Sibele Negromonte

Sibele Negromonte

Por Sibele Negromonte
postado em 10/03/2019 00:00

É difícil escrever sobre o Dia da Mulher sem cair na pieguice ou no lugar-comum. Por isso, decidi falar de filhos ; mais precisamente, da criação deles. E o que crianças e feminismo têm a ver? Tudo. As falas e, sobretudo, as atitudes dos pais refletem diretamente na forma como meninos e meninas se comportam tanto na infância quanto na vida adulta.

Certo dia, quando meu marido foi buscar minha filha na escola, deparou-se com a seguinte frase da jovem que tomava conta dela depois da aula: ;Hoje Helena está impossível, não está se comportando feito uma mocinha;. Mas o que será, para uma menina com então 5 anos, comportar-se ou não feito uma mocinha?

De pronto, meu marido quis não só saber isso como questionou se os meninos que estava brincando com ela ; e que aparentemente também estavam tocando o terror ; tinham sido repreendidos por não estarem se ;comportando feito mocinhos;.

A funcionária, ainda muito jovem, que fez tal comentário estava apenas reproduzindo um pensamento que vem se perpetuando há décadas. Garotas não devem sentar de pernas abertas, não podem jogar futebol com a molecada da rua, precisam usar vestidos e laços na cabeça e, sobretudo, agir como mocinha.

De minha parte, sempre ressalto à minha filha que ela pode fazer e ser o que quiser ; inclusive, ;princesinha;. Sonha em jogar bola quando crescer? Ok, está valendo. Quer ser cientista, médica, policial, artista, mãe dedicada ao lar? Tudo certo, desde que seja feliz. Essa, sim, é a maior missão dela nesta vida.

Incluímos nas sagradas ;leiturinhas; de antes de dormir das crianças dois livros que reforçam isso. O primeiro, um presente do Natal de 2018 da minha saudosa amiga Valéria Velasco, é o 50 Brasileiras Incríveis para Conhecer Antes de Crescer, de Débora Thomé, e o segundo, adquirido mais recentemente, é o Histórias de Ninar para Garotas Rebeldes, de Elena Favilli e Francesca Cavallo. Este último traz a biografia, com linguagem bem simples, de 100 mulheres, seja daqui, de Cora Coralina e Marta, seja de fora, de Beyoncé e Michelle Obama. Exemplos inspiradores para meninas e ; por que não? ; meninos.

E, quando o assunto é criação de menino, acredito, a coisa se complica ainda mais. Afinal, cabe a nós, pais, ajudar a formar homens que vão respeitar as mulheres, como tem que ser. O meu filho, de 12 anos, ouve desde que se entende por gente, entre outros mantras sobre igualdade de gênero, que é um absurdo que mulheres que desempenham a mesma função dos homens ganhem menos que eles até hoje.

Um dia, estávamos assistindo a um filme sobre a biografia de Walt Disney e, em uma cena, o protagonista dizia que ia contratar uma mulher porque, assim, poderia pagar um salário bem baixinho para ela. No alto dos seus então 8 anos, o meu filho, em um misto de indignação e de orgulho por ter aprendido as lições ensinadas por mim, logo falou: ;Isso é machismo, né, mãe?;

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