Um desafio chamado HIV

Um desafio chamado HIV

Há quase 40 anos, pesquisadores buscam métodos para eliminar o vírus da Aids. O fato de o patógeno atingir justamente as células de defesa e a velocidade com que ele se replica no corpo humano são algumas das peculiaridades que dificultam as estratégias de cura

Paloma Oliveto
postado em 10/03/2019 00:00



A edição de 3 de julho de 1981 do jornal The New York Times trouxe uma matéria espremida por um imenso anúncio comemorativo do dia da independência dos Estados Unidos. Na coluna da esquerda da página A20, o texto do repórter Lawrence K. Altman começava relatando que ;médicos em Nova York e na Califórnia diagnosticaram entre homens homossexuais 41 casos de uma forma de câncer rara, que, no geral, mata rapidamente. A causa do surto é desconhecida, e não há ainda evidência de contágio;.

Não era só o sarcoma de Kaposi ; o câncer que marca a pele dos pacientes com as características manchas escuras ; que estava matando essas pessoas. Como cientistas franceses e norte-americanos viriam a descobrir entre 1983 e 1984, tratava-se de um retrovírus até então desconhecido. Naquele momento, médicos haviam reportado 8.461 casos nos Estados Unidos e na Europa. Mais de 3,6 mil mortes foram registradas pelo Centro de Controle de Doenças (CDC) dos EUA.
Quase 40 anos depois dos primeiros relatos sobre a síndrome da imunodeficiência adquirida, a Aids voltou a ocupar a imprensa ao longo da semana. Mas, agora, com mais destaq
ue que as 39 linhas redigidas por Altman em 1981. Pela segunda vez na história, uma pessoa parece ter sido curada da doença, algo que só poderá ser confirmado a longo prazo. Ao passar por um transplante de medula óssea, um homem identificado como Paciente de Londres parou de produzir células infectadas pelo vírus HIV. Mais uma vez, o Times foi o primeiro a noticiar, em uma longa matéria publicada no site do jornal.

O relato da remissão da doença, que há 35 meses (18 dos quais o homem está sem medicamento) não é detectada no organismo do Paciente de Londres, representa um marco na busca pela cura de uma enfermidade que atinge 37 milhões de pessoas no mundo ; 37,7 mil delas no Brasil. Ao mesmo tempo, o resultado do trabalho, divulgado por uma equipe multicêntrica liderada por Ravindra Gupta, da Universidade de Cambridge, também expõe os muitos desafios que a ciência precisa vencer antes que a tão esperada manchete sobre a cura da Aids possa ser publicada.

São muitas as características que fazem do HIV um vírus especialmente difícil de ser derrotado. Para começar, ele atinge justamente quem poderia derrotá-lo: as células de defesa do organismo. Uma vez dentro delas, utiliza o maquinário celular para se replicar. Durante esse processo, vários erros são cometidos, e a consequência é que cada vírus produzido tem uma característica diferente do outro, impedindo que um único medicamento consiga destruir todos eles (Veja infográfico). ;A taxa de replicação do vírus também é muito alta. Enquanto a nossa capacidade de replicar as células de defesa é de 10 elevado a quatro, o HIV, sem tratamento, se replica a uma taxa de 10 elevado a 11. É uma condição muito desigual;, destaca a infectologista e pesquisadora Roberta Schiavon Nogueira, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Esconderijos
O HIV tem outra peculiaridade que impede a retirada total do vírus apenas com os antirretrovirais. Ele se esconde em santuários ; reservatórios de células de defesa onde fica latente, longe do alcance dos medicamentos. Nesses esconderijos, mesmo sem se multiplicar, produz proteínas virais. Uma pesquisa da Universidade de Johns Hopkins publicada em 2013 sugeriu que os santuários podem ser 60 vezes maiores do que se acredita. ;Para pessoas que trabalham com o vírus, descobrir o tamanho do reservatório é uma questão crítica. Nossa descoberta sugere que há muito mais desses provírus (o HIV dormente) para nos preocuparmos do que pensávamos. Isso não significa que não há esperança de cura, mas quer dizer que precisamos nos focar em ter uma ideia ainda mais clara do problema;, afirma Robert Siliciano. Atualmente, o laboratório de Siliciano trabalha em estratégias que permitam acordar os provírus com a droga rapimicina, fazendo com que os antirretrovirais cheguem a eles.

A coordenadora do Comitê de Terapêutica de HIV/Aids da Sociedade Brasileira de Infectologia, Tania Vergara, acredita que a doença será derrotada e destaca que 38 anos é quase nada em termos de pesquisas científicas. ;Nunca se descobriu tanto sobre uma doença em tão pouco tempo. Na década de 1980, não sabíamos como as pessoas se contaminavam, nem o que fazer para tratá-las;, recorda.

Inovação brasileira
É nessa linha que o pesquisador brasileiro Ricardo Diaz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), vem trabalhando. No ano passado, ele apresentou o resultado de um estudo que conseguiu eliminar o vírus do organismo de duas pessoas ; se estão curadas, só o tempo poderá garantir. A abordagem inovadora de Diaz e de seus colaboradores consistiu em combinar medicamentos usados tradicionalmente no combate ao HIV a duas outras substâncias: nicotinamida (a vitamina B3) e sal de ouro, usado normalmente no tratamento de artrite. Enquanto a primeira acorda as células onde o vírus está latente, a segunda desencadeia, no HIV, um mecanismo suicida.

Além disso, os pesquisadores desenvolveram uma vacina personalizada com pedaços do vírus de cada paciente. Assim, o sistema imunológico é capaz de encontrar os santuários e matar o micro-organismo. O pesquisador aguarda autorização do Comitê de Ética em Pesquisa para retirar o antirretroviral dos pacientes que ficaram aparentemente livres do vírus para verificar se, mesmo sem os medicamentos, o efeito obtido no estudo permanecerá.

Em 2017, Ricardo Diaz e Tania Vergara, entre outros autores, publicaram um artigo na revista The Lancet no qual descreveram como outra substância não usual no combate ao HIV (embora usada para tratar aftas dos pacientes), o anti-inflamatório talidomida pode ser uma importante arma na abordagem multiterapêutica. O estudo envolveu 30 participantes, sendo 14 controles (que não receberam a substância). A equipe demonstrou que o processo inflamatório associado ao HIV aumentou durante o uso do medicamento e, posteriormente, em estudo in vitro, verificou que a substância interrompe a latência do HIV. A médica e pesquisadora afirma que, aparentemente, a abordagem mais promissora é a combinação de estratégias. ;A cura vai existir, mas não será por uma monoterapia, nem o tratamento será igual para todos;, aposta Tania Vergara.


;Enquanto a nossa capacidade de replicar as células de defesa é de 10 elevado a quatro, o HIV, sem tratamento, se replica a uma taxa de 10 elevado a 11. É uma condição muito desigual;
Roberta Schiavon Nogueira, infectologista, pesquisadora e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia

;Nunca se descobriu tanto sobre uma doença em tão pouco tempo (;) A cura vai existir, mas não será por uma monoterapia, nem o tratamento será igual para todos;

Tania Vergara, coordenadora do Comitê de Terap

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