Marco Antonio Villa

Marco Antonio Villa

Essa contradição entre os ministérios terá de ser resolvida rapidamente. Não é possível ter um governo com sinais absolutamente contraditórios

Paulo Guedes e Ernesto Araújo: dualismo no governo
postado em 06/03/2019 00:00

É curiosa a dicotomia existente no governo federal entre os ministérios da Economia e o das Relações Exteriores. Enquanto o primeiro tem como objetivo a integração da economia brasileira ao processo de globalização, o segundo quer afastar o Brasil do que chama de ;globalismo;, submetendo nosso país aos ditames dos Estados Unidos.

O Itamaraty, na atual gestão, virou uma sucursal do Departamento de Estado norte-americano. Age por reflexo, sem, em momento algum, priorizar o interesse nacional. É como se o Brasil fosse uma espécie de Estado associado, um Porto Rico da América do Sul. Melhor ainda: não foi necessária nenhuma Guerra Hispano-americana, como a de 1898, que incorporou aquele território ; antiga colônia espanhola ; aos Estados Unidos. Aqui, bastou a introdução de uma visão de mundo produzida em Washington. Em vez da guerra, houve a aceitação de um discurso que desqualifica nosso país e ameaça nossa segurança nacional. Ernesto Araújo conseguiu, em apenas dois meses, ser tão ruim aos interesses nacionais quanto o tenebroso Celso Amorim. Ambos partilham do mesmo sentimento: o de estar a serviço de alguma ideologia exótica produzida ao norte do Equador.

Já o ministro Paulo Guedes tenta a todo custo modernizar o Brasil. Sabe que a tarefa é complexa. Enfrentar os cartórios empresariais já custou um mandato de presidente da República. A abertura da economia, eliminando subsídios e privilégios, apostando na competitividade, leva necessariamente à inserção na ordem econômica mundial. E estabelecer boas relações com todos os nossos parceiros é muito importante. Sendo assim, a política externa tem de estar em sintonia com os interesses econômicos do Brasil, somente do Brasil.

A inútil visita programada aos Estados Unidos e Israel aprofunda a contradição entre os dois ministérios. Ir a Washington, especialmente neste momento, é absolutamente incompreensível. Primeiro, devido à necessidade de o presidente estar presente no país no momento da tramitação da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados. A sorte política do quadriênio presidencial está sendo jogada neste semestre. Uma derrota ; ou a aprovação de um projeto desidratado ; significará o fim do governo e até, no limite, a saída de Paulo Guedes do Ministério da Economia. Mas ; para ficarmos no campo das relações exteriores ; é sabido que o contencioso dos Estados Unidos com a China está próximo do fim. Pequim deverá assumir diversos compromissos em relação, principalmente, à importação de grãos. Como é do conhecimento geral, o Brasil é um concorrente dos americanos nesse setor. E a compra de grãos produzidos por eles levará a uma diminuição das importações chinesas dos produtores brasileiros.

A visita a Israel também deverá gerar consequências negativas. Certamente, vai ser tratada a questão da mudança da nossa embaixada para Jerusalém. A repercussão negativa entre os árabes será inevitável e com sérios prejuízos às exportações de carne e aves, além de colocar o Brasil na rota do terrorismo internacional. Outra vez, Araújo e Amorim estarão irmanados. O PT quis transformar o Brasil em um ator na cena política do Oriente Médio. Foi um desastre. No caso, era uma ação anti-israelense e antiamericana. Agora será pró-americana e pró-israelense. Ambas contrariando o interesse nacional brasileiro que sempre se manteve favorável a uma solução pacífica dos conflitos na região, buscando um acordo diplomático entre as partes.

O alinhamento automático ; e servil ; aos interesses diplomáticos de Washington trará, além de problemas políticos, sérios danos no campo econômico. É um crime de lesa-pátria. O chanceler Ernesto Araújo ; seguindo as pegadas petistas ; está transformando o Itamaraty em valhacouto de ideólogos fracassados. Antes, foram os defensores da diplomacia Sul-Sul; agora, são os praticantes do antiglobalismo.

Essa contradição entre os ministérios terá de ser resolvida rapidamente. Não é possível ter um governo com sinais absolutamente contraditórios. O liberalismo apregoado por Guedes é oposto ao protecionismo de Trump, que tem no Brasil como aio o ministro Araújo. Nos mercados internacionais do agronegócio, ambos os países são concorrentes. E cada presidente da República deve defender os interesses dos seus produtores. Trump faz o papel dele ; especialmente em um ano pré-eleitoral. O problema está em nós, no Itamaraty, que assumiu como sua uma ideologia de matriz norte-americana que trará sérios prejuízos à nossa segurança nacional.

Cabe retomar o caminho do Barão do Rio Branco. Entender que os interesses do Brasil estão sempre à frente de qualquer partidarismo. Que o Itamaraty é um órgão de Estado. Não é um instrumento de um governo. Chega de aventureirismo petista. Antes, ao lado dos bufões latino-americanos, os ditadores bolivarianos; agora, ao lado do bufão americano. O carnaval já passou, ministro. Tire a fantasia e comece a pensar no Brasil.

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