Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Mariana Niederauer >> mariananiederauer.df@dabr.com.br
postado em 14/01/2019 00:00
Vivi pouco

Tenho a certeza de que ainda pouco vivi. Não apenas pelas décadas incompletas registradas em minha certidão de nascimento. Vivi pouco por vários outros motivos. A preguiça de caminhar pelas manhãs. A timidez que paralisa as frases no meio da garganta e deixa os dedos se contorcerem em mãos nervosas. O vício nas ;máquinas infernais;, como diria meu marido, tomadoras de tempo e de cliques.

Sou uma pessoa muito prática, apesar de isso não necessariamente se refletir em decisões assertivas. Às vezes, elas vêm de maneira impulsiva mesmo. A velha procrastinação de quem trabalha melhor sob pressão. Talvez até por isso eu seja um ser humano de hábitos noturnos. Preferia mil vezes passar madrugadas estudando a acordar cedo imersa nos livros.
Até hoje é assim. E como as horas do meu sono são preciosas. Gosto de dormir. Fechar os olhos e sentir o corpo pesar sobre o colchão. De vez em quando cansa. Dá vontade de ter nascido em outro corpo e aproveitar os primeiros raios de sol. Mas vamos voltar ao que nos trouxe até a aqui: a vida.

Há cinco anos, eu me lancei na aventura mais desordenada que consegui e, mesmo assim, minimamente planejada. Juntei sete mudas de roupa dentro de um mochilão e peguei um avião rumo à Europa. Em três meses, fiz um curso intensivo de francês, para aprimorar o domínio do idioma que havia começado a estudar no Brasil, e conheci 11 países e diversas cidades.

Não deu tempo de me esquecer de casa e, conforme descobri no período fora do país, nem era isso que eu queria. Ser estrangeiro carrega sempre uma marca. No rosto, no sotaque, na forma de se vestir. Nem me acho uma brasileira tão típica, se é que isso existe, mas algo em mim entregava a origem. De repente, as pessoas começavam a falar em português sem ter trocado uma palavra comigo.

Essa marca é importante. Trata-se de território, de identidade, de vivência ; essa, que tive pouca. Todos devem ser capazes de carregá-la com orgulho, como fiz durante esses meses de viagem. Sentir-se estrangeiro é também lembrar-se das origens e, nesse sentido, entender melhor a si mesmo e transformar as experiências em conhecimentos significativos.

Sair me deu mais certeza da vontade de voltar, mas também mostrou um pouco sobre quem eu sou. Um daqueles momentos de amadurecimento de que a gente ouve falar. Faltam ainda muitos mochilões pelo caminho. A preguiça, a timidez e as ;máquinas infernais; continuam impedindo alguns deles. Resta muito, no entanto, para viver.



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