Sem expectativa "inflada", cúpula discute pedofilia

Sem expectativa "inflada", cúpula discute pedofilia

Papa e presidentes das conferências episcopais debaterão, de quinta a domingo, como proteger crianças e adolescentes de abuso sexual dentro da instituição. O pontífice e representantes das vítimas, porém, são cautelosos quanto aos resultados da iniciativa inédita

JORGE VASCONCELLOS ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 18/02/2019 00:00
 (foto: Andreas Solaro/AFP - 30/1/19
)
(foto: Andreas Solaro/AFP - 30/1/19 )

Em uma iniciativa sem precedentes, o papa Francisco vai reunir no Vaticano, de quinta-feira a domingo, os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo para discutir a proteção de crianças e adolescentes contra o abuso sexual na Igreja Católica. O encontro foi convocado pelo pontífice em setembro, em meio a uma avalanche de escândalos envolvendo padres pedófilos. Um dos momentos mais marcantes do evento promete ser o testemunho presencial de vítimas ; entre elas o americano Phil Saviano, que teve o sofrimento retratado em Spotlight, Oscar de melhor filme e de roteiro original. Em entrevista ao Correio, o ;sobrevivente; e ativista disse estar ;proibido; de antecipar detalhes do depoimento que apresentará aos religiosos, mas falou com desconfiança sobre os possíveis resultados das discussões.

;Quanto mais eu leio sobre essa reunião de cúpula, incluindo entrevistas com o papa, quando ele é perguntado sobre o que espera realizar, menos otimista eu sou sobre o resultado;, disse Saviano. ;Parece que esses quatro dias serão dedicados mais à discussão e ao reconhecimento dos problemas existentes em todos os países e em todas as dioceses do mundo; é uma reunião para formular um plano e tomar medidas concretas;, acrescentou.

O encontro no Vaticano, com a presença de mais de 100 presidentes de conferências episcopais, vai ocorrer ainda sob o impacto da decisão inédita do papa de expulsar do sacerdócio o ex-cardeal americano Theodore McCarrick, 88 anos, anunciada no sábado. O ex-arcebispo de Washington (2001 a 2006) foi considerado culpado pela Santa Sé de ;cometer pecados contra o sexto mandamento com menores e com adultos, com o fator agravante do abuso de poder;.

A sucessão de revelações de abusos cometidos e acobertados por membros do clero é um desafio enfrentado há décadas pela igreja, com casos registrados principalmente na Austrália, no Chile e nos Estados Unidos. Na sexta-feira, foi divulgado que o núncio apostólico (embaixador do papa) na França, Luigi Ventura, 74 anos, é alvo de uma investigação da Procuradoria de Paris por ;agressão sexual;, depois que um funcionário da prefeitura da capital francesa denunciou que o prelado o ;apalpou várias vezes; durante uma cerimônia oficial.

A mais recente revelação de um escândalo de pedofilia envolvendo membros do clero ocorreu em 31 de janeiro: os bispos das 15 dioceses do Texas informaram a identidade de 300 padres acusados de abuso nas últimas seis décadas, em cumprimento à promessa de conferir mais transparência sobre esse tipo de crime.

Reputação

A grande cúpula desta semana é uma oportunidade para a Igreja recuperar a reputação e demonstrar proatividade contra o flagelo do abuso. Ela foi convocada pelo papa em 12 de setembro de 2018, como resposta à divulgação de um relatório devastador do Grande Júri da Pensilvânia, nos EUA, com a revelação de que pelo menos 1.000 crianças foram violentadas sexualmente por 300 padres desde 1940. O documento também revelou diversos casos em que bispos foram omissos ou acobertaram os predadores sexuais.

Falando a jornalistas no fim de janeiro, Francisco disse que um dos principais objetivos da reunião no Vaticano, definida por ele como ;um encontro de pastores;, é fazer com que os bispos se tornem mais conscientes do sofrimento das vítimas e dos ;protocolos; para lidar com as denúncias em seus países. Ainda não está claro se haverá espaço para a discussão de reformas que incluam mudanças na lei canônica ou novos mecanismos para responsabilizar judicialmente os bispos que acobertam os abusos. Apesar de a reunião ser amplamente vista como um dos momentos mais importantes de seu pontificado, Francisco é cauteloso: ;Permiti-me dizer que percebi uma expectativa inflada. Precisamos esvaziar as expectativas;.

O ativista irlandês Paul J. Redmond, que organizou um encontro entre o papa argentino e um grupo de vítimas de abusos cometidos por sacerdotes, durante visita do pontífice à Irlanda, em agosto, também não alimenta esperanças de que o evento desta semana terá o poder de extirpar ou pelo menos inibir uma cultura de violações enraizada há décadas na igreja.

;Acredito que a maioria das pessoas, como eu, espera pouco ou nada das reuniões no Vaticano. Ninguém acredita nas promessas vazias, palavras e diretrizes da Igreja;, afirmou à reportagem. ;Temos sido decepcionados tantas vezes; somente a ação decisiva e corajosa protegerá as crianças e restaurará a confiança e a fé na Igreja;, acrescentou Redmond.

"Permiti-me dizer que percebi uma expectativa inflada. Precisamos esvaziar as expectativas;
Papa Francisco

"A maioria das pessoas, como eu, espera pouco ou nada das reuniões no Vaticano. Ninguém acredita nas promessas vazias, palavras e diretrizes da Igreja;
Paul J. Redmond, ativista irlandês

Eu acho...


;O verdadeiro problema é a falta de vontade na Igreja, que, simplesmente, não enfrenta suas responsabilidades e tem medo de pagar enormes somas de dinheiro aos sobreviventes, pois é detida por sua ganância. Na Irlanda, membros do clero, freiras e irmãos estavam se livrando de assassinatos, estupros e todos os crimes imagináveis no passado, até por volta de 1990. Mesmo depois daquele ano, os religiosos receberam penas notavelmente leves para os crimes mais vis. Foi somente nos últimos anos que eles começaram a receber sentenças sérias, embora ainda não fossem longas o suficiente.;

Paul J. Redmond, irlandês, ativista pela reparação judicial às vítimas de abusos


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação