Mergulho no caos

Mergulho no caos

O maior blecaute da história do país dura mais de 24 horas, espalha transtornos entre a população e afeta Caracas, além de 23 estados. Nicolás Maduro acusa ataque do imperialismo, enquanto o presidente autodeclarado Juan Guaidó culpa o regime

Rodrigo Craveiro
postado em 09/03/2019 00:00
 (foto: Matias Delacroix/AFP)
(foto: Matias Delacroix/AFP)








Para conversar com o Correio, o motorista José Luis Silva, 53 anos, teve de percorrer 8km em busca de sinal de internet, em Barquisimeto, a 360km de Caracas. ;A eletricidade foi interrompida na maior parte do país ontem (quinta-feira), às 16h50 (17h50 em Brasília). O abastecimento de gasolina entrou em colapso e alimentos armazenados em refrigeradores começam a se decompor;, relatou Silva, que carregou a bateria do celular no carro. Em Maracaibo, a 520km da capital, uma venezuelana publicou no Twitter: ;Minha avó acaba de falecer na clínica, em meio a um apagão nacional, porque nenhuma UTI lhe ofereceu leito, nem sei o que sentir;. Outra internauta contou que um bebê de 9 meses, filho de um amigo, morreu durante a madrugada após sofrer um problema respiratório e não conseguir atendimento médico. O maior blecaute da história da Venezuela durou mais de 24 horas e espalhou o caos em Caracas e nos 23 dos 24 estados. O regime de Nicolás Maduro acusou uma ;guerra elétrica dirigida pelo imperialismo norte-americano;, sem apresentar quaisquer provas de sabotagem. Em alguns pontos da capital e em outras regiões do país, o restabelecimento de energia foi interrompido e o apagão retornou ontem à tarde.

;O imperialismo e seus aliados atacaram nosso sistema elétrico nacional, deixando sem luz tanto a chavistas quanto a opositores. Os porta-vozes imperiais celebram abertamente, devemos nos preparar para seguir resistindo e batalhando. Eles não poderão e nós venceremos!”, declarou Diosdado Cabello, número dois do chavismo e presidente da Assembleia Nacional Constituinte. Manuel Rojas Pérez, 38, vereador do município de Chacao (a 2km de Caracas), desqualifica a acusação do Palácio de Miraflores. ;Praticamente a Venezuela inteira ficou às escuras. Isso é consequência de duas coisas: a evidente ineficiência do regime de Maduro, que tem fracassado em todas as áreas produtivas e de serviços públicos; e a grosseira corrupção, a maior de nossa história, onde não se fez investimentos públicos nem manutenção da rede de energia. O dinheiro público foi desperdiçado;, lamentou à reportagem.





Manifestação
O presidente autodeclarado da Venezuela, Juan Guaidó, saiu às ruas de Caracas e aproveitou a crise elétrica para convocar a população ao protesto de hoje ; às 11h (meio-dia em Brasília), simpatizantes da oposição e do regime medirão forças nas manifestações. ;Vamos cessar a usurpação (de poder). Por isso, convocamos os venezuelanos às ruas. A solução é que interrompam a usurpação, pois Miraflores mantém a corrupção, o desastre, a falta de alimentos e de medicamentos. A Venezuela é um país que exportou o excedente de energia elétrica, a nação com as maiores reservas petrolíferas do mundo, e que hoje vive essa situação;, disse o opositor, em vídeo divulgado pelas redes sociais. Guaidó também refutou a tese de sabotagem. ;Hoje, declararam que o apagão (;) é produto de sabotagem externa. Sabotagem é a corrupção, sabotagem é não terem permitido eleições, sabotagem é o bloqueio da entrada de alimentos e de remédios;, escreveu em seu perfil no Twitter.

As mais de 24 horas sem eletricidade produziram cenas inimagináveis. Postos de gasolina lotados e com escassez de combustível, casas sem água, voos cancelados no Aeroporto Internacional Simón Bolívar (em Maiquetía), colapso do sistema de transporte. Em alguns hospitais, médicos fizeram cirurgias amparados pela luz de celulares. As linhas telefônicas e o acesso à internet funcionaram de modo intermitente. Nos poucos locais não afetados pelo blecaute, cidadãos fizeram fila para carregar o celular.

A companhia estatal Corporação Elétrica Nacional (Corpoelec) apontou sabotagem na central de Guri, às margens da represa de mesmo nome, no estado de Bolívar. ;Sabotaram a geração em Guri... Isso faz parte da guerra elétrica contra o Estado. Não permitiremos. Estamos trabalhando para recuperar o serviço;, informou a Corpoelec no Twitter. Guri é uma das maiores represas fomentadoras de energia elétrica da América Latina, atrás apenas de Itaipu, situada na fronteira entre Brasil e Paraguai. O apagão também impactou o estado brasileiro de Roraima, e as autoridades do estado ativaram cinco usinas termelétricas, anteontem, para suprir o fornecimento.





Narcotráfico
Uma Corte de Nova York condenou ontem o ministro da Indústria e ex-presidente venezuelano, Tareck El Aissami, por violação da lei de chefões estrangeiros do tráfico de drogas. El Aissami, 44 anos, ;usou sua posição de poder para se envolver no narcotráfico internacional, contornou as sanções e violou a lei americana sobre barões da droga estrangeiros;, disse Angel Meléndez, agente especial do Departamento de Segurança Nacional, citado em um comunicado do procurador federal de Manhattan. Nunca antes um ministro em exercício tinha sido acusado pela Justiça dos Estados Unidos. O empresário venezuelano Samark José López Bello também responderá pelos mesmos crimes. Tanto El Aissami quanto López Bello terão que pensar duas vezes antes de deixar a Venezuela porque são procurados pela Justiça nova-iorquina;, acrescentou a nota.




5 milhões
Total de migrantes venezuelanos forçados a deixar o país desde 2015, de acordo com a Organização dos Estados Americanos (OEA)




Eu acho...


;A versão de uma guerra elétrica não é crível. Pelo contrário, trata-se de falta de manutenção, de roubo de recursos e de inépcia dos funcionários. Nunca no país houve uma catástrofe dessa magnitude. As pessoas ficaram desesperadas ante a ausência de informação.;
José Luis Silva, 53 anos, motorista, morador de Barquisimeto, a 360km de Caracas



;Estamos seguros de que não houve sabotagem, como afirma o regime. Aqui, o que tem existido é ineficiência e corrupção. Não há guerra elétrica nem nada parecido. Em todo o caso, a única pessoa que parece travar uma guerra contra os venezuelanos é o senhor Maduro.;
Manuel Rojas Pérez, 38 anos, vereador do município de Chacao




TUITADAS

;Hoje declararam que o apagão, de mais de 15 horas, é produto de sabotagem externa. Sabotagem é a corrupção, sabotagem é não terem permitido eleições, sabotagem é o bloqueio da entrada de alimentos e de remédios.;
Juan Guaidó, presidente autodeclarado da Venezuela


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação