Qual a reforma mais importante?

Qual a reforma mais importante?

» JAIME PINSKY Historiador, professor titular da Unicamp
postado em 03/03/2019 00:00

De vez em quando, a pergunta que não quer calar volta a afligir os brasileiros: afinal, o Brasil tem jeito? Será que o país poderá se tornar aquela nação com que sonhamos, ou estamos fadados, nós e nossos descendentes até a enésima geração, a viver em um Brasil pobre, povoado por analfabetos funcionais, governados por gente incompetente ou corrupta? Um país onde a maioria da população não tem residência decente, apenas sobrevive temporariamente em encostas sujeitas a desmoronamentos, margens de esgotos contaminados e vales aguardando o próximo rompimento de barragens?

Em que, para superar a defasagem educacional dos estudantes das escolas públicas, o ministro de Educação acha que o importante é cantar o Hino Nacional e filmar as crianças entoando slogans de campanha política. Em que políticos de diferentes cores e ideologias mostram um descompromisso olímpico com os eleitores, enquanto resolvem os problemas econômicos de toda sua família graças a mordomias, caixa 2 e outros recursos ainda em voga? Em que a justiça tarda e falha. Em que nem sequer os campeonatos de futebol, que já foram atraentes, conseguem atrair o interesse das novas gerações, que só portam camisas de clubes europeus?

Claro que há conquistas e façanhas: por aqui, os jovens universitários já estão concluindo um curso de quatro anos sem ter lido um único livro inteiro. Médicos conseguem receitar remédios e solicitar exames sem examinar o paciente. Mais de 500 mulheres são espancadas por hora em Pindorama. Vamos votar uma aposentadoria a partir de 65 anos tanto para os que começaram no batente aos 14 anos (ou antes) quanto para o filhinho de papai que só entra no mercado de trabalho aos 30. Criamos um novo esporte nacional, o de agredir professores, até em plena sala de aula. E, se não bastasse, somos os campeões mundiais em ameaçar jornalistas e intelectuais que escrevem algo que supomos serem contrários às nossas convicções.

Está realmente difícil. Temos planos de reformas em todas as áreas, algumas até importantes, mas deixamos de lado o essencial. Sabemos que, para melhorar o nível educacional e técnico de nossa população, aumentar a produtividade, injetar esperança no horizonte dos marginalizados, diminuir a violência, superar a defasagem de minorias como negros, mulheres e índios temos que propiciar igualdade de oportunidades. E isso, já o provaram muitos países, só se consegue oferecendo educação pública universal de qualidade. Insisto: a igualdade de oportunidades diminuirá a distância existente hoje entre ricos e pobres, entre brancos e negros. Tudo bem que se amenize isso com bolsas-família, tudo bem que se quebre o galho supervalorizando as notas de vestibular dos que fizeram escola pública. Mas são soluções passageiras, provisórias, que não têm como resolver o problema da desigualdade social. E qual a solução que vem do Ministério de Educação? Vamos cantar o Hino Nacional e filmar as crianças... Pelo amor...

Sei que o ministro fez um mea-culpa em bom portunhol, mas ele e seus críticos estão se preocupando com uma questão menor. O problema é que, pelo visto, não há um projeto político no sentido de instituir um ensino de primeira qualidade nas escolas públicas. Isso se consegue formando bons professores, mantendo-os atualizados pedagogicamente, dando aos mestres boas condições de trabalho e exigindo deles a contrapartida.

Está na hora de se estabelecer uma simbiose entre a universidade brasileira e o ensino fundamental. Não se admite mais que a sala de aula, o chão de fábrica do ensino, não seja atualizada, moderna, dotada do que há de mais inovador e estabelecido pelos teóricos do ensino. Se isso ocorre no agronegócio, se ocorre na área industrial, na administração moderna, pode e deve ocorrer também no ensino. O governo não pode voltar as costas para a universidade, e esta tem o dever de dialogar com os professores do ensino fundamental e médio. Temos, no país, educadores brilhantes e comprometidos com coisas sérias (ocorrem-me nomes como o de Magda Soares, da UFMG e tantos outros), que poderiam colaborar em uma revolução no ensino, algo que poderia marcar este governo com letras de ouro na história do Brasil. Vamos ser sérios. O Brasil ainda tem jeito. Mas a história não para, e estamos ficando para trás. O ensino público universal de qualidade é a chave da nossa redenção.

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