presidência da Assembleia Nacional;, admitiu. Segundo o parlamentar, tais reações são clássicas ;em um barco que começa a ser tomado pela água;.



O momento da abordagem registrado em vídeo


Toda a ação durou poucos minutos e foi registrada em vídeo. Nas imagens, pelo menos sete homens encapuzados, fortemente armados e vestidos com jaquetas escuras ; empurram Juan Guaidó para dentro de uma SUV prateada e partem em alta velocidade. A SUV e outro carro interceptaram o veículo no qual Guaidó seguia com a mulher, Fabiana Rosales, e com assessores. A abordagem ocorreu na Autopista Caracas La Guaira, a 20km da capital venezuelana, no momento em que Guaidó se dirigia a um comício no estado de Vargas, no litoral norte da Venezuela.



Protesto na Espanha

Centenas de venezuelanos se concentraram ontem no centro de Madri, na emblemática Puerta del Sol, com faixas de ;ditador; e ;usurpador;, com o objetivo de repudiar o presidente Nicolás Maduro. ;Quem somos nós? Venezuela. O que queremos? Liberdade; e ;Maduro ditador; eram algumas das palavras de ordem dos manifestantes. Também gritaram ;Guaidó presidente;, em apoio a Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional. O ato em Madri foi organizado por vários atores políticos e civis venezuelanos, incluindo Antonio Ledezma, preso político exilado na Espanha e ex-prefeito de Caracas.




TUITADAS

;Os que asseguram que na Venezuela existe um ;regime ditatorial; beiram o absurdo. O que está em marcha é um processo revolucionário, com firme vocação democrática, que avança rumo ao Socialismo Bolivari

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