Meu sobrenome é pesquisa

Meu sobrenome é pesquisa

postado em 10/03/2019 00:00
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

Não é de hoje que mulheres se destacam em laboratórios e universidades por seus feitos. Grande exemplo é Bertha Lutz (1894-1976), bióloga, ativista feminista e deputada federal. Filha de um cientista e de uma enfermeira, ela estudou ciências na Universidade de Sorbonne, em Paris. Em 1919, tornou-se a segunda mulher funcionária pública no Brasil quando passou num concurso do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Ela se especializou em anfíbios, deu aula por mais de 40 anos. Engajada com o movimento feminista, por meio de entidades como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que encabeçou campanha a qual, mais tarde, conseguiu conquistar o voto feminino, em 1932. Ela se tornou deputada federal, em 1936. Há exemplos de sucesso recentes que podem inspirar todas as meninas. Conheça a trajetória de pesquisadoras brasileiras da atualidade:

;Estou na vanguarda da ciência;

Quase uma celebridade no mundo da ciência, a astrofísica Marcelle Soares-Santos hoje é professora na Universidade de Brandeis, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Capixaba e negra, ela atua em um dos mais importantes centros de pesquisa em física de partículas, o Fermilab (Fermi National Accelerator Laboratory). A cientista pesquisa a natureza da expansão acelerada do universo. Em 2019, ela foi reconhecida pela Fundação Alfred P. Sloan, organização americana sem fins lucrativos que escolhe os jovens que mais se destacam na ciência para receber uma bolsa de US$ 70 mil para gastar com o trabalho.

Assim, é considerada parte da ;vanguarda da ciência no século 21;. Marcelle também venceu o Prêmio Alvin Tollestrup por contribuições para o Dark Energy Survey (DES), em 2014. Foi um reconhecimento pelas contribuições ao estudo da energia escura. Até 2017, tinha publicado 120 artigos e era citada em 2.235 estudos. Para ter mais exemplos como ela na ciência, é preciso mudar o modo como a realidade se apresenta. ;É necessário criar ambientes em que todos sejam respeitados e valorizados dentro da comunidade científica e na sociedade, independentemente de gênero ou da cor da pele e criar linhas de apoio contínuo aos intelectuais e cientistas jovens, com ideias transformadoras e potencial para se tornarem líderes;, afirma.

Ela se formou em física pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Com mestrado e doutorado em astrofísica pela Universidade de São Paulo (USP), a cientista acredita na importância dessa mudança de cenário. ;Ter uma representação diversa entre os pesquisadores faz com que a ciência resultante seja melhor. Se 50% das pessoas são mulheres; então, quando as excluímos estamos simplesmente deixando de aproveitar metade da capacidade humana de produção intelectual! Imagina quantos avanços faremos no dia em que tivermos contribuição mais igualitária?; (Thays Martins*)


;Amo o que faço;

Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) há quase 30 anos, Rose Monnerat, 56 anos, acredita que a profissão de pesquisadora precisa começar a ser valorizada ainda nas escolas. ;Toda criança é curiosa por natureza; então, se incentivada, pode se interessar por isso. É necessário mostrar que é possível ser cientista;, diz a graduada em ciências biológicas pela UnB. Com doutorado em agronomia e pós-doutorado em bioquímica, Rose conta que a paixão pela pesquisa surgiu, no caso dela, na faculdade. ;Sempre fui muito curiosa; então, entrei em um projeto de pesquisa e gostei. Depois, fui estagiar na Embrapa e percebi que era o que eu queria. Eu me sinto realizada;, comemora a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Ela trabalha com controle biológico de pragas de importância agrícola e vetores de doenças. ;Se estudamos o ocorrido e descobrimos o que o causou e tudo mais, podemos antecipá-lo para não ocorrer algo ruim;, comenta. ;Na pesquisa, tem-se uma dinâmica muito legal. Se você termina um trabalho, acompanha o desenvolvimento dele e, logo na frente, surge outro desafio. E começamos tudo de novo;, descreve. Na hora de escolher a carreira, ela indica, é fundamental decidir pelo que gosta. ;Tem que fazer algo que dá prazer, para tentar conciliar o carinho com a importância daquilo que se trabalha;, diz.

;Eu, por exemplo, estou quase me aposentando e parece que comecei a trabalhar ontem, isso porque me divirto com o que faço;, diz a também professora da pós-graduação em agronomia da UnB. Casada e mãe de três filhos de 22, 23 e 35 anos, ela avalia que não enfrentou tantas dificuldades para conciliar a criação dos filhos com a pesquisa. ;Tudo é possível. Eu amo minha família e amo minha pesquisa. Tudo, com carinho e apoio, dá para ser feito. Meu marido, que é pesquisador, também me ajudou muito;, lembra. Um problema que ela enfrentou foi a falta de compreensão dos outros. ;Às vezes, as pessoas nos chamam de nerd, porque acham que a gente tem uma vida diferente.; (Neyrilene Costa*)


;Estudei para vencer na vida;

Nascida no interior de São Paulo, mas com experiência em diferentes cidades no Brasil e no exterior, Dalva Maria da Silva Matos, 54 anos, é citada na lista das mulheres que mais se destacam nas pesquisas sobre incêndios florestais no planeta. Ela nutriu o desejo de estudar para vencer na vida ainda criança. ;Minha mãe faleceu quando eu tinha 12 anos e ela sempre me incentivava a estudar. A partir do ocorrido, tive mais vontade ainda de seguir estudando;, conta. Dalva concluiu a educação básica na rede pública, tendo em mente o sonho de cursar medicina para evitar que outras crianças perdessem suas mães. A primeira vez que tentou o vestibular, não passou. Então, por medo, decidiu tentar biologia, que era algo relacionado, e conseguiu.

;Na faculdade eu cursei matéria da medicina também, mas chegou um momento em que tive que decidir o que realmente queria, optei pelo curso em que estava e me encontrei;, diz. Ela se graduou em ciências biológica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). ;Não foi um período fácil e, por eu vir de uma família carente, o dinheiro que meu pai e meus irmãos mais velhos mandavam mal dava para eu me sustentar. Consegui ajuda na universidade para almoço e transporte;, relembra, agradecida. ;Eu estudava o dia todo. Fiz bolos à noite para vender em uma cantina, trabalhei como ensacadora em uma loja e fui professora de ciência, sem tempo até para almoçar;, recorda. Dalva fez mestrado em biologia vegetal também na Unicamp e doutorado em dinâmica da população de palmito na Universidade de East Anglia, na Inglaterra.

;Pensando ainda na minha ideia inicial de salvar mães, busquei isso na biologia, mas fui além: posso salvar mães, pais e filhos com o meu trabalho, pois trabalho para salvar o ambiente;, destaca. ;Então, acho que fiquei megalomaníaca em ecologia, pensan

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