Caixas para vidas

Caixas para vidas

Cida Barbosa cidabarbosa.df@dabr.com.br
postado em 09/03/2019 00:00
Caixas colocadas em hospitais e unidades do Corpo de Bombeiros e da polícia para salvar vidas. Mais importante: vidas de bebês. Parece estranho, não? Eu achei. Até saber mais, numa reportagem da agência EFE. O objetivo é evitar a morte de recém-nascidos por abandono. Funciona assim: a mãe que não quer o filho, seja por qual motivo for, o coloca numa dessas caixas. Quando a criança é deixada lá, um alerta soa para serviços de emergência. Em menos de três minutos, profissionais a recolhem e a encaminham para avaliação médica. Em seguida, ela é entregue a órgão de governo para adoção.

O serviço, implantado nos Estados Unidos, foi criado pela americana Monica Kelsey, comovida com o persistente drama de recém-nascidos abandonados todos os anos em ruas, lixeiras, descampados ; grande parte morre antes de ser encontrada. A organização que Kelsey comanda, a Safe haven baby boxes, contabiliza 3.543 bebês recolhidos, desde 2017, nos cinco estados do país onde atende.

A organização faz mais: disponibiliza um número telefônico, que funciona 24 horas, voltado para mulheres em busca de informações sobre as caixas. As ligações são atendidas por especialistas. Em alguns casos, eles conseguem até demovê-las da ideia de abrir mão dos filhos. A intenção primordial, no entanto, é orientá-las e deixá-las à vontade para fazer a escolha que as tranquilizem.

A própria Kelsey foi rejeitada pela mãe com apenas duas horas de nascida. Ela soube disse quando já era adulta. E tem como foco não só proteger bebês como socorrer mães desesperadas que não sabem como resolver a situação. Nos EUA, é possível deixar crianças para adoção em escolas e quartéis de bombeiros e de polícia, mas mulheres temem ser reconhecidas, constrangidas, cobradas. Com a caixa ;semelhante a uma incubadora e com temperatura adequada ; uma mãe pode entregar anonimamente o filho indesejado e com total segurança para ambos.

Fiquei imaginando se uma iniciativa assim daria certo no Brasil. Com tantos serviços deficitários no nosso país, é difícil acreditar que funcionaria. Mas seria uma alternativa para, quem sabe, reduzirmos nossa cota frequente de abandono de vulneráveis, e a consequente morte deles.

Mas se não temos o serviço das caixas, contamos com lei que apresenta uma alternativa à crueldade do abandono. O artigo 13 do capítulo 1 do Estatuto da Criança e do Adolescente prevê a possibilidade de entrega de crianças ao Estado para adoção. As mães nem precisam explicar o motivo da renúncia ao filho. É tudo feito, portanto, dentro da legalidade. Já o abandono de incapaz é crime, com pena de três meses a seis anos de prisão.

Nem todas sabem, porém, que existe essa possibilidade legal. É necessária uma ampla e urgente divulgação por parte do poder público sobre o tema. Isso pode mudar o destino de dezenas de bebês todos os anos neste país.





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