Entusiasmo com remissão do vírus da Aids

Entusiasmo com remissão do vírus da Aids

Segundo caso mundial, apelidado de Paciente de Londres, não apresenta sinais do HIV no corpo há 18 meses, após ser submetido a um transplante de medula óssea. Cientistas acreditam que o resultado abre janela para novas estratégias de tratamento

Paloma Oliveto
postado em 06/03/2019 00:00
O anúncio da remissão do HIV em um paciente submetido a um transplante de células-tronco foi recebido com entusiasmo pela comunidade científica, que persegue, há quatro décadas, um tratamento definitivo para a síndrome da imunodeficiência humana (Aids). Na segunda-feira à noite, foi antecipado o resultado de um trabalho apresentado ontem por pesquisadores europeus que relataram, na Conferência de Retrovírus e Infecções Oportunistas, em Seattle, o segundo caso mundial de uma pessoa que ficou livre do vírus após receber uma nova medula óssea. Os autores, que também publicaram um artigo sobre a pesquisa na revista Nature, insistem, porém, que não se trata da cura da Aids.

Javier Martínez-Picado, coautor do estudo e pesquisador do Instituto Catalão de Pesquisa e Estudos Avançados, destacou ontem que o resultado do estudo mostra que o primeiro caso de remissão do HIV a longo prazo, revelado há mais de 10 anos, não foi uma mera eventualidade, como se chegou a insinuar. Na ocasião, cientistas reportaram que o norte-americano Timothy Brown, então conhecido como Paciente de Berlim, ficou livre do vírus após passar por um transplante de medula óssea para tratar de uma leucemia. ;Esse novo relato demonstra que o Paciente de Berlim não foi um caso isolado e que é possível alcançar a remissão total do HIV.;

O estudo divulgado ontem se refere a outro homem, apelidado de Paciente de Londres, que também era HIV positivo e, em 2012, foi diagnosticado com linfoma de Hodgkin, um tipo de câncer linfático. Ele fez quimioterapia, mas os resultados não foram bons, e os médicos decidiram por um transplante de células-tronco hematopoiéticas, aquelas que dão origem aos glóbulos vermelhos e às células do sistema imunológico, entre outros. O doador da medula óssea foi escolhido por uma característica genética que compartilha com cerca de 1% da população mundial. Ele carrega uma mutação em um gene que faz com que o HIV não consiga invadir as células saudáveis e, assim, se espalhar pelo organismo. O doador da medula do Paciente de Berlim também portava essa variante genética.

Reação decisiva
O tratamento a que o Paciente de Londres se submeteu, porém, foi menos agressivo. Ele fez quimioterapia, mas não passou pela radiação, como no caso de Timothy Brown. Em ambos, houve uma síndrome transitória do enxerto contra o hospedeiro, uma situação normal depois de transplantes, quando as células do doador atacam as do receptor. O que poderia ser um problema parece ter sido vantajoso: as células resistentes ao HIV tomaram conta do organismo dos pacientes, destruindo aquelas sujeitas à infecção. O Paciente de Londres parou com a terapia antirretroviral e, 18 meses depois da interrupção dos medicamentos, continua livre do vírus.

;Ainda assim, não queremos falar sobre cura ainda. Mas a verdade é que um ano sem detecção viral é algo que não víamos desde o Paciente de Berlim. Então, nossa visão é muito otimista;, observa Javier Martínez-Picado. Submeter pacientes HIV positivo a um procedimento arriscado como o transplante de medula, contudo, não é uma opção de tratamento, destacam os autores do artigo, assim como especialistas não envolvidos na pesquisa. ;Esse segundo, o ;Paciente de Londres;, cujo HIV foi controlado após um transplante de medula óssea é encorajador. Mas, no momento, o procedimento ainda carrega muito risco para ser usado em pacientes que, de outro modo, estão bem;, diz Graham Cooke, professor do Imperial College Londres, que não participou do estudo.

A avaliação é que, caso se confirme a remissão a longo prazo, abre-se uma nova janela de pesquisas, que visem reproduzir o efeito do gene mutante no organismo dos pacientes. ;O segundo caso reforça a ideia de que é possível encontrar uma cura;, disse à agência France-Presse (AFP) de Notícias Sharon R Lewin, diretora do Instituto Doherty Peter para Infecções e Imunidade da Universidade de Melbourne. ;Um transplante de medula óssea como uma cura não é viável. Mas podemos tentar determinar qual parte do transplante fez a diferença e permitiu que esse homem parasse de tomar seus medicamentos antirretrovirais.;

;Não queremos falar sobre cura ainda. Mas a verdade é que um ano sem detecção viral é algo que não víamos desde o Paciente de Berlim. Então, nossa visão é muito otimista;
Javier Martínez-Picado, coautor do estudo e pesquisador do Instituto Catalão de Pesquisa e Estudos Avançados

;Um transplante de medula óssea como uma cura não é viável. Mas podemos tentar determinar qual parte do transplante fez a diferença;
Sharon R Lewin, diretora do Instituto Doherty Peter para Infecções e Imunidade da Universidade de Melbourne

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação