E por que não o diálogo?

E por que não o diálogo?

LEONARDO MEIRELES leonardomeireles.df@dabr.com.br
postado em 14/01/2019 00:00
É complicado construir uma sociedade justa e democrática quando não se ouve o próximo. Quando não se tenta entender o porquê daquele conceito, daquele discurso, daquele pensamento. E um muro se ergue, em vez de uma ponte unir duas visões, duas práticas. A introdução é necessária para entender essa confusão entre as declarações de ministros do novo governo e as críticas, algumas vezes ofensivas e destrutivas, que vêm como resposta. Certezas de ambos os lados não mostram quem está certo ; na verdade, diversos argumentos são válidos e contam com a razão ;, mas somente nos impedem de caminhar para uma solução comum e construtiva.

O objeto da discussão aqui escolhido será uma afirmação da ministra Damares Alves. Poderia ser outra frase ou outro chefe de pasta, mas a opção vem por uma razão muito simples: fala de escola, de educação, da base da tal sociedade justa e democrática citada no início do artigo. Ao falar de ideologia de gênero, conceito tão polêmico quanto amplo, ela diz que o assunto não deveria ser colocado para as crianças. A discussão só poderia ser feita na academia, nas universidades. Não acredito que ela esteja errada. Mas há formas de falar e formas de entender. É aí o diálogo vira uma gritaria só, sem ninguém se entender.

Pedagogos respeitáveis, como Célestin Freinet, Rudolf Steiner, Maria Montessori e Dermeval Saviani, e qualquer outro especialista no assunto sabem que existem conteúdos próprios e modos de se colocar assuntos para crianças por uma simples questão de desenvolvimento cognitivo. A própria ministra Damares afirma que o respeito ao próximo e à diversidade precisa estar no currículo escolar. E isso não deve ser feito só em sala de aula, mas com a presença física, moral e emotiva dos pais. É uma construção conjunta.

Gosto muito da forma de pensar do papa Francisco e, por isso, cito um ensinamento dele que serve para a reflexão de todos: ;Em nossas escolas são ensinadas letras, física, matemática, química, mas e o diálogo?; (...) Recordo que uma vez (...) fui a um colégio onde uma moça me perguntou: ;Mas por que não posso abortar?; E imediatamente pensei que, se eu respondesse começando por ;Porque...;, ninguém aceitaria a resposta. Eu disse: ;Essa é uma bela questão. Reflitamos todos juntos.; E todos começaram a procurar o ;porquê;. Nas escolas, é preciso ensinar a caminhar procurando as coisas. Aprender procurando. E não ;pergunta-resposta;, ;pergunta-resposta;.;

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