Mesmo trabalho, salário menor

Mesmo trabalho, salário menor

Estudo do IBGE mostra que profissionais do sexo feminino têm rendimentos 20,5% menores que os homens. Até em áreas onde são maioria, como no setor de cosméticos, elas ganham menos do que eles

Gabriela Vinhal Beatriz Roscoe*
postado em 09/03/2019 00:00
 (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 30/4/10

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(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 30/4/10 )


As mulheres seguem ganhando salários inferiores aos dos homens, mesmo ocupando cargos em que elas são a maioria. A diferença de remuneração entre os dois grupos em 2018 foi de 20,5%, segundo um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo Diferenças no Rendimento do Trabalho de Mulheres e Homens nos Grupos Ocupacionais usou como base dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) e revela que o rendimento médio das mulheres entre 25 e 49 anos (R$ 2.050), por exemplo, foi equivalente a 79,5% do recebido por homens (R$ 2.579) da mesma idade.

Os dados são relativos ao quarto trimestre do ano passado. A população ocupada nessa faixa etária era de 56,4 milhões ; 54,7% de homens e 45,3% de mulheres. Foram analisados ainda a cor, a raça e o nível de instrução das mulheres. A diferença salarial entre os gêneros ocorreu em diversos grupos profissionais. Nos classificados como ;ciências e intelectuais;, a participação delas foi de 63%, mas os rendimentos equivaleram a 64,8% da remuneração deles. Na área administrativa, apesar de as profissionais terem sido 60% do contingente, o rendimento foi de 86,2% em relação ao dos homens.

Apesar de maioria, elas também receberam menos que os homens nos serviços domésticos em geral (95%), como professoras do ensino fundamental (84%) e como trabalhadoras de limpeza de interior de edifícios (74,9%). Nas ocupações de diretoria e gerência, elas também ficaram em desvantagem. As mulheres receberam 71,3% dos salários masculinos e representaram 41,8% dos cargos de comando. Eles foram, inclusive, a minoria no setor de cosméticos, no entanto, ganharam melhor do que elas. As mulheres representavam 59% de trabalhadores nessa função, mas receberam 66,2% do salário masculino.

Como justificativa, o estudo apontou que as mulheres trabalharam menos horas que os homens. Entretanto, o levantamento não levou em consideração as horas dedicadas a serviços domésticos. No ano passado, elas atuaram 37,9 horas, enquanto eles trabalharam por 42,7 horas. Segundo o IBGE, no ano passado, o valor médio da hora trabalhada era de R$ 13 para mulheres e de R$ 14,2 para homens. A única exceção foi com relação às mulheres do setor de segurança pública, como membros das Forças Armadas, policiais e bombeiros militares, que receberam 100% da remuneração masculina. Isso porque, segundo o IBGE, as mulheres possuem escolaridade média mais alta do que a dos homens e não ingressam na carreira no primeiro nível de hierarquia.

Precarização
Para Alessandra Camarano, advogada e presidente da Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas (Abrat), ser mulher e trabalhadora no Brasil significa ser submetida a um estado de precarização constante, sobretudo aquelas que compõem as minorias, como negras, pobres, indígenas, quilombolas e trabalhadoras rurais. ;Importante deixar claro que quando falamos em mulher trabalhadora, estamos falando de minorias, mas que são maiorias dentro do universo do mercado;, frisou. ;Estamos falando daquelas que são submetidas a trabalhos informais, precários, com jornadas exaustivas e que são assediadas, discriminadas.;

A executiva Glória Guimarães é uma das líderes do núcleo do DF do grupo Mulheres do Brasil e do comitê 80 em 8 que busca estimular mulheres a buscar estratégias e não ter medo de encarar o mercado, além de voltá-las para a área de gestão. ;Eu estudei muito, trabalhei muito. As mulheres precisam trabalhar quatro vezes mais, estudar quatro vezes mais que os homens para provarem sua credibilidade;, ressaltou. ;Não é fácil, se eu disser que é fácil, é mentira. Você tem de brigar muito, lutar muito. É importante ter iniciativa. Mas, além de habilidade, competência e conhecimento, é preciso ter oportunidade e é isso que falta muitas vezes.;

Agnes da Costa tem um cargo de gestão em um ministério e acredita que, aos poucos, as coisas estão melhorando. ;Eu acredito que essa melhoria só vem se a gente pautar de forma muito franca a questão e despertar a consciência entre as pessoas sobre como é desigual o mercado entre homens e mulheres;, destacou. Ela é uma das fundadoras do projeto Sim, Elas Existem, que entregou para os presidenciáveis, em 2018, uma lista com nomes de mulheres qualificadas para assumir cargos na área pública.

*Estagiária sob a supervisão de Cida Barbosa

;Eu acredito que essa melhoria só vem se a gente pautar de forma muito franca a questão e despertar a consciência entre as pessoas sobre como é desigual o mercado entre homens e mulheres;
Agnes da Costa, servidora

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