Mente e mãos que transformam

Mente e mãos que transformam

Engajado em trabalhos sociais, estilista mineiro ajuda jovens a terem, por meio da arte, um novo olhar sobre o que está ao redor. "Hoje, a palavra da moda é ressignificar"

Por Renata Rusky
postado em 03/03/2019 00:00
 (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

Quem acompanha o mundo fashion, certamente, já ouviu falar em Ronaldo Fraga. O mineiro é um dos pioneiros quando o assunto é moda com DNA brasileiro. Mas muito mais que estilista, ele é um ativista social. Desde o início da carreira, sempre fez questão de participar de projetos que agregam valor não só às vidas de jovens, mas a materiais que seriam descartados.

Recentemente, Fraga esteve na capital para acompanhar as oficinas de grafite e de papel machê oferecidas a jovens da Estrutural e de Samambaia pelo projeto Casa de Criatividade e Inovação, criado em novembro do ano passado pelo Instituto de Educação, Esporte, Cultura e Artes Populares (Iecap) com o apoio do Governo do DF. Para ele, uma experiência transformadora. ;Quem fez a oficina de papel machê nunca mais vai olhar para um papel do mesmo jeito.;

Em entrevista à Revista, Fraga também falou do papel da ressignificação de peças na moda e sobre o hábito de trazer temas polêmicos aos seus desfiles. Para ele, as passarelas devem mostrar contextos sociais, políticos e econômicos, além de criar desejo. ;Aquele desfile que vai só mostrar o casaquinho de onça, a minissaia, o cabelo loiro cacheado e a música eletrônica de fundo não se faz necessário.;

Você se envolve com projetos sociais desde o início do seu trabalho. Por que enveredou por esse lado?
Eu era um adolescente que, no fim da ditadura militar, só lia literatura política. E eu lembro que uma vez, com 13 ou 14 anos, peguei um livro do Zuenir Ventura que tinha um capítulo todo dedicado a Zuzu Angel. E eu fiquei chocado com a história: uma estilista, costureira ; como ela gostava de ser chamada ; que conseguiu denunciar para o mundo o que acontecia nos porões da ditadura militar, o que, inclusive, custou a vida dela. Então, eu entrei por uma porta da moda em que já tinha a certeza de que seguiria a linha de ter uma postura política. A moda me escolheu, mas, em qualquer outra profissão, eu buscaria uma transformação.

Qual foi o seu papel no projeto Casa de Criatividade e Inovação?
O estímulo e a provocação trazem à tona a importância da construção de uma identidade própria. E ela está eternamente em construção. Eu gosto muito de uma definição de identidade que diz que ela é a cidade que cada um constrói dentro de si. E, nessa cidade, você vai colocar a quantidade de praças que você quiser, vai preservar os prédios que quiser, vai abrir ruas e manter rios limpos ou não. Essa cidade está sempre mudando, influenciada por fatores internos e externos. Então, pedi que eles prestassem atenção nisso, no que de bom ou ruim eles viveram que podem expurgar na criação.

As pessoas falam muito em ser ou não ser criativo. Você acha que a criatividade é algo que se aprende ou algo com que se nasce?
Eu acho que todo mundo é criativo. Criatividade e inspiração são coisas que todo mundo tem, mas demanda o exercício do olhar. Um projeto como Casa de Criatividade e Inovação estimula vários sentidos. A pessoa olha o que para a maioria passa despercebido e enxerga arte ali.

Como você teve a ideia de dar oficina de papel machê e de grafite no projeto?
Tanto na oficina de grafite quanto na de papel machê ; que ainda trabalha com aquilo que ia pro lixo ;, quando os meninos veem que podem dar forma a isso e levar para outro lugar, você dá autoestima a eles. E eles acabam se colocando ali e se dando valor nesse processo de criatividade.

O que você acha que acaba minando a criatividade, tanto no caso de jovens menos privilegiados quanto dos mais privilegiados?
Primeiro, hoje a gente não faz quase nada com as mãos. Só tecla. Tudo vem pronto, a gente só consome o que está pronto e faz muito pouco. O fazer a comida, o bordar, o esculpir, o costurar, o desenhar, o estampar... Tudo isso estimula os vários sentidos. Quando a gente pega uma coisa e transforma em algo que vem do olhar, das mãos e do pensar, isso gera o que é mais importante: a autoestima. Ela é transformadora.

O que você pensa do clichê ;nada se cria, tudo se copia;?
Na verdade, eu acho que o mundo sempre foi assim. O mundo sempre esteve nesse lugar de sentir que tudo que poderia ser inventado já foi. E eu acho que a pretensão não precisa ser a invenção, mas contar de um jeito novo a velha história. Velhas histórias estão sendo contadas aí por séculos, mas cada geração vai contar de um jeito diferente. Hoje, a palavra da moda é ressignificar, que é dar um novo significado àquilo que já existe. E isso é muito importante. Eu falo, pela área da moda, que se parássemos de fazer moda agora, teríamos roupa para 300 anos. Temos mesas e cadeiras para 500 anos. Então, pouca coisa precisava ser efetivamente feita. Mas tem algo de novo que você traz nas entrelinhas, mesmo que no terreno do intangível. Uma fala, uma colocação, uma marca de quem fez.

E você leva tudo isso para a passarela;
Tudo que eu coloco na passarela está na loja para vender, mas o momento do desfile serve para várias coisas. Inclusive, não é nem para vender roupa, porque como você vai fazer isso em oito minutos? Você cria uma imagem, provoca um desejo, cria um contexto. É assim que um estilista vai lhe convencer de que aquele vestido preto ou aquela camisa branca é totalmente nova nesta estação e você vai precisar ter.

Com os altos preços de se apresentar em uma semana de moda como a São Paulo Fashion Week, com o fim da semana de moda do Rio de Janeiro e com a facilidade das redes sociais, muitas marcas estão optando por outras formas de se comunicar com os clientes em vez de por meio dos desfiles. Como você vê isso?
Eu acho que o desfile de moda nunca vai acabar. O brasileiro tem gosto pela moda. Continua prendendo a atenção de ambos os sexos de qualquer classe social. A experiência do desfile nunca vai acabar. Por isso, é importante que o desfile promova uma experiência, porque aquele desfile que vai só mostrar o casaquinho de onça, a minissaia, o cabelo loiro cacheado e a música eletrônica de fundo não se faz necessário. Ele provoca pouquíssima experiência. Daí a importância que um desfile, cada vez mais, fale de outras coisas para além da roupa. Mas o desfile, como vetor, nunca vai deixar de existir.

O que a entrada das lojas fast fashion, que trocam coleção numa velocidade tão grande, representaram para a moda brasileira?
A indústria da moda brasileira passou por um baque, porque perdemos a concorrência para os asiáticos. Hoje, nove de 10 tecidos que você veste v

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