Protozoário ameaça moluscos de extinção

Protozoário ameaça moluscos de extinção

postado em 30/01/2019 00:00
 (foto: Boris Horvat/AFP)
(foto: Boris Horvat/AFP)

Alvo de um parasita identificado em 2016 na costa espanhola, cuja expansão é favorecida pela mudança climática, o molusco bivalve Pinna nobilis, um dos maiores do mundo, está morrendo, alertam especialistas. ;A situação é extremamente alarmante;, adverte María del Mar Otero, do Centro de Cooperação para o Mediterrâneo da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Da superfície, não é possível ver o desastre. Porém, nas profundezas, há um campo de moluscos vazios amontoados onde antes costumavam erguer-se na vertical, meio cravados na areia.

Quando morre, o Pinna nobilis escurece, perde a carne e seus pequenos anfitriões naturais, como camarões e pequenos caranguejos. Olivier Jude, um mergulhador monegasco que faz sessões de fotos submarinas para seu site, Phoctopus, no sul da França, não esconde a perplexidade diante da situação. ;Não encontramos mais nenhum vivo, é uma pena;, ressalta.

Sua companheira de mergulho, Lidwine Courard, membro da associação NaturDive em Cannes, reforça a preocupação. ;As primeiras mortes aqui, na costa Azul, datam de outubro (do ano passado). Há quem diga que talvez seja o início da extinção de outras espécies;, observa. O molusco é considerado um indicador da qualidade do litoral mediterrâneo. Em sua concha, o Pinna nobilis registra, durante seu crescimento, todos os parâmetros físicos e químicos do entorno.

O mapa da UICN, atualizado periodicamente desde o início da crise, está repleto de um número crescente de pontos vermelhos que correspondem a taxas de mortalidade maciças, superiores a 85%. A avaliação mostra que a costa espanhola do Mediterrâneo está muito afetada, assim como as ilhas Baleares, o sul do Chipre, uma parte da costa turca, a Sicília e a Grécia. ;Na Espanha, essa espécie está a ponto de desaparecer. E com o aumento da temperatura da água nos próximos meses, veremos o que acontece nas zonas que ainda não estão afetadas, como o Adriático;, acrescenta María del Mar Otero.

Ainda não se sabe bem como chegou o minúsculo protozoário que ataca o Pinna nobilis, nem como é transmitido. Uma das hipóteses é de que tenha alcançado o Mediterrâneo com o lastro dos navios de comércio. Esse parasita, que espalha esporos tóxicos, pertence à família do patógeno que dizimou a ostricultura californiana em 1957.

Para o biólogo marinho Nardo Vicente, do Instituto de Oceanografia Paul Ricard, o mais provável é que a mudança climática esteja por trás da disseminação do protozoário. ;Há um monte de germes, de vírus, de parasitas em estado de latência no entorno em que atuam (devido ao aumento das temperaturas;, diz. Mas Nardo Vicente tem esperança de encontrar uma solução para salvar a espécie. ;Serão mantidas ilhotas de Pinna nobilis, que permitirão voltar a semear o resto do Mediterrâneo;, opina.

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