O fascinante Mercury

O fascinante Mercury

Especialistas explicam por que o vocalista do Queen tem uma das vozes mais belas de todos os tempos. Até estudo científico já foi feito para desvendar a mágica por trás do compositor de Bohemian Rhapsody

Paloma Oliveto
postado em 03/03/2019 00:00




Logo no começo da cinebiografia Bohemian Rhapsody, um jovem Freddie Mercury explica ao baterista Roger Taylor e ao guitarrista Brian May o motivo de ter o lábio superior projetado para frente: ;Nasci com quatro dentes a mais. Isso aumenta o alcance da minha voz;. Apesar de a cena ser fictícia, o cantor, de fato, creditava aos incisivos extras ao menos parte do sucesso de uma das vozes mais admiradas da história da música e que, geração após geração, provoca arrepios toda vez que uma canção do Queen é tocada.

A largura da boca ; maior para abrigar os dentes a mais ; de fato pode ter ajudado a potencializar a voz de Mercury, explicam especialistas. Mas a beleza, a força e a intimidade que tinha com as notas musicais, das mais graves às mais agudas, devem-se a um conjunto de fatores que já foi estudado pela ciência. Pesquisador da voz na Universidade de Viena, Christian T. Herbst também é fã confesso do Queen e resolveu, há três anos, examinar registros sonoros falados e cantados do artista para tentar desvendar ao menos parte do brilhantismo de Mercury.

;A voz de Freddie Mercury já foi descrita como ;a força da natureza com a velocidade de um furacão;, que ;em, poucos compassos, passava de um rugido profundo e gutural a um vibrante tenor para, em seguida, se tornar um agudo prefeito, puro e cristalino;, escreveu Herbst no artigo, publicado na revista científica Logopedics Phoniatrics Vocology. ;Essas descrições, enquanto presumivelmente adequadas para uma biografia ou uma matéria de jornal, não satisfazem os interesses acadêmicos nas características da voz do cantor;, afirmou, justificando a pesquisa.

O cientista valeu-se de entrevistas gravadas, faixas de músicas em que se retiraram os backing vocals dos outros integrantes da banda e ainda fez um experimento laringoscópico com um cantor imitando Mercury para tentar compreender como ele usava as cordas vocais. A primeira surpresa foi que, embora cantasse em uma extensão vocal típica de um tenor, ao falar, o artista mantinha-se em uma frequência de 117,3Hz, mais típica de barítono.

Elasticidade
O estudo de Herbst mostrou que, ao contrário do que se pensava, a voz de Mercury não alcançava quatro oitavas (imagine 48 teclas, pretas e brancas, de um teclado), mas 37 semitons, em uma frequência variando de 92,2Hz (mais grave) a 784Hz (mais aguda). Curiosamente, quem tem essa extensão vocal mais ampla é outro componente do Queen, o baterista Roger Taylor, que canta o ;Galieo, Figaro; de Bohemian Rhapsody. Porém, ainda que não chegasse às quatro oitavas, a voz de Mercury era extremamente maleável, indo, sem sufoco, do F#2 ao G5 (veja infografia).

Na opinião do cantor erudito e maestro Alexandre Innecco, Mercury inteligentemente se valeu da ampla zona de frequência em que se sentia à vontade nas músicas que ele e os colegas de banda compunham. ;Ele soube explorar isso muito bem no repertório do Queen. As músicas evidentemente eram compostas para a voz de Mercury. Ao cantar, ele sobe, desce, faz falsete (registro mais agudo ou mais grave que a extensão vocal individual) com muita facilidade. Mercury tinha uma voz extremamente elástica;, diz.

Vibrato
O cientista da voz Christian T. Herbst também estudou uma forte característica de Mercury: o vibrato, um ornamento da música que consiste em fazer uma ondulação harmoniosa e uniforme da frequência do som. O pesquisador austríaco analisou 240 notas sustenidas com vibrato de 21 gravações a cappella (sem instrumento). ;Um vibrato completamente regular naturalmente contém apenas uma modulação de frequência. Em contraste, o estudo preliminar do vibrato vocal de Freddie Mercury sugere padrões de modulação mais irregulares, causados pela superposição de mais de um componente de modulação de frequência;, disse. Irregularidade, nesse caso, não é um defeito. Ao contrário, Herbst nota que esse efeito faz da voz de Mercury algo absolutamente único.

Sem ter como analisar o uso das pregas vocais pelo artista, Herbst fez um experimento em que um cantor de rock profissional, imitando a forma de cantar de Freddie Mercury, teve a laringe filmada. O teste sugere que o vocalista do Queen utilizava, simultaneamente, as pregas vocais e as vestibulares, popularmente conhecidas como ;falsas cordas vocais;. ;Essas duas outras pregas acabam funcionando como outro gerador de onda sonora. E, quanto mais harmonia tem uma voz, mais bela ela é;, explica a fonoaudióloga especialista em voz Claudia Pacheco, consultora do Centro de Estudos da Voz, em São Paulo, e membro da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia.

Embora o estudo de Herbst não tenha investigado a influência dos dentes a mais de Freddie Mercury na voz do cantor, Claudia Pacheco diz que isso é possível. Ela explica que a prega vocal gera o primeiro sinal sonoro que, em forma de ondas, é transmitido para o trato vocal, composto também pelos espaços de ressonância ; a boca e as cavidades nasais. ;Esses espaços tanto amplificam como abaixam o som. A voz é como um instrumento, assim como o violão, em que a corda vibra e a caixa reverbera;, compara.

Para a especialista, o fascínio exercido por Mercury é o conjunto do timbre, da extensão vocal, da estrutura da caixa de ressonância, do domínio do aparelho fonador e do controle respiratório, além da maneira de interpretar as canções. ;Não é só a voz que faz um cantor, mas a personalidade artística. É isso que faz dele excepcional.;

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