Mosaico carnavalesco

Mosaico carnavalesco

Samba, frevo, axé, marchinha ou rock? Foliões de vários estados - e tribos - curtem a folia em Brasília

Por Renata Rusky Por Juliana Andrade Especial para o Correio
postado em 03/03/2019 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Brasília surgiu de uma mistura de gente vinda de todo lugar e virou um grande mosaico cultural. Não é de impressionar que o carnaval da cidade traduza essa diversidade, com festas que trazem costumes, fantasias e músicas de vários lugares. Axé, frevo, samba e marchinhas são apenas alguns dos ritmos que ganham as ruas da capital nos dias de folia.

Se cada estado tem o seu próprio estilo de folia, é possível dizer que o da capital é um misto de todos eles. O Suvaco da Asa e o Galinho de Brasília trazem o frevo de Pernambuco, enquanto os Raparigueiros e o Baratona arrastam a multidão ao som do axé da Bahia. Enquanto isso, as escolas de samba mantêm o ritmo em diversas apresentações pela cidade. Sem falar no rock brasiliense que, em pleno reinado de Momo, também tem o seu espaço.


Eu disse frevooooo!

A advogada Ana Helena Pessoa, 40 anos, já esteve na capa do mais tradicional jornal de Pernambuco. Foi um reconhecimento da assiduidade dela no carnaval do estado. Foliã de carteirinha, a pernambucana mora em Brasília há sete anos e viaja todos os anos para a terra natal para curtir a festa de Momo. Mas, como a folia não se restringe só aos quatro dias do feriado, não faltou bloco brasiliense para ela aproveitar as semanas que a antecederam. ;De quando cheguei aqui para hoje, melhorou muito;, admite. Este ano, ela passará o carnaval na capital pela primeira vez.

A advogada já explorou blocos no Rio de Janeiro e em Salvador, mas, orgulhosa de Pernambuco, prefere lá. ;São muito bons, claro. Mas, na Bahia, é um carnaval pago; então, parece uma festa como qualquer outra. Para o pernambucano, é uma celebração da nossa cultura. Não tem música comercial, por exemplo. É só frevo, só marchinha. No Rio, a proporção é menor do que em Olinda e tem músicas mais variadas;, explica.

Como em Brasília tem bloco para todos os gostos, Ana Helena acabou se encontrando em alguns. Quando foi pela primeira vez ao Suvaco da Asa ; criado em 2006 por jornalistas pernambucanos e que sai sempre duas semanas antes do feriado ; se apaixonou. ;Eu me senti em Olinda, porque tinha a orquestra de frevo;, relembra. Neste ano, pela décima vez, contou com a presença da Orquestra Popular Marafreboi, que tocou tudo que Ana Helena considera importante em um carnaval: frevo, maracatu, coco, samba, ciranda. Ela, no entanto, lamenta a mudança de local. Em 2016, a concetração passou a ser na Funarte, em vez de no Cruzeiro.

Para a advogada, Brasília está criando uma identidade carnavalesca que mistura várias culturas. E está dando certo. Outros blocos que ela admira são o Calango Careta, que toca bastante batuque; o Maria vai casoutras, banda de percussão formada só por mulheres e que tem seu próprio bloco desde 2014; e o Bloco do Peleja, que anima Brasília desde 2013.

Inspiração

Embora os blocos daqui não foquem nas mesmas músicas que os de Pernambuco, Ana Helena percebe inspiração da sua terra em dois hábitos: ;Eles têm um cunho político, que eu acho importante e que o carnaval de muitas cidades ignora, e criam uma relação com a cidade durante o ano inteiro, com outras festas e ensaios.;

Ficar em Brasília este ano não será fácil para ela. Especialmente por ter perdido o Galo da Madrugada, que arrastou uma multidão ontem pelas ruas do centro do Recife. ;É a coisa mais linda do mundo. Ninguém pode partir dessa pra melhor sem ir;, brinca. Mas ela estará na capital federal de coração aberto e acredita que vai se divertir, apesar da saudade da terrinha. ;Brasília tem coisa para todos os gostos, recebe gente de todo tipo, e eu vou procurar o que tem a ver comigo.;

Em relação às fantasias, ela compara: ;O pessoal aqui é mais tímido, aí eu acabo me contendo também;. Ana Helena relembra quando ela e mais 14 amigas saíram de Mulher Maravilha e fizeram performances nas ruas de Olinda, enquanto 15 amigos estavam de Super-homem. Por aqui, usará bastante glitter, flor no cabelo e sorriso no rosto.

Uma pitada de baianidade

Não há como falar de carnaval sem citar os famosos blocos de Salvador. Durante todo o feriado, multidões cantam e dançam atrás dos trios-elétricos, que recebem os mais diversos cantores brasileiros. Casa para muitos baianos, Brasília não poderia deixar de trazer para a festa um pouco da cultura do agitado estado nordestino.

O axé do Bloco dos Raparigueiros, por exemplo, foi o primeiro contato da baiana, de Vitória da Conquista, Maria Flores Prates, 23 anos, com o carnaval de Brasília. A festa foi antes mesmo de ela vir morar na capital. A publicitária se mudou para cá em 2013 para estudar na UnB. Na mala, além das expectativas para o futuro, trouxe a paixão pela folia. ;Desde os 3 anos, eu frequento o carnaval de Salvador. Eu curto muito, sou completamente apaixonada.;

Como boa baiana, Maria confessa que é difícil algum carnaval no país chegar perto do de Salvador, onde ela sempre marcava presença na pipoca ; fora dos cordões de isolamento. Porém, é possível matar um pouco da saudade da terrinha com a alegria da festa brasiliense. ;Este ano, eu senti uma pegada mais baiana. A gente teve um pré-carnaval com Baianasystem, que hoje é uma das maiores bandas da contemporaneidade da música de lá. É uma nova geração do axé e eu achei fantástico trazerem para cá, para novos públicos;, ressalta.

Para a publicitária, o que mais aproxima o carnaval brasiliense do baiano é a alegria contagiante. Ela afirma que o calor humano é uma das coisa de que ela sente mais falta da terra natal. ;Eu acho que as pessoas em Brasília ainda têm dificuldade de interagir. Para quem vem da Bahia, é um baque muito grande.; Mas, para ela, durante a folia, a cidade ganha um clima diferente.

Maria não espera o feriado para curtir a festa. A baiana já começa a folia nos blocos de pré-carnaval. Para ela, os melhores são os que levantam bandeiras, como feminismo e LGBT. Segundo a publicitária, essas são as festas nas quais ela se sente mais segura.

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