Bons ventos podem atrapalhar ajuste

Bons ventos podem atrapalhar ajuste

» ROSANA HESSEL
postado em 06/03/2019 00:00
 (foto: Rosana Hessel/CB/D.A Press - 27/5/17)
(foto: Rosana Hessel/CB/D.A Press - 27/5/17)


A economia andou de lado, ao repetir o crescimento de 1,1% em 2018. Neste ano, porém, pode ter uma ajuda do mercado externo, pelo menos no setor financeiro, já que a espada sobre a cabeça do aumento dos juros nos Estados Unidos foi retirada, por enquanto, reduzindo, assim, o risco de fuga de capitais dos mercados emergentes para a maior potência do mundo. Contudo, esse fator positivo é visto com cautela na Carta de março do Ibre, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O pesquisador Luiz Guilherme Schymura alerta sobre os riscos desses prováveis bons ventos externos que podem desmobilizar a agenda do ajuste fiscal, principalmente, e adiar a reforma da Previdência. Em seu artigo, ele cita um levantamento feito por José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central e chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre, no qual aponta que, de forma geral, as economias emergentes e desenvolvidas estão sofrendo um processo de redução de produtividade. Essa sinalização de queda no ritmo de aumento dos juros norte-americanos estaria relacionada às oscilações circunstanciais da economia dos EUA. No texto, Senna fala de juros e inflação reduzidos no ;mundo novo;, o que Schymura qualifica de ;mudança de fundo;.

Schymura cita Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Ibre, que aponta ;sinais positivos no front geopolítico e comercial; e compartilha com Senna o diagnóstico de ;novo mundo; de juros e inflação mais baixos.

Senna reforça que esse aparente cenário externo mais favorável pode ser um grande risco interno, já que não pode ser considerado um alívio para o governo e para os críticos das reformas estruturais é possível ter um prazo maior para que o ajuste fiscal seja feito. ;O Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA), deu um cavalo de pau na política monetária, o que é positivo para as economias emergentes e, portanto, é uma janela de oportunidade que o Brasil tem para fazer o ajuste fiscal. Só precisamos saber se ela será bem aproveitada;, destaca Senna ao Correio.

Para o doutor em economia pela Johns Hopkins University, por ser uma economia mais fechada, o Brasil pode sofrer menos o impacto de uma desaceleração da economia mundial. Contudo, deve haver prejuízos na produtividade, que acaba sendo muito baixa, pois a indústria nacional não está conectada às grandes cadeias globais de produção. ;Por conta disso, o país sofre mais o impacto das mudanças nas condições financeiras, e, quando a situação melhora lá fora, com o dólar mais comportado e os juros mais baixos, é positivo para o Brasil;, explica Senna. ;Os problemas persistem e a necessidade do ajuste estrutural, também. Essa janela da redução da pressão externa, no entanto, não vai ficar aberta a vida toda porque existem imprevisibilidades;, destaca.

O ex-diretor do BC recorda que o presidente dos EUA, Donald Trump, adotou uma política fiscal mais expansionista, que deu um gás momentâneo para a economia, mas os sinais atuais são de que o crescimento já vem perdendo fôlego desde o terceiro trimestre de 2018. ;Houve uma ilusão de que poderia haver uma arrancada do crescimento, mas esse gás já vem diminuindo e não podemos ignorar que o mundo estará crescendo menos em 2019, de forma geral. No meu ponto de vista, o Brasil tende a ser mais afetado pelo lado das questões financeiras do que pelo crescimento, mas esse mundo novo não é necessariamente mais favorável para o Brasil;, completa Senna.

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