Da luta armada ao ofício de escritor

Da luta armada ao ofício de escritor

Vera Batista
postado em 14/01/2019 00:00
 (foto: Daniel Walker/AFP

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(foto: Daniel Walker/AFP )


Cesare Battisti nasceu em 18 de dezembro de 1954, em Cisterna di Latina, na Itália, em uma família de comunistas , mas a mãe era católica fervorosa. Ex-membro dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), grupo acusado de ser terrorista e de ter cometido atos ilegais no país no período conhecido como anos de chumbo, foi condenado à prisão perpétua por quatro homicídios, mas nega ter cometido tais crimes. Battisti também rechaça a pecha de terrorista. Afirma que o PAC era uma organização de luta armada. Ele e seus parceiros cometeram equívocos, mas pela sobrevivência, afirma. ;Éramos meninos e meninas de 20 anos que viam os companheiros baleados na rua, a máfia no poder, atentados com 50, 70 mortos. Como reagiam meninos de 20 anos politizados? Antes que ele me mate, vou matá-lo;, contou.

Na Itália, entre 1968 e 1971, frequentou o liceu clássico. Acompanhou a militância do irmão mais velho, Giorgio, no Partido Comunista Italiano (PCI), e participou da juventude do PCI e das agitações estudantis de 1968. Abandonou os estudos em 1971. Acabou preso em 1972 por furto, em Frascati ; tentando angariar fundos para manter os contrários ao regime. Em 1974 foi condenado a seis anos de prisão por assalto. Libertado em 1976, em 1977, se viu atrás das grades novamente.

Assassinatos
Os quatro assassinatos atribuídos a Battisti foram o de Antonio Santoro, agente penitenciário, em Údine, em junho de 1978; de Pierluigi Torregiani, em Milão, em 16 de fevereiro de 1979; de Lino Sabadin, em Veneza, no mesmo dia; e do policial Andrea Campagna.Tradutor e escritor de 15 livros de ficção policial, por 16 anos, Battisti viveu como homem livre no Brasil. Em seu livro Minha fuga sem fim, ele declarou que abandonou os meios violentos de luta política desde o sequestro e posterior assassinato do ex-primeiro-ministro Aldo Moro, em maio de 1978. ;Naquele momento, decidi virar a página e renunciar definitivamente à luta armada;, disse.

Quando viveu em Paris com esposa e filhos, na década de 1990, trabalhando como escritor e tradutor, Battisti estava amparado pela Doutrina Mitterand (presidente socialista François Mitterrand) que determinava que acusados que abdicassem da violência não seriam extraditados. Com a mudança de orientação política no governo de Jacques Chirac, ele foi julgado à revelia com base no depoimento Pietro Mutti ; seu companheiro e ex-militante, em delação premiada ;, que fez a ele um total de 36 acusações. De acordo com Battisti, Mutti foi coagido e torturado para dar seu testemunho. Mesmo assim, Battisti recebeu sentença de prisão perpétua, com restrição de luz solar.

Na iminência de ser extraditado, fugiu da França para Espanha, Portugal e, finalmente, Fortaleza, no Brasil. A Justiça italiana e alguns analistas garantem que, mesmo julgado à revelia, Battisti teve amplo direito de defesa. Foi preso no Rio em 18 de março de 2007. Em 18 de novembro de 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou ilegal o status de refugiado.

Em 31 de dezembro de 2010, no último ato de seu governo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou a extradição. Em 13 de dezembro de 2018, o ministro Luiz Fux, do STF, revogou liminar dele mesmo, de outubro de 2017. No dia seguinte, Michel Temer assinou o decreto de extradição. Um mês depois, Battisti foi preso sem resistir em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, por investigadores da Interpol.

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