Mulher e cientista. Por que não?

Mulher e cientista. Por que não?

São muitos os obstáculos que as pesquisadoras enfrentam; primeiro, para entrar, depois, para subir na hierarquia no mundo acadêmico. Apesar de elas produzirem metade dos artigos científicos do Brasil, ocupam cerca de 25% dos cargos mais altos da ciência

Neyrilene Costa*
postado em 10/03/2019 00:00
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

No mercado de trabalho brasileiro, as mulheres estudam mais, mas ganham menos e ocupam menor quantidade de cargos de liderança. É uma realidade que se repete em diversos setores do mercado, inclusive no mundo da ciência. Na base da pirâmide, ao começar uma carreira na pesquisa, a quantidade de pesquisadores e pesquisadoras ainda é desigual, mas a diferença não é tão gritante. À medida que se aproxima do topo da pirâmide, o montante de investigadoras só cai. No Brasil, as trabalhadoras são 44% da mão de obra, mas ocupam apenas 18% das posições de chefia, segundo a pesquisa Panorama Mulher 2018, da Talenses em parceria com o Insper. Movimento semelhante se observa no mundo dos trabalhos acadêmicos.

Em levantamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que considera mais de 134 mil doutores no país, as doutoras são responsáveis por 47% do total. No entanto, nos níveis mais altos de pesquisa, há apenas 363 pesquisadoras, contra 1.023 pesquisadores ; ou seja, elas ocupam 26% dos cargos mais altos da ciência. De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), dos 364.094 estudantes de programas de pós-graduação no país, mais da metade, 195.301, são mulheres. Atuando como professores de especialização, mestrado ou doutorado, há 76.894 profissionais, dos quais 33.318 são professoras, representando menos da metade. No Brasil, 49% dos artigos científicos publicados são de autoria feminina, de acordo com a Elsevier, maior editora científica do mundo.

Entretanto, há muita desigualdade entre o total de cientistas mulheres despontando. De acordo com especialistas, a ocupação de cargos mais altos no âmbito acadêmico é dificultada por uma série de fatores. Progressão de carreira e salarial, ambiente competitivo, assédio moral, gravidez e, principalmente, preconceito de gênero estão entre eles. ;Há muita discriminação só por ser mulher e, atrelado a isso, tem a maternidade. Às vezes, a licença para esse período é um empecilho para a progressão funcional da pesquisadora;, aponta Carolina Horta Andrade, diretora da Divisão de Química Medicinal da Sociedade Brasileira de Química (SBQ). ;Isso porque ela tem de cumprir metas para manter uma bolsa de pesquisa, como horas de aulas e produção científicas. Então, nem todas dão conta de manter o ritmo tendo filhos;, observa.

Questão de renda
Para o coordenador de ciências naturais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, Fábio Eon, um dos principais motivos da desigualdade no topo da pirâmide está na progressão de pagamento. ;Os salários pagos na ciência ainda são desiguais entre homens e mulheres. E essas diferenças vêm de baixo. O número de ingressantes no ensino superior até que é equiparado, mas, quando vai subindo para os cargos mais altos, gera-se essa grande diferença entre os sexos;, cita Fábio Eon. O que se observa também no restante do mercado. Pesquisa da plataforma de bolsas de estudos Quero Bolsa, a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), demonstrou que, em todas as carreiras, a diferença de remuneração entre sexos chega a 44,90%, com os homens sendo favorecidos em praticamente todas as profissões.

A renda média mensal de trabalhadores contratados para funções com exigência de nível superior era de R$ 3.756,84 para homens e de R$ 2.592,65 para mulheres. O salário de um cientista pode variar bastante. Em universidades, o profissional pode atuar tendo mestrado ou doutorado, podendo receber entre R$ 5.968,03 e R$ 20.530,01, respectivamente. De acordo com o Guia de Profissões e Salários gerado pelo Quero Bolsa, no Distrito Federal, a renda de um pesquisador pode variar entre R$ 1.816,50 e R$ 13 mil. Os valores mudam de acordo com a área. Os vencimentos médios de um pesquisador em ciências da terra e meio ambiente é de R$ 9.393. Porém, homens recebem 66% mais do que mulheres no mesmo nicho: as pesquisadoras ganham R$ 7.070; enquanto os pesquisadores colocam no bolso R$ 11.716 por mês.

Desequilíbrio
Há muitas discrepâncias no número de cientistas por gênero de acordo com a área da pesquisa: assim como há menos engenheiras do que engenheiros no país, isso se repete entre os cientistas: nesse ramo, há 3.077 pesquisadoras e 9.258 pesquisadores. Enquanto isso, em linguística, letras e arte, elas são 5.332, e eles 3.081.Marjorie Chaves, doutoranda em política social, mestra em história e pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (Neab/Ceam-UnB), explica que os motivos para isso começam na vida escolar. ;A ausência das mulheres nas ciências, principalmente, no campo das exatas, ocorre desde a infância devido a um estereótipo que coloca meninos como melhores em matemática do que meninas;, diz.

;Elas, geralmente, não são incentivadas às carreiras científicas, constituindo um contingente bastante pequeno nos cursos de exatas nas universidades e pesquisas;, destaca. Para além dos aspectos que dificultam escalar até o topo da pirâmide na ciência, existem os obstáculos que complicam o ingresso das mulheres na carreira de cientista. Para Marjorie Chaves, o que mais afasta as brasileiras da pesquisa é a discriminação de gênero. ;Isso devido à divisão sexual do trabalho. Em sociedades patriarcais como a nossa, mulheres exercendo ocupações consideradas próprias do feminino têm seu trabalho naturalizado como uma espécie de ;dom;, uma aptidão;, aponta. ;Uma tendência que segue para o trabalho doméstico e de cuidados com outras pessoas em um cenário de servidão e silêncio. A ciência, porém, sempre foi vista como o lugar dos homens, do masculino;, elenca.

Escopo de trabalho
O campo de atuação de uma profissional da ciência tende a ser bastante amplo. Ela pode atuar em universidades, órgãos públicos e empresas, por exemplo, de desenvolvimento tecnológico. ;Uma boa fatia da força de trabalho está nas faculdades, em que se exerce duas funções ao mesmo tempo, a de professor e a de pesquisador;, observa a diretora de avaliação da Capes, Sônia Báo. Segundo ela, a atuação em companhias particulares é mais complicada. ;Muitos dirigentes ou donos de empresas acham que ter um pesquisador no quadro de pessoal é inviável, pois geraria mais custo. É aí que se enganam, pois, para desenvolver melhores projetos, é necessário um profissional capacitado;, defende. ;No setor público, o pesquisador pode atuar em planejamentos de projetos e políticas públicas em órgãos do governo;, acrescenta.

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