Laranja, a cor da esperança

Laranja, a cor da esperança

O mês de fevereiro é marcado pelo combate à leucemia. Histórias de superação inspiram quem está na batalha para alcançar a cura

Aline Brito*
postado em 18/02/2019 00:00
 (foto: Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 15/2/19
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(foto: Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 15/2/19 )

O sofrimento da descoberta, a dor do tratamento e o renascimento da cura. Esses são momentos que marcam a vida dos portadores de leucemia. A doença não escolhe idade nem avisa quando vai aparecer, mas, com diagnóstico precoce e acompanhamento, há grandes chances de se tornar somente uma visita incômoda e, ao fim da jornada, uma lição de aprendizagem.

Andrea Pandolfi Barcelos, 39 anos, é uma dessas sobreviventes. Aos 11 anos, precisou encontrar forças para lutar pela vida. No início da adolescência, teve de abrir mão da escola e da convivência com os amigos para se adaptar à rotina de tratamento contra o câncer. Os sintomas começaram com febre, palidez e cansaço, queixas que podem ser facilmente confundidas com uma virose. Ao procurar atendimento para saber a causa do mal-estar, soube que era leucemia. ;Foi bem rápido para descobrir. Quando fiquei sabendo, foi um choque para mim e para a minha família;, conta Andrea.

Depois de dois anos de quimioterapia, ela curou-se. Retomou os estudos, concluiu o ensino fundamental e o ensino médio. Após se ver livre da doença, Andrea passou a se dedicar a projetos de ajuda a outros pacientes. ;Toda a minha família envolveu-se com a leucemia. Minha mãe, meu pai, minha irmã, todos começaram a participar de trabalhos voluntários. A oncologia virou parte da minha vida;, diz.

A batalha serviu de inspiração para a jovem, que ingressou na faculdade de medicina e se especializou em oncologia pediátrica. Hoje, 28 anos depois, Andrea trata de crianças que vivem o mesmo que ela sofreu no passado. ;Como fiz especialização no Hospital de Base, tive a oportunidade de ser aluna de alguns médicos que me trataram quando estive doente;, revela a oncologista.

A trajetória tornou-se sinônimo de inspiração para os pacientes diagnosticados com leucemia. ;Todos no hospital sabem da minha história. Algumas crianças que trato dizem que também querem ser médicos. As mães me veem como uma esperança;, relata Andrea. ;O que me motiva é ouvir uma criança dizer que quer ser igual a mim quando crescer;, comenta.

Pequena guerreira

Aos 3 anos, Ana Letícia Santos, iniciou a batalha contra a leucemia. Para a mãe, Tuany da Silva Santos, 28, o diagnóstico veio com o medo, a preocupação e a força para lutar pela vida da filha. Mesmo sem saber ao certo o que estava ocorrendo, a menina nunca reclamou e se manteve alegre durante todo o tratamento. ;Ela ficou um mês internada, fez quimioterapia, perdeu os cabelos, mas nunca se abateu. Ela sempre dizia que só precisava tomar o remedinho, que ia ficar boa e logo iria para casa. Realmente, foi isso o que aconteceu;, relata Tuany.

Em janeiro de 2018, a criança apresentou, pela primeira vez, sinais da doença. Febre, manchas vermelhas no corpo e vômito, foram alguns dos sintomas. Depois de realizar um hemograma ; exame que avalia as células sanguíneas ;, Ana Letícia foi encaminhada para o Hospital da Criança e iniciou o acompanhamento para combater o câncer. A criança precisou parar de frequentar a escola, e Tuany deixou o trabalho para cuidar da filha.

Nos dias em que esteve no Hospital da Criança para receber as doses de quimioterapia, Ana Letícia fazia questão de ir fantasiada. ;Ela tem várias fantasias, sempre ia vestida com alguma. Era a forma de ela expor sua felicidade e beleza;, diz a mãe. Entre Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Mamãe Noel, princesa, a fantasia predileta da pequena é de bailarina. ;Eu amo as fantasias. A de bailarina é a mais bonita;, conta Ana Letícia.

Para Tuany, um dos momentos mais delicados da luta contra o câncer foi ver a filha perder o cabelo. ;Eu não conseguia aceitar, porque, para mim, era o estágio mais marcante do câncer. Ficar careca era a ilustração da doença;, explica. Nessas horas, Ana Letícia demonstrava força e consolava a mãe. ;Quando ela me via chorando, dizia que não era para eu ficar triste, que logo ela estaria curada. Inclusive, ela tomou a iniciativa e pediu para raspar o cabelo;, afirma Tuany.

Com o diagnóstico precoce, a doença foi descoberta no início, facilitando o tratamento. ;Depois de alguns meses, em outubro de 2018, ela não tinha mais sinais de célula de leucemia no sangue;, ressalta a mãe. No caso de Ana Letícia, não precisou realizar o transplante de medula óssea. ;A quimioterapia foi suficiente para a cura. Ela respondeu bem à quimioterapia e conseguiu vencer;, comemora a mãe.

Aos 4 anos, Ana Letícia está em casa e voltou a frequentar a escola. Um pouco mais de um ano depois da descoberta do câncer, quase não se nota traços da doença. A alegria da criança está mais viva do que nunca. ;O cabelo dela cresceu, ela não sente dor, não sente nada. Tem uma rotina normal. Claro que existem alguns cuidados especiais, mas nada que interfira na vida dela;, afirma Tuany.

*Estagiária sob supervisão de Guilherme Goulart

Mutações
É um tipo de câncer que afeta os glóbulos brancos do sangue, conhecidos como leucócitos. A doença começa quando algumas dessas células sofrem mutações e se multiplicam de forma descontrolada na medula óssea, substituindo as células sanguíneas normais. A medula óssea, também conhecida como tutano, é o local no interior do osso onde são formadas as células sanguíneas (glóbulos brancos, glóbulos vermelhos e plaquetas).

Como doar

Confira os passos para fazer uma doação de medula:

1 - Procure o hemocentro mais próximo e agende uma consulta de esclarecimento sobre doação de medula óssea

2 - Assine um termo de consentimento e preencha uma ficha com informações pessoais. Será retirada uma pequena quantidade de sangue (10ml) do candidato a doador. É necessário apresentar o documento de identidade

3 - O sangue será analisado por exame de histocompatibilidade (HLA), um teste de laboratório para identificar as características genéticas que serão cruzadas com os dados de pacientes que necessitam de transplantes

4 - Os dados pessoais e o tipo de HLA serão incluídos no Redome

5 - Quando houver um paciente com possível compatibilidade, o doador será consultado para decidir quanto à doação. A orientação é manter os dados atualizados

6 - Para seguir com o processo de doação, serão necessários outro

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