Guerra às drogas

Guerra às drogas

NEWTON CARLOS Jornalista
postado em 09/03/2019 00:00
Surpreendente a troca de mensagens no rescaldo das eleições mexicanas. Fora eleito presidente do México Lopez Obrador, veterano combatente de causas sindicais. A expectativa era saber como Trump reagiria a isso. De forma surpreendente, os dois trocaram mensagens. Trump, mais entusiasta, afirmou ;vamos trabalhar bem;, causa de desgosto para muitos mexicanos, disse Laura Carlsen, diretora do Centro de Política Internacional com um simples ;obrigada;.

Era como se fora um navio de carga perdendo o rumo. De um lado, com Trump errático e bombástico em sua America First. De outro, com Lopez Obrador talvez recompondo a imagem, que já lhe foi dada de Hugo Chávez mexicano, veterano de embates com empresas de petróleo em favor de justiça social. Mas as trocas de mensagens apontavam em outras direções, inclusive de bom humor, coisa rara no ambiente onde aconteciam sob a proteção de dois gabinetes em geral trancados com sete chaves.

Trump e Obrador ainda trocavam, até, elogios pessoais, reforçados com a esperança manifesta de encontrar ;amoroso entendimento e mútuo respeito com seu povo e a grande nação representada;, caso de desgosto para muitos americanos. Citado como talvez mais irreal o fato de Obrador ter colocado, nas festas de transição, ;num mesmo abrigo, os presidentes de Cuba e Venezuela e vice dos Estados Unidos.

Início de uma agenda que inclui pagamentos a seis antecessores, venda ou arrendamento de jatos presidenciais, legalização da marijuana, a criação da Guarda Nacional, que seria a completa desmilitarização do México. Em meio a um embate provocado por livro no qual um professor universitário mexicano sustenta que os cartéis ;não existem e El Chapo é a maior ficção na suposta guerra às drogas;. É bom lembrar que essa guerra foi uma invenção dos Estados Unidos nos anos 1980.

Em que estamos falando quando nos referimos ao narcotráfico no México? O que significa ler que os cartéis colocam o Estado em xeque, que a guerra se intensifica nos estados de Guerrero, Tamaulipas, Jalisco e Michoacán? O que é um sicário, uma plaza, um halcón, o que é essa matança que sangra o país há tantos anos? São palavras e expressões que aparecem nos relatórios oficiais, na imprensa, nas revistas, nas novelas, nas séries de televisão ;

E, entretanto, o que significam? Fazemos bem, ao usá-las, de dizer ;guerra do tráfico; ou ao noticiar que El Chapo, Os Zetas ou Jalisco Nova? Oswaldo Zavala (cidade Juarez, 1975) diz que não. Um não taxativo. Los cárteles no existen (;os cartéis não existem;, inédito no Brasil), seu novo ensaio, questiona a narrativa oficial construída em torno da violência no México. Não há uma guerra entre cartéis, diz Zavala, embora a ;guerra entre cartéis; seja uma explicação compreensível, digerível para as dezenas de milhares de mortos e desaparecidos deixados pelo conflito. É uma isca para o Twitter. Supostos em tudo. É mostrar que há um discurso que constrói um inimigo que está por toda parte e é o principal ator da violência. E, depois, compreender o que há por trás dele ; um sistema político que lança mão da linguagem para avançar em estratégias que, de outro modo, seriam inaceitáveis. Temos de compreender que estes tempos violentos têm relação com a história do sistema político.






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