Greve parcial, a nova arma contra Maduro

Greve parcial, a nova arma contra Maduro

Em reunião com dirigentes sindicais, Juan Guaidó, presidente autodeclarado, anuncia "paralisação escalonada" do funcionalismo público e propõe lei para proteger os servidores de perseguição política. Palácio de Miraflores convoca marcha para sábado

Rodrigo Craveiro
postado em 06/03/2019 00:00
 (foto: Fotos: Federico Parra/AFP)
(foto: Fotos: Federico Parra/AFP)



Uma paralisação escalonada do funcionalismo público, capaz de impactar os setores mais próximos do chavismo e ganhar a adesão da população. No dia seguinte ao retorno à Venezuela, Juan Guaidó ; presidente autodeclarado ; fez esta proposta durante reunião com líderes de 600 sindicatos na sede do Colégio de Engenheiros, em Caracas. ;Vamos rumo a uma greve escalonada na administração pública, proposta pelos sindicatos. Sabemos que a perseguição começará, mas temos os meios. Hoje, mais do que nunca, a Venezuela depende de todos. Que não sigamos colaborando com este regime opressor;, declarou, ao fim do encontro. ;Achavam que a pressão máxima tinha chegado. Saibam, claramente, que a pressão está apenas começando.;

No lado do oficialismo, o presidente Nicolás Maduro rompeu o silêncio desde a chegada de Guaidó e convocou uma marcha para sábado, mesmo dia dos protestos anunciados pelo opositor. ;Vamos às ruas em 9 de março, em marchas anti-imperialistas, para comemorar o dia do anti-imperialismo. Às ruas, o povo; ao combate, o povo;, bradou, durante ato em alusão ao sexto aniversário da morte de seu antecessor, Hugo Chávez. ;Convoco à defesa da paz da pátria, da integridade territorial. Não podemos cair em provocações nunca. Que fiquem lá, que continuem com seus jogos de criança, de provocações.; Maduro visitou o Quartel da Montanha e prestou honras militares diante do túmulo de Chávez.

Além de prometer um censo de funcionários demitidos pelo Palácio de Miraflores por motivações políticas, Guaidó disse que vai propor à Assembleia Nacional a criação da Lei de Garantias para Funcionários Públicos. ;Nossos servidores públicos querem poder viver de seu trabalho, e ter um patrão que respeite seus direitos trabalhistas. A perseguição política acabará. Proporemos à Assembleia uma Lei de Garantias para proteger quem se colocar do lado da Constituição;, explicou. Guaidó se referia à estratégia do regime de Maduro de obrigar que os funcionários vistam camisas alusivas ao Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV) e saiam em marcha.

O diplomata Diego Enrique Arría, 80 anos, ex-governador de Caracas e ex-candidato à Presidência da Venezuela, avaliou ao Correio a decisão de uma paralisação como uma ;medida de intensidade moderada;. ;Ela será escalonada de maneira que a resposta dos trabalhadores determine o alcance e a frequência da greve, até que, seguramente, culmine em uma paralisação geral em todo o país;, comentou. Por sua vez, Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas e preso político foragido e exilado em Madri, elogiou a Lei de Garantias. ;É um bom sinal de que Guaidó deseja governar a nação com ações muito concretas e específicas. Mas acho que a melhor garantia de estabilidade para os trabalhadores, os agricultores, os estudantes e os operários passa pelo fim da usurpação. Trata-se de sair do regime de Maduro. Esta é a verdadeira garantia para que a Venezuela comece a resolver sua catástrofe humanitária;, admitiu.

Para a deputada Delsa Solorzano, integrante da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), o anúncio da paralisação escalonada respalda uma decisão prévia tomada pelos próprios líderes sindicais. ;Na reunião com o presidente, esses dirigentes expuseram a necessidade de intensificar o conflito trabalhista até que consigam suas reivindicações, tanto laborais quanto políticas;, disse, por telefone. ;Por aqui, as pessoas ganham cerca de seis dólares ao mês. Com seis dólares, nenhum ser humano pode viver. Com este salário, ninguém vive, e isso tem de ser resolvido. Os funcionários públicos são obrigados a participar de protestos em favor do ditador. Isso viola qualquer direito trabalhista.; A parlamentar afirmou não ter dúvidas de que o regime de Maduro ;chegou ao fim;.

Consultadas pelo Correio, duas cidadãs venezuelanas tiveram opiniões divergentes sobre a convocação da greve. Moradora de Valencia, no estado de Carabobo, a estilista Brenda Jiménez Morales, 45, disse não entender o motivo da paralisação. ;Tecnicamente, estamos parados. O comércio e a força produtiva estão quase no zero;, comentou. Em Maracay, no estado de Aragua, a psicóloga Maribel Pinto, 63, defendeu ações contundentes, visíveis e mensuráveis para responder à deterioração na qualidade de vida registrada nas duas últimas décadas. ;Nesses dois meses, Guaidó demonstrou seriedade, responsabilidade e planejamento. A convocação da greve forma parte do cerco a este governo.;

Divisões
Segundo o diário venezuelano ABC, a ordem de detenção de Guaidó, anteontem, foi anulada por um dos grupos leais a Maduro, graças à pressão exercida pelo governo dos Estados Unidos. Fontes asseguraram ao jornal que uma reunião prevista do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) foi adiada para depois do Carnaval. Isso apontaria para divisões dentro do próprio chavismo, que ameaçava a prisão de Guaidó assim que ele desembarcasse em Caracas. O próprio Guaidó garantiu que o regime de Maduro está perdido em ;contradições internas;. ;Estão mergulhados em contradições. Não sabem como responder ao povo da Venezuela;, provocou.





;Achavam que a pressão máxima tinha chegado. Saibam, claramente, que a pressão está apenas começando;

;Eles (assessores de Maduro) estão mergulhados em contradições. Não sabem como responder ao povo da Venezuela;

Juan Guaidó, presidente interino da Venezuela





;Mini-Guaidós; no carnaval


No carnaval venezuelano, a moda foi fantasiar as crianças de Juan Guaidó. Em Cagua, no estado de Aragua, a 45 minutos de Caracas, Yesenia Abreu colocou boné, terno e faixa presidencial no filho, Rechmial Palacios, 6 anos. ;Meu filho, apesar de muito novo, se mostra bastante centrado na realidade em que vivemos. Temos sofrido com a delinquência e a migração de familiares. Isso afeta muito todos nós. Sempre me pergunto quando Maduro partirá;, afirmou ao Correio. ;A mensagem principal é a esperança que temos de que Guaidó possa libertar a Venezuela;, acrescentou Yesenia, advogada, 39. Nas
redes sociais, vídeos e fotos de pequenos vestidos como Guaidó viralizaram na Venezuela.



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